'Os Grundrisse foram um laboratório de pesquisa de Marx'
Entrevista: Mario Duayer, professor (UFF) e tradutor
SÃO PAULO - Tradutor dos Grundrisse no Brasil, o professor Mario Duayer, da Universidade Federal Fluminense, lembra nesta entrevista ao Estado que esses esboços contêm o que alguns estudiosos sugerem ser a primeira elaboração da teoria do dinheiro de Marx - daí a importância da primeira publicação desses textos no Brasil, que integram um projeto maior: o da edição da obra do pensador e teórico alemão pela Editora Boitempo com novas traduções e revisão técnica de especialistas. A seguir, o tradutor Duayer fala sobre os Grundrisse e a editora Ivana Jinkings, da Boitempo, a respeito dos próximos lançamentos da coleção Marx-Engels; no final, a lista dos 12 títulos já publicados.
A tradução dos Grundrisse no Brasil, optando por não atenuar expressões de Marx e usar neologismos, além de trocar o tradicional "mais valia" por "mais valor", deve provocar controvérsia entre os estudiosos mais conservadores do pensador alemão. Em que medida essa revisão técnica pode ajudar a corrigir falhas de publicações mais antigas - e quais seriam as mais recorrentes?
Tendo em vista o caráter dos Grundrisse, isto é, material de trabalho, extratos, comentários e desenvolvimentos preliminares de sua crítica, a tradução ora publicada adotou o critério de não intervir estilisticamente no texto, de evitar sempre que possível a paráfrase do original. Por isso, não havia como atenuar expressões usadas por Marx que, a nosso ver, simplesmente manifestavam sua irritação com as ideias sob crítica. Com relação aos neologismos, na tradução do alemão dificilmente se pode prescindir deles. A tradução de "Mehrwert" por mais-valor em lugar de mais-valia é teoricamente indiscutível. No entanto, antes de adotá-la consultei vários pesquisadores brasileiros que trabalham no interior da tradição marxista. A opinião unânime foi de que o uso de mais-valor é de fato irreparável do ponto de vista teórico. Não saberia julgar de imediato se a tradução dos Grundrisse poderia contribuir para corrigir falhas nas traduções existentes. Todavia, é preciso sublinhar que muitas traduções dos textos de Marx não se basearam na edição crítica da MEGA (Marx-Engels-Gesamtausgabe ) e, por isso, trazem muitos problemas dos originais produzidos na antiga União Soviética. Esse problema não se restringe às traduções para o português, e explica a publicação de novas traduções em diversos idiomas a partir da MEGA. Diria que a Boitempo é pioneira nessa iniciativa em língua portuguesa.
O caráter incompleto da obra, que seria uma esboço para O Capital, justifica-se pelas constantes mudanças de Marx , banido de cidade em cidade até chegar a Londres. Como o senhor analisa o método de trabalho dos Grundrisse - que, como o senhor mesmo lembrou, constituem um laboratório de estudos. É possível que esses cadernos tragam equívocos mais tarde corrigidos por Marx?
Vários autores consideram os Grundrisse uma espécie de laboratório de pesquisa de Marx. Em outras palavras, como mencionei, trata-se de um texto de trabalho e, por isso, pode conter desenvolvimentos ainda incipientes, posteriormente completados. Equívocos, por exemplo, há inúmeros de cálculo, que, aliás, o próprio Marx assinala e segue adiante. No entanto, talvez o interesse do texto resida precisamente no fato de que nele é possível assistir à descoberta de novas categorias - corrigindo antigas ideias - como, por exemplo, mais-valor, força de trabalho, mais-valor absoluto e relativo, e que são fundamentais na elaboração de sua crítica da economia política.
Como esses Grundrisse podem ajudar os estudiosos a entender a crise financeira contemporânea?
Os Grundrisse contêm o que alguns estudiosos sugerem ser a primeira elaboração da teoria do dinheiro de Marx. No entanto, o desenvolvimento do trabalho não chega ao ponto em que as questões relativas ao dinheiro, ao crédito ou aos problemas monetários e financeiros de modo geral podem receber um tratamento detalhado e sistemático. Nesse sentido, parece-me improvável que os Grundrisse possam oferecer subsídios para compreender a especificidade da crise financeira contemporânea.
Entre os manuscritos inéditos de Marx no Brasil, quais os senhores julga os mais importantes?
Dos manuscritos que ainda não haviam sido traduzidos para o português, sem dúvida os Grundrisse são o mais importante. Contudo, há inúmeros outros que documentam a trajetória intelectual de Marx (e Engels) que merecem ser traduzidos no Brasil. Pode-se mencionar, nesse particular, os manuscritos econômicos elaborados por Marx depois dos Grundrisse e antes da redação do livro I de O Capital.
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PRÓXIMOS LANÇAMENTOS
Eis os próximos volumes da coleção Marx-Engels a sair, descritos pela editora Ivana Jinkings:
"*Crítica do Programa de Gotha (tradução, seleção e notas de Rubens Enderle) - Será a única no mundo até hoje a publicar as atas do congresso de Gotha, em que se pode ver como os trechos criticados por Marx e Engels foram em parte modificados, em parte mantidos como estavam. Será material valiosíssimo para os estudiosos, que não se encontra nem em edições alemãs. O tradutor localizou as atas nos arquivos da MEGA, numa edição empoeirada, em alemão gótico. Outra novidade será a inclusão dos comentários de Marx ao livro Estatismo e Anarquia, de Bakunin, feitos na mesma época do Crítica de Gotha e em que Marx recebe (e rebate parcialmente, mas também silencia em alguns pontos) as críticas de Bakunin sobre o suposto estatismo marxista e sua relação com Lassalle. Terá prefácio de Michael Lowy e nota explicativa do tradutor.
*As Lutas de Classes na França (tradução de Nélio Schneider) - Obra em que Marx analisa um período mais longo e extremamente movimentado da história francesa e generaliza experiências teoricamente importantes da Revolução de 1848/1849 e seus resultados. Ele aprofunda o desenvolvimento sobretudo da teoria do Estado e a teoria da revolução e chega à noção de que a realização da tarefa histórica da classe trabalhadora é impossível no quadro da república burguesa. Foi publicado pela primeira vez em 1850 como série de artigos na Neue Rheinische Zeitung/ Politisch-ökonomische Revue, de Hamburgo, com o título 1848 a 1849. Em 1895, Engels produziu uma nova edição, à qual deu o título atual As Lutas de Classe na França de 1848 a 1850, com uma extensa introdução. Nossa tradução atual é baseada no texto da edição de 1895.
*Fora esses, iniciamos outra empreitada editorial e intelectual de peso: a tradução completa de O Capital, pela primeira vez a partir do projeto alemão MEGA-2, com tradução de Rubens Enderle e supervisão editorial e apresentação do Jorge Grespan (considerado hoje o maior especialista na obra econômica de Marx)."
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O QUE JÁ SAIU
Contando os Grundrisse são 12 títulos lançados na coleção: Manifesto Comunista (1998); A Sagrada Família (2003); Os Manuscritos Econômico-filosóficos (2004); Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (2005); Sobre o Suicídio (2006); A Ideologia Alemã (2007); A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra (2008); Sobre a Questão Judaica (2010); Lutas de Classes na Alemanha (2010); 18 de brumário de Luís Bonaparte (2011); A Guerra Civil na França (2011) e Grundrisse (2011).
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