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Para críticos, João Gilberto e bossa nova ainda são insuperáveis

16 de abril de 2008 | 15h 24
FERNANDA EZABELLA - REUTERS

Nos 50 anos da bossa nova, apenas um

nome faltava para completar as comemorações que se espalham

pelo país. O cantor e violonista João Gilberto confirmou oito

apresentações para este ano, a partir de junho, para celebrar o

gênero que ajudou a fundar, com seu cantar meio falado, meio

baixinho, e seu jeito novo de tocar violão.

"João Gilberto não dá um show, dá um recital", diz Zuza

Homem de Mello, crítico e historiador de música, explicando que

o artista baiano de 76 anos está longe das parafernálias que os

artistas usam em suas apresentações.

De fato, basta um banquinho e um violão, praticamente

sinônimos de bossa nova, para o cenário de um "recital" de João

Gilberto.

"Ele prescinde de tudo o que é efeito. Prescinde de tudo o

que é necessário para mascarar a essência do espetáculo que é a

música propriamente dita", continua Zuza, autor de "Folha

Explica João Gilberto", em entrevista à Reuters.

O deslumbramento de suas platéias sempre lotadas vem em grande

parte das sutilezas e detalhes com que ele cria e recria, de

forma obsessiva, canções que o acompanharam por toda sua

carreira -- como "Doralice", "Corcovado", "Insensatez", "O

Pato", "Samba de uma Nota Só".

"Agora, isso só é percebido por quem está prestando

completa atenção na apresentação dele ou no disco", disse.

"Senão, a pessoa acha que é a mesma coisa. É sutil."

O primeiro show do ano será em 22 de junho no Carnegie

Hall, em Nova York.

Depois, se apresenta nos dias 14 e 15 de agosto no

Auditório Ibirapuera, em São Paulo; dia 24 de agosto, no

Theatro Municipal do Rio; e dia 5 de setembro, no Teatro Castro

Alves, em Salvador. Haverá ainda três shows no Japão.

MELHOR NOTÍCIA DO ANO

Para o crítico e produtor Nelson Motta, o anúncio dos shows

"é a melhor notícia para a música brasileira neste ano".

"Ele é um grande mestre, continua insuperável. Nesse gênero

que ele inventou, ele é único, nunca houve nada melhor", disse

Motta, autor de "Noites Tropicais".

Apesar das diversas contribuições para o gênero que refinou

a música popular brasileira, incluindo o maestro Tom Jobim e o

poeta Vinicius de Moraes, nada superou a "grande novidade" que

João Gilberto trouxe com seu samba sincopado no violão e jeito

único de cantar.

"Ele inventou um novo gênero musical. Não existe bossa nova

sem a batida de violão do João Gilberto. Ele criou todo um

mundo de possibilidades musicais", disse Motta.

Para o especialista, a prova da genialidade de João

Gilberto está nas regravações dos sucessos "Chega de Saudade" e

"Desafinado" que ele fez em seu último disco de estúdio, "João

Voz e Violão" (2000), que seriam muito superiores às suas

primeiras versões, "sob todos os aspectos, incluindo voz".

A fama de gênio vem junto com a de excêntrico. É

perfeccionista nas gravações e shows, além de viver recluso no

Rio de Janeiro, sem nunca dar entrevistas ou frequentar a cena

musical da cidade. É como um ermitão, nas palavras de Zuza.

SEMPRE VANGUARDA

Embora solitário, João Gilberto mantém contato com os

amigos por telefone, "e está perfeitamente ciente de tudo o que

acontece, lê jornal, vê TV", contou Motta.

Ambos os críticos são unânimes em elogiar também sua

personalidade. Um doce de pessoa, gentil e delicado, segundo

Zuza. Educado e divertido, para Motta.

"O João Gilberto é uma das maiores celebridades da música

no mundo que não tem a menor nesga de comportamento de

celebridade. Ele vive monasticamente", disse Zuza.

O ano de 1958 é considerado o marco inicial da bossa nova

com o lançamento de discos fundamentais. Começava ali um

movimento que consagria toda uma geração de músicos

brasileiros, como Nara Leão, Carlos Lyra, Luizinho Eça, João

Donato, Roberto Menescal, Baden Powell, etc.

Foi naquele ano que Gilberto lançou dois compactos que

inauguraram o movimento -- "Chega de Saudade"/"Bim Bom" e

"Desafinado"/"Oba-la-lá" -- assim como o álbum "Canção do Amor

Demais", com músicas de Jobim e Vinicius interpretadas por

Elizeth Cardoso, que também trazia duas faixas com o violão de

João.

E, mesmo com 50 anos, os críticos acreditam que a bossa

nova segue viva e ainda "emblema da música brasileira no

exterior", segundo Zuza.

"A vanguarda não envelhece", explicou o historiador,

fazendo comparação com outros movimentos e artistas, como

Mozart e Picasso.

"O que é vanguarda naquele momento não deixa de ser

vanguarda agora. O que deixa de ser é o que efetivamente não

foi."



Tópicos: MUSICA, GILBERTO, CRITICOS