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'No Meu Lugar' aborda tensão de classes no Rio

Tema recorrente no cinema brasileiro ganha nova perspectiva no drama de Eduardo Valente

12 de novembro de 2009 | 14h 06
Reuters

Um incidente que resulta numa tragédia inesperada e suas bifurcações estão no centro do drama "No meu lugar," de Eduardo Valente. Aqui, a violência no Rio de Janeiro, tema recorrente do cinema nacional, é vista por um prisma mais humanista, que investiga as causas e consequências na vida de um grupo de personagens.

Cena de 'No Meu Lugar' - Divulgação
Divulgação
Cena de 'No Meu Lugar'


  video Trailer de "No Meu Lugar"  

O longa, que estreia em São Paulo, Rio, Manaus, Recife e Santos, começa com um prólogo no qual um policial, Zé Maria (Márcio Vito), é abordado na rua por uma mulher desesperada, Sandra (Luciana Bezerra), cujo patrão está sob a ameaça de um homem armado. O policial entra na casa - numa sequência nervosa, com a câmera na mão - e tiros são disparados. Começa então a narrativa.

Aos poucos, "No Meu Lugar" desvenda o que aconteceu. Mas para isso, o tempo é fraturado em três momentos cruciais para cada grupo de personagens envolvidos no incidente. Sandra é empregada da família de Elisa (Dedina Bernardelli) e começa a ter um caso com Beto (Raphael Sil), jovem entregador de um supermercado, morador de uma favela.

Num tempo imediato aos tiros, acompanhamos Zé Maria, suspenso da corporação, e morando com a filha, Janaina (Nivea Magno), que tenta a todo custo ajudar o pai a superar essa fase. No entanto, a relação dos dois começa a ficar complicada, na medida em que o policial encontra dificuldades em lidar com as pressões da investigação e seus conflitos internos.

Cinco anos depois do incidente, Elisa, casada novamente e morando em outra cidade, volta para a casa, no Rio, com seu novo marido (Licurgo Spindola) e dois filhos. O objetivo é vender a casa e enterrar o passado. Mas sua ex-sogra (Malu Rocha) não facilita as coisas.

Num filme como "No Meu Lugar", em que três narrativas se cruzam e interferem uma na outra, a montagem é crucial. Nesse sentido, o trabalho do montador Quito Ribeiro ("O Maior Amor do Mundo") é exemplar, dando tempo para que cada um dos vértices do triângulo se desenvolva organicamente, assim como a linha que os une, permitindo que as histórias aconteçam sem pressa ou com excessivas explicações.

Nisso também ajuda o trabalho de Valente, que também assina o roteiro, ao lado de Felipe Bragança ("O Céu de Suely"), criando situações verossímeis e personagens críveis, com arcos dramáticos bem desenvolvidos.

A opção para não mostrar o que realmente aconteceu no incidente que desencadeia o filme - que é apenas ouvido - também é inteligente, pois não entrega facilmente a trama, nem rotula personagens como mocinhos ou vilões.

Ao fugir das obviedades do tema da violência e da guerra de classes no Rio de Janeiro - às vezes exploradas à exaustão -, Valente faz um filme em que a cidade converge seus extremos. Mas o longa nunca exagera - os ricos não são caricatamente ricos, nem os pobres absurdamente pobres.

Os personagens são pessoas tentando sobreviver em meio à tensão socioeconômica com as ferramentas que possuem. Alguns conseguem, outros, não. (Alysson Oliveira, do Cineweb)