O cinema fértil do Recife, em novas produções

Cinco pernambucanos rodam longas na capital do Estado e comprovam o vigor da produção local

20 Maio 2010 | 05h00

Fábio Assunção em cena de 'O País do Desejo', de Paulo Caldas. Foto: Fred Jordão/Divulgação

 

Flavia Guerra - O Estado de S. Paulo

 

OLINDA - A cena seria impensável há 15 anos. Há duas semanas, o diretor Paulo Caldas recebia o Estado em um dos mais belos hotéis de Olinda para conversar sobre seu novo filme: O País do Desejo. Estrelado por Fábio Assunção, Maria Padilha e Gabriel Braga Nunes, o longa-metragem estava literalmente sendo preparado na tarde de domingo em que a conversa ocorreu.

 

Com elenco e parte da equipe hospedada no hotel, a trupe tinha não só vários dias para ensaiar para as filmagens, que estavam prestes a começar, como também um espaço exclusivo para estudar a dinâmica das cenas. "Imagina se eu, o Lírio Ferreira e toda a trupe que hoje faz cinema para valer no Recife filme e já planeja o quinto. Outros membros desta trupe se preparam para rodar seus próximos trabalhos. Marcelo Gomes, dirige em outubro seu terceiro longa, Era Uma Vez Verônica. Cláudio Assis filma em setembro Febre do Rato. e Cláudio Barroso, co-diretor do premiado curta O Mundo É Uma Cabeça (ao lado de Bidu Queiroz) filma seu primeiro longa, A História de Um Valente. Para completar, Kleber Mendonça Filho, que há pouco levou melhor direção e roteiro com Recife Frio no Cine PE, também se prepara para rodar seu primeiro longa em julho. "Esses são ficção. Tem outra porrada de documentário sendo preparada", celebra Caldas.

 

De olho na classe média

 

Foi-se o tempo em que só de Árido Movie vivia o cinema de Pernambuco. "Vale lembrar que nunca o cinema da gente foi só isso. O Estado teve o ciclo do Recife, que acabou em 1929 porque acabou o cinema mudo. Depois o Ciclo do Super 8, porque não se vendia mais a película 8 MM. O termo árido movie acabou levando fama porque traduzia o momento que vivíamos. Tínhamos medo de que fosse só mais uma fase, mas a produção e o fôlego se mantêm. Agora, a época é outra", comenta Marcelo Gomes.

 

Que momento é este? Diretor de Cinema, Aspirinas e Urubus, que recebeu mais de 50 prêmios em festivais pelo mundo, Gomes explica: "A primeira fase teve como temas assuntos ligados à nossa realidade social. Nós, brasileiros, tentamos sempre entender o País. E temáticas como a de Baile Perfumado, Árido Movie, Amarelo Manga, Deserto Feliz eram mais urgentes. Hoje temos maturidade para tratar de outros temas."

 

Paulo Caldas concorda. Codiretor de Baile Perfumado (com Lírio Ferreira) e do documentário O Rap do Pequeno Príncipe contra As Almas Sebosas (com Marcelo Luna), ele deixa pela primeira vez questões sociais para filmar a elite pernambucana. "É um desafio. Saí da zona de conforto para encarar algo novo. Adoro a urgência de temas, como as de Deserto e Rap, mas hoje o que me instiga é um cinema mais fantasioso, livre, com olhar na classe média e alta." O País do Desejo conta a história da pianista Roberta (Maria Padilha), que se envolve com José, padre vivido por Fábio Assunção. "Pensei no Recife como um grande cenário a céu aberto para erguer um olhar crítico, mas piedoso sobre a elite brasileira."

 

Gomes segue a mesma toada e se prepara para dirigir pela primeira vez um "filme para jovens de classe média". "Era Uma Vez Verônica fala da fase da vida em que a gente se forma na faculdade precisa virar adulto, mas ainda tem tanta dúvida... É o filme que eu queria ter visto quando tinha 23 anos, a idade da protagonista", conta Gomes, cujo segundo longa, Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo (em parceria com Karim Aïnouz) está em cartaz. "Veja só que coisa rara e boa. Mal terminei um e já vou rodar o próximo", comemora Gomes, que resolveu mirar o foco no jovem após perceber que o "regionalismo se mantém, mas os temas são universais". "Conversei com muitos jovens e vi que os tempos mudam, mas a essência das questões do cotidiano é sempre a mesma."

 

A universalidade da vida (quase) comum sempre interessou a Kleber Mendonça Filho. Premiado diretor de curtas, Kleber se prepara para rodar seu primeiro longa em julho, também no Recife. "Esta cidade é tão cinematográfica. Assunto não falta", comenta. Depois de Recife Frio, "documentário mentira" que retrata "o dia em que a capital de Pernambuco ficou fria e cinzenta", Kleber volta aos temas da classe média. "Em O Som ao Redor mais uma vez trato do universo doméstico, que retratei em outros curtas, como Eletrodoméstica e Vinil Verde", adianta o diretor, que ao receber o prêmio de melhor direção por curtas no Cine PE (o festival de cinema do Recife) há menos de duas semanas, disparou: "Vou rodar meu primeiro longa em julho. É sempre bom ter essa motivação."

 

Motivos ele tem para festejar. Como brinca Lírio Ferreira, cujo O Homem Que Engarrafava Nuvens estreou em janeiro, "vai faltar gente de cinema no Sudeste, de tantos pernambucanos que estão voltando para filmar aqui."

 

Mais do que trazer profissionais que há anos migraram para o eixo São Paulo-Rio, uma opinião parece ser unânime entre os veteranos: "A melhor coisa é perceber que há uma renovação. Além de talentos, Recife hoje tem faculdade de cinema, curso de cinema de animação, várias ações e um edital de fomento do governo estadual. Agora, não paramos nunca mais!"

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