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Paulo Coelho cai em armadilha ao criticar famosos em novo livro

02 de agosto de 2008 | 12h 18
MARJORIE RODRIGUES - REUTERS

Em seu novo livro, "O Vencedor Está

Só", Paulo Coelho pretende fazer uma crítica ao mundo das

celebridades, traçando várias histórias paralelas em Cannes,

durante o festival de cinema francês.

O livro foi lançado nesta sexta-feira pela editora Agir,

com tiragem de 200 mil exemplares, 100 vezes mais do que a

média do mercado editorial brasileiro. O lançamento acontece

apenas no Brasil.

Enquanto um assassino em série intriga o balneário francês,

aspirantes a modelos e atrizes cortejam produtores e diretores

que circulam pelo festival, a fim de um dia também fazer parte

do que Paulo Coelho chama de SuperClasse -- o restrito grupo

que toma as rédeas da indústria cultural.

A crítica, no entanto, não se aprofunda muito,

transformando-se em autocrítica involuntária. Afinal, o autor

de best-sellers como "O Alquimista" e "Verônica Decide Morrer"

é uma das supercelebridades erguidas pelo sistema que a

narrativa de "O Vencedor" desaprova.

Na biografia autorizada "O Mago", lançada em junho,

Fernando Morais diz que o sonho de Coelho, desde a

adolescência, era ser "famoso e reconhecido no mundo inteiro".

Em entrevista coletiva dada em junho, Morais afirmou: "Ele

nunca disse que queria ser um escritor bom. Queria ser famoso

no mundo todo." Exatamente como as personagens de seu novo

livro.

A atriz Maureen, por exemplo, deseja fazer parte da

SuperClasse para influenciar o mundo. Logo, não quer nada menos

que o Oscar e Cannes. Já Gabriela, outra atriz aspirante,

sente-se velha já aos 25 anos e, apesar da boa formação, aceita

ser somente um joguete da indústria.

Igor, embora seja o assassino, é uma das raras personagens

que desprezam a ambição: "Os adolescentes, ao invés de

conhecerem os verdadeiros valores da fé e da esperança, sonham

em virar artistas", diz.

Além dessas, há várias outras personagens no livro --

tantas, que Coelho acaba por não desenvolvê-las.

Para quem leu a biografia, fica ainda mais difícil não

comparar criador e criatura. No primeiro capítulo de "O Mago",

Morais narra a visita do escritor a Budapeste, em 2005, quando

ele teve um verdadeiro ataque de estrelismo.

Ao desembarcar no aeroporto, Coelho ficou visivelmente

desapontado. Pegou o celular, fez uma ligação: "Não há ninguém

à minha espera em Budapeste! Sim! Só isso mesmo que você ouviu.

Isso mesmo: não-há-ninguém-à-minha-espera-em-Budapeste. Não,

ninguém. Eu disse ninguém."

Quinze minutos depois, uma multidão de jornalistas e fãs

aparece no aeroporto e, então, Coelho se anima.

Em "O Vencedor Está Só", no entanto, é bobagem deixar-se

levar pelos jornalistas e fãs -- segundo a narrativa

moralizante, o público modera seus gostos a partir da moda.

Hoje, cultua; amanhã, apedreja.

Em um dos capítulos do livro, um anônimo protesta em um

bar contra a mercantilização da cultura, adotando a visão já

repetida diversas vezes pelo narrador. "Se um desequilibrado

mata a facadas alguns inocentes, o mundo inteiro se horroriza.

Mas quem dá atenção à violência intelectual que acontece em

Cannes?", diz a personagem.

"Já não se trata de escolher o melhor filme, mas de ...

obrigar as pessoas a comprarem produtos que não desejam,

esquecerem a arte para pensar na moda", continua, sem conseguir

a atenção de ninguém.

Inclusive do próprio Coelho, que costuma ser duramente

criticado pela imprensa especializada, mas é fenômeno de vendas

mundo afora. Em seu novo livro, ele mantém o estilo

extremamente simplificado, quase infantil.

Difícil saber se a crítica ao culto às celebridades e ao

consumo conspícuo derrapou ou se Coelho está apenas descrevendo

a si e à indústria de que faz parte. De todo modo, é quase

certo que "O Vencedor Está Só" será mais um sucesso de vendas.

Paulo Coelho continuará a fazer parte da SuperClasse.



Tópicos: LIVRO, COELHO, NOVO