'Qualquer Gato Vira-Lata...' chega aos cinemas
Peça de Juca de Oliveira sobre as novas relações amorosas chega às telas, por Tubaldini Jr. e Pedro Rovai
Flavia Guerra - O Estado de S. Paulo

RIO - Há duas semanas, no último dia de filmagem de Qualquer Gato Vira-Lata Tem Uma Vida Sexual Mais Sadia do Que a Nossa, o ‘ator’ mais ‘estrela’ do filme era o cão Rei. Autêntico espécime da raça Rhodesian ridgeback, mesmo depois de os atores Malvino Salvador e Rita Guedes deixarem o set, Rei ainda tinha de filmar várias cenas. "Neste filme, o cachorro manda. Com os atores, já finalizei, mas ainda preciso rodar o plano, o contraplano do Rei. Afinal, este filme não tem gato no título à toa", brincou o diretor Tomas Portella, no intervalo para o almoço em um casarão de Santa Tereza, cenário da casa do biólogo Conrado (Malvino Salvador).
A cena em questão era emblemática: Ângela (Rita Guedes), ex-namorada de Conrado, leva sem permissão Charles Darwin (o cachorro) embora. A cada cena, Darwin não sabe se ‘escolhe’ o dono ou a ex-dona. Daí a teoria de Portella procede. Nesta comédia (quase) romântica, a ‘sabedoria animal’ é crucial. Qualquer Gato é inspirado na peça homônima de Juca de Oliveira que levou 1 milhão de pessoas ao teatro entre 1998 e 2002.
Estrelada exatamente por Rita Guedes, a peça foi inspirada nas observações do próprio dramaturgo sobre a vida de sua filha, "que não o ouvia e vivia tendo decepções amorosas", o texto faz uma brincadeira, com muito de verdade, sobre o papel da mulher na eterna ‘dança do acasalamento’. "Apesar de a sociedade ter mudado muito, e da mulher agora ir à caça, o homem ainda é caçador. E é com esses erros e acertos que o filme brinca", contava o produtor Tubaldini Jr. enquanto assistia à cena de Ângela (Rita) levar Charles Darwin embora.
Para Salvador, o filme atualiza a questão. "Desde que o Juca escreveu o texto, muita coisa mudou. A mulher ganhou ainda mais espaço na sociedade. E essa mudança cria um choque. Socialmente e biologicamente, isso é muito novo", completou o ator, que ‘perdeu’ o cachorro para a ex, que está, na verdade, morrendo de ciúme de Tati (Cleo Pires).
Cobaia. Para relembrar, Tati é a jovem estudante de Direito que, cansada de ser ignorada pelo namorado mimado, Marcelo (Dudu Azevedo), oferece-se como cobaia para as pesquisas do professor Conrado. "Ele tem uma tese muito polêmica sobre a harmonia entre as conquistas amorosas dos humanos e as leis da biologia. Ele mesmo é vítima disso. Em vez de ser o macho caçador, é tímido e a ex-namorada é quem vive mandando nele. Leva até o cachorro embora! E ele acaba se apaixonando por Tati! Acho que o homem também ainda está em busca seu papel", comenta Salvador.
Foi de olho nessa comédia de erros que os produtores Tubaldini Jr. e Pedro Rovai decidiram levar a peça para o cinema. "A parceria com Rovai foi fundamental. Poucos produtores nacionais sabem produzir filmes com, e de, humor como ele", comenta Tubaldini. Experiente no teatro (comemora o sucesso da peça Toc-Toc, há mais de um ano em cartaz), Tubaldini já produziu curtas e documentários. Com Gato faz sua estreia na produção de longas-metragens. Já Rovai é veterano do cinema. Um dos criadores da pornochanchada, ele comenta: "Percebi que havia uma lacuna nesse tipo de cinema, o da comédia adulta. Comédia, e sexo, é sempre bom. Por minha própria experiência, sei que o brasileiro adora rir de si mesmo no cinema", brinca
Confirmando a aposta dos produtores, a Buena Vista International entra como coprodutora do filme, que tem estreia prevista para janeiro de 2011.
A volta de Pedro Rovai à comédia
Tudo estava perfeito no último dia de Qualquer Gato Vira-Lata. O cão Rei não bancou a estrela, Rita Guedes (estrela da peça) tinha voado de Los Angeles (onde mora) para rodar suas cenas como Ângela, e ‘só’ faltava dizer ‘corta’ para comemorar.
Também faltava Pedro Rovai. "Sou produtor à moda antiga, começo a dar muita sugestão e, por isso, prefiro ficar longe do set." Muito por isso, pouco antes do derradeiro take, a produção buscar Rovai em casa, na zona sul, para estar presente em Santa Tereza na hora do ‘corta’!
Assistente de Luís Sérgio Person no cult São Paulo S/A (1965), Rovai tem currículo eclético. Diretor e produtor de A Viúva Virgem (1972), que levou 2,7 milhões de pessoas ao cinema, foi um dos pioneiros da pornochanchada. "Na época em que o Cinema Novo estava preocupado com questões políticas, queríamos questionar os costumes, fazer rir, fazer público", diz Rovai, que, versátil, se tornou produtor teatral de sucesso nos anos 90 (Piaf e A Gaiola das Loucas) e apostou no cinema infantil com Tainá - Uma Aventura na Amazônia. "Agora, volto à comédia com o Gato e começo a rodar Tainá 3 em julho."
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