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Ingenuidade e deslumbre marcam novos negócios da moda brasileira

19 de junho de 2008 | 16h 46
FERNANDA EZABELLA - REUTERS

Esqueça as pantalonas, as maxibolsas

ou os babados. Para entender de moda brasileira agora é preciso

saber o que é um fundo de investimento, uma gestora de marcas

ou uma holding operacional.

A nova tendência é difícil de usar. Chegou com estardalhaço

na temporada passada e se estende aos trancos e barrancos por

esta nova edição do São Paulo Fashion Week.

A "novidade" já deu dor e cabeça para estilistas de renome

como Alexandre Herchcovitch e Fause Haten, além da grife Zoomp,

cooptados pela gestora de grifes Identidade Moda (I'M). Os dois

primeiros se desligaram da nova empresa, e a Zoomp acabou de

fora do SPFW -- tudo por causa de problemas financeiros.

Enquanto Herchcovitch conseguiu desfazer o negócio, Fause

Haten perdeu a grife que leva seu nome inteiro, relembrando o

caso Marcelo Sommer, que vendeu sua grife Sommer ao grupo

familiar AMC Têxtil em 2004 e acabou afastado por divergências

de criação.

"Eles achavam que iam ganhar milhões, mas na verdade iam

gastar milhões. Acho que foi ingenuidade", disse a editora de

moda Regina Guerreiro sobre os empresários e estilistas do caso

I'M.

Apesar do drama, o mundo fashion não se deixa abater --

Fause Haten lançou uma nova grife, a FH, e Herchcovitch

desfilará suas coleções feminina e masculina. No lugar da I'M,

que roubou os holofotes em janeiro e depois desapareceu das

passarelas, agora é a vez da Inbrands, que já estava no

mercado, mas surge com mais poder de bala.

A Inbrands é uma holding operacional que gere a parte

logística e financeira de seu portfolio de grifes -- Ellus, 2nd

Floor e Isabela Capeto. Um dos sócios da empresa, Nelson

Alvarenga, confimou à Reuters que Herchcovitch fará parte do

grupo.

Enquanto a I'M chegou a vislumbrar um faturamento de 300

milhões de reais para este ano, triplicando o valor em cinco

anos, a Inbrands afirma que fará este ano 500 milhões de reais

e, em dois anos, terá faturamento de 1 bilhão de reais.

"Cada marca vai manter sua identidade", promete Alvarenga.

"A parte de criação, distribuição e marketing continua da mesma

maneira. O que a Inbrands vai fazer é ajudar em tudo aquilo que

o consumidor não vê, que é a parte de organização, de

logística, financeira", disse.

"O objetivo é ser a número um, ou dois no máximo, no

Brasil", disse.

Por conta da experiência de Alvarenga, que fundou a Ellus

35 anos atrás, há um otimismo dos especialistas com a Inbrands.

Além dela, também existem outros grupos formando pequenos

conglomerados de moda, embora com menos barulho -- como a AMC

Têxil (Colcci, Forum, Triton e Coca-Cola Clothing), a BR Labels

(VR Menswear e Mandi) e a Marisol (Rosa Chá e Lilica Repilica).

DESCONFIADOS

Para Regina Guerreiro, a "tendência" precisa, para dar

certo, de grupos muito fortes financeiramente para um

investimento eficaz e de um produto mais caprichado.

"Não é apostando na moda que a gente está fazendo ainda que

a gente vai conseguir exportar", disse Regina, explicando que

só beachwear e jeanswear brasileiros exportam de verdade.

"Acho que a moda brasileira deveria apostar mais em

básicos, em uma ótima qualidade e acabamento, e deixar as

pessoas personalizarem esses básicos", disse. "Porque a moda

vai pra isso. Todos os caminhos já foram percorridos. Mais um

babado, menos um babado, não vai mudar o futuro de ninguém."

Quem não entrou ainda na nova fase, olha desconfiado, mas

aberto a negociações, como o estilista Oskar Metsavaht, da

festeja e cobiçada grife Osklen, que abriu o SPFW na

terça-feira.

Ele afirmou que já foi procurado por cerca de seis grupos

de investimento e que deve fazer uma parceria com uma empresa

estratégica ligada à indústria de moda.

"Você só tem a ganhar com isso. Só não vou abdicar da minha

liberdade de estilo de vida e liberdade criativa", disse o

estilista, embora tenha se mostrado bastante cauteloso.

"O que eu disse na época (em janeiro) foi que estava tudo

bastante prematuro. Está tendo um deslumbre tanto dos fundos de

investimentos como dos designers, e eu até me incluo nisso.

Acho que há um deslumbre sem muita consistência nos negócios

ainda", disse.



Tópicos: MODA, SPFW, FUNDOS