Janelle Monáe sai do gueto para assombrar os EUA

Janelle Monáe sai do gueto para assombrar os EUA

Garota sai do gueto de Kansas City como uma espécie de James Brown futurista

12 Junho 2010 | 17h00

Roberto Nascimento - O Estado de S. Paulo

 

SÃO PAULO - Em uma noite de terça-feira do mês passado, cerca de 3 milhões de americanos bocejavam ao assistir às últimas piadas do Late Show With David Letterman quando Janelle Monáe, trajando smoking e um audacioso tufo de cabelo, subiu ao palco do programa para roubar-lhes o sono. A falta de entusiasmo de Letterman, que já se preparava para encerrar o expediente, durou pouco. Monáe fez uma pose, lançou mão do microfone como se fosse tirá-lo para dançar e embarcou em uma incendiária versão de Tightrope, o contagiante single que virou unanimidade entre críticos e ouvintes desde seu lançamento, em maio.

 

Quem não sucumbiu ao travesseiro presenciou, em TV aberta, um raro sinal de vida inteligente no universo das grandes gravadoras (Monáe tem contrato com a Atlantic), além de uma afirmação de que o pop de alto nível pode sim cair no gosto das massas. Dona de uma afinação impecável, Monáe, de 24 anos, cantou e pairou pelo palco com a elegância de Sammy Davis Jr., oferecendo sua esfuziante mescla de funk e R&B ao movimentar-se, leve e malandra, como um menino sapeca, um Robinho a pedalar sobre a bola.

 

Embora o apelo pop esteja presente, Monáe em nada lembra o rebolado vulgar de divas da MTV, tampouco toma parte na estética machista do hip-hop comercial. Seu show business está em outra categoria. Se esquivando da maquiagem de produção excessiva, ela o faz com rigor e disciplina, colocando o talento em primeiro plano como na escola de Michael Jackson e James Brown, a quem fez referência quando um assistente surgiu no palco para cobri-la com uma capa.

 

Ao fim da apresentação, seu produtor, o rapper Sean "Diddy" Combs (vulgo Puff Daddy), cuja humildade não é o ponto forte, se curvou à sua frente.

 

Mas todo o rebuliço seria apenas mais um salve à excelente geração do neo soul, gênero de artistas como Erykah Badu e Maxwell, não fosse o disco que Monáe acaba de lançar. Coroado pela crítica de publicações como Pitchfork, Paste e o L.A. Times, o ambicioso The Archandroid adiciona uma nova dimensão a seu talento: mistura pop, funk, trilha sonora, rock psicodélico, jazz orquestral e canções pastorais em uma narrativa futurista que tem como ponto de partida o clássico de ficção científica Metropolis (1927), de Fritz Lang. É um disco conceitual como The Wall do Pink Floyd e The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de David Bowie.

 

A sequência das canções conta a história da androide Cindi Mayweather, que se apaixona por um humano e tem de escapar da polícia para não ser desativada. Mayweather passa a ser uma robô/messias, tendo como missão a libertação de classes oprimidas.

 

É um tema que ressoa na vida da cantora, que cresceu em uma família negra de classe média nos subúrbios de Kansas City e viu sua música como uma arma na luta contra o preconceito. "Eu sempre senti que tinha de ser uma líder, que com a minha música daria liberdade e esperança a uma comunidade que, para ser politicamente correta, é um pouco desfavorecida", disse em entrevista ao site Reelblack, em 2008.

 

Pai viciado. Monáe aprendeu a cantar na igreja e teve de ajudar sua família desde cedo com o dinheiro que ganhava em competições de canto. Seu pai era viciado em drogas e sua mãe pouco ganhava como faxineira.

 

Em 2004, mudou-se para Nova York, onde recebeu uma bolsa da American Musical & Dramatic Academy, mas, desinteressada em seguir carreira como atriz de musicais, largou os estudos para se concentrar na concepção de um novo tipo de musical. Migrou para Atlanta, cidade conhecida como a nova Motown, onde após um de seus shows, foi abordada pelo rapper Antwan "Big Boi" Patton, do duo Outkast, que a chamou para participar do disco Idlewild.

 

O hip-hop altamente criativo do Outkast, que em Idlewild funciona também como trilha sonora de um musical, serviu de inspiração para o conceito de narrativa sonora que germinava na imaginação de Monáe.

 

Impressionado com o talento da cantora, Big Boi produziu o primeiro trabalho de Monáe, o EP Metropolis: The Chase Suite, que contém a parte inicial da saga que continua em The Archandroid. O single do álbum foi indicado para um Grammy de melhor performance e rendeu a Monáe o impulso necessário para que embarcasse na produção de seu primeiro disco.

 

The Archandroid une quase todas as vertentes da música pop, mas sem abrir mão de suas raízes no som de Stevie Wonder e de Michael Jackson. É a consequência inevitável para uma artista negra que, com o pé na cozinha, desafia a banalidade em que caiu a palavra categoria.

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