No segundo romance de Carol Bensimon, paisagem externa reflete a interna

Duas garotas atravessam o Rio Grande do Sul e seus próprios conflitos em 'Todos Nós Adorávamos Caubóis'; veja trailer do livro

André de Leones - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

22 Novembro 2013 | 21h30

Uma intensa movimentação caracteriza Todos Nós Adorávamos Caubóis, segundo romance da gaúcha Carol Bensimon. As protagonistas, Cora (que também é a narradora) e Julia, empreendem uma viagem de carro pelo interior do Rio Grande do Sul. Mas, claro, há viagens e viagens. Há viagens iniciáticas, quando a busca é por um modo de inserção no mundo ou em si mesmo. A viagem de Cora e Julia, contudo, está mais para o encerramento de um ciclo, algo que lhes permita seguir adiante, rumo ao capítulo seguinte de suas vidas, quer continuem juntas ou não. Logo, a movimentação é tanto exterior quanto interior.

O mote não poderia ser mais simples: garota encontra garota. Elas se conhecem na faculdade. Cora, filha de pais separados, apaixona-se por Julia, criada no interior e fragilizada por algo ocorrido na infância, um segredo familiar que veio à tona. A relação delas é intensa, mas desencontrada. Há um ruído concernente às expectativas de uma para com a outra e de ambas para consigo mesmas. O rompimento é brusco. Após um tempo separadas, vivendo no exterior, elas retomam o contato e decidem fazer uma viagem há muito planejada. A narrativa tem início aí.

O recorte temporal do romance é um dos elementos que o tornam invulgar. Há uma fluidez que remete ao estado mental de quem pegou a estrada sem um itinerário bem estabelecido e com a intenção de clarificar relações conflituosas. Cora e Julia se reencontram em limbos afetivos particulares. São dois seres estranhos às suas respectivas famílias, e a beleza da viagem está no esforço de uma aproximação que só é possível graças ao distanciamento que a estrada propicia. Ambas passaram por muito, e algo em comum, ligado à chegada (no caso de Cora) e à partida (no de Julia) de um irmão, parece ser a gramática de um idioma comum a partir do qual elas tentarão, enfim, conversar.

Esse jogo de distanciamentos e aproximações é espelhado pelo próprio deslocamento que caracteriza a espinha dorsal da narrativa. Temos a memória, mas também a estrada. Tanto nesta como naquela, a questão é como se situar. É imprescindível que os lugares pelos quais elas passam tenham lá a sua concretude, e a autora é muito bem-sucedida no modo como descreve esses pontos de passagem, as cidadezinhas, as pessoas, as estradas de terra, as paisagens. O mundo exterior sempre diz algo sobre o interior, e vice-versa. Por exemplo: “Era um quarto triste o nosso, com aquela única lâmpada de 60 watts presa por um fio”; “O sul do estado era uma ruína que se recusava a ir completamente ao chão. Por mais estranho que possa parecer, eu me sentia solidária, e sobretudo confortável, no meio daquela decadência”.

A cada quilômetro rodado ou página lida, o leitor tem a impressão de avançar externa e interiormente com e por aquelas personagens. É uma viagem cujos princípio e término são fugidios, mas que chama a atenção para paisagens humanas muito bem compostas. Vide o desfecho, que ilumina o título do romance com a luz azulada de um televisor ligado e a lembrança de um desses momentos pequenos, íntimos, e tão valiosos que justificam a viagem maior.

ANDRÉ DE LEONES É AUTOR DE TERRA DE CASAS VAZIAS (ROCCO), DENTRE OUTROS.

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