Leitor do 'Estado' conta sua experiência no júri de Gramado
Vencedor de concurso cultural integrou júri popular do 37º festival, encerrado neste fim de semana
Passar uma semana respirando cinema não é para qualquer um. Na condição de jurado, representando São Paulo, o privilégio é maior. E a coisa se torna maior ainda quando se cruza em cada canto com atores, atrizes, diretores, roteiristas e toda a gente que dedica sua vida a essa arte. Trocam-se ideias com essa turma. Certa manhã eu conversava com um ator (e agora produtor) 'global' e uma senhora muito simples nos interrompeu para tirar uma foto com ele. Ela disse: "Nossa!!! Vocês atores são tão normais... parecem com a gente... são tão diferentes do que na televisão...". Aqui em Gramado percebi, assim como a senhora da foto, que eles são "normais". Mas com o poder sobrenatural de fazer cinema.
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'Corumbiara' é o grande vencedor
A grande vantagem de compor o "júri popular" é não precisar ser um expert ou um cinéfilo. Basta ter afinidades com o tema, gostar da telona e ter sensibilidade suficiente para entender que uma cruel vulgaridade pode conviver com a poesia, que três dias de muita chuva podem ser cenário, música e iluminação para uma grande história de amor e, também, que um documentário pode ser um filme arrebatador, um filmaço. O melhor filme do festival!
Começamos nossa tarefa encarando Quase um tango. Um filme que não empolgou. Lembrava alguma coisa da TV. Destaque para a participação de Vivianne Pasmanter.
O documentário argentino La Proxima Estacion não é de deixar brasileiro (ou sul-americano) nenhum boquiaberto. Basta abrir os jornais para encontrarmos o mesmo roteiro.
Em Canção de Baal Helena Ignez nos oferece Brecht. Com música e poesia misturada com podridão e torpeza. Normal... afinal, segundo Einstein, tudo é relativo.
La teta assustada (Peru/Espanha) mostrou uma personagem intransponível. Para o júri e, possivelmente, para o público também.
Outro documentário, Cildo, mostra o pensamento e as obras do artista conceitual Cildo Meireles. Méritos por estar em Gramado.
Quarta feira, dia 12, foi a grande noite do festival. Primeiro, com o gostoso filme colombiano (sim, na Colômbia se faz ótimo filme!), um roteiro leve, divertido e bem cotado entre os jurados. Em seguida foi exibido o grande filme do festival: Corumbiara. É apresentado como documentário. É muito mais! É um filme de amor, de aventura, de suspense. Um drama. É emocionante ver "ao vivo e em cores" a luta - contra tudo e contra todos - de dois indigenistas pela preservação dos últimos índios sobreviventes de massacres em Corumbiara (RO). Um filme obrigatório! Marcelo Santos é o meu herói! Velhos tempos em que o cinema fazia heróis... Mas ele é de verdade. Tive o prazer de conhecê-lo e tomara o filme seja visto por muita gente.
Lluvia, um filme argentino muito bem feito. Cenário com muita chuva, música de muita chuva, um amor forte, e, desculpem o trocadilho, embaçado. Ótimo filme.
Em teu nome prometia. E ganhou o prêmio "maior quantidade de fade por minuto". Não sou técnico e não entendo muito, mas, meu Deus! Quanto fade! Parecia eu, quando filmo as festinhas de aniversário lá em casa... (em tempo: Fade significa aquela apagada de uma cena para passar para outra).
Na última noite o filme uruguaio Gigante agradou muito. Uma história simples mas envolvente. Em seguida assistimos ao brasileiro Corpos celestes. Um filme banal. Mal resolvido, pretensioso e forçando a barra para conquistar as emoções do espectador.
Resumo da ópera: o cinema sul-americano é muito bom. Faz-se um ótimo trabalho no Uruguai, na Argentina, na Colômbia, no Peru... O Brasil não mostrou essa bola toda neste festival e ainda teve que aplaudir Xuxa com seus trinta milhões de baixinhos que assistiram a seus filmes. Mas os destaques - Canção de Baal, Helena Ignez, a super linda e talentosa Djin Sganzerla, Vivianne Pasmanter, Vincent Carelli com o seu Corumbiara, e, finalmente, o nosso "verdadeiro" Indiana Jones, Marcelo Santos, merecem um grande e forte aplauso.
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