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Tom Zé, um artista que se imola e devora as críticas

Após polêmica sobre comercial de refrigerante, o mestre dá sua resposta musical em ‘Tribunal do Feicebuqui’

02 de janeiro de 2014 | 7h 06
Wilson Alves-Bezerra, Especial para o Estado

Tom Zé, em 2013, mostrou mais uma vez sua relevância como artista e criador inquieto: lançou um compacto duplo, em vinil, para debater com seu público. Prensado na República Checa, o disquinho veio à luz com tiragem de 500 exemplares, numerados. Nele, estão reunidas cinco das canções do EP, lançadas meses antes, no site do artista para download gratuito. O nome do EP virtual, como do compacto de vinil, é o sugestivo Tribunal do Feicebuqui.

Tom Zé, um artista que pode tomar a palavra quando quer - Divulgação
Divulgação
Tom Zé, um artista que pode tomar a palavra quando quer

Em relação ao EP, o compacto ganha a bela capa de Mallu Magalhães - com uma imagem do artista em pose de presidiário ou Cristo na cruz - e o encarte com as letras das canções, além do texto Ordem no Tribunal!, no qual se relata, em linguagem jurídica, a polêmica que deu origem ao trabalho. A versão digital trazia os créditos num arquivo PDF; o compacto organiza-os sob a direção de arte de Cristina Naumovs.

As origens do disquinho são conhecidas. A arena, os adversários e os aliados, surpreendentes. Em fevereiro, Tom Zé emprestou sua voz para a locução de um comercial de refrigerante, "A copa de todo mundo". A propaganda trazia as costumeiras imagens festivas do Brasil, emolduradas por um discurso inclusivo que associava o País de todo o mundo ao esporte de todo mundo e à bebida de todo mundo. A gritaria contra o artista foi notável: ele foi julgado e condenado nas redes sociais como "vendido". A premissa é que o "artista autêntico" não pode fazer propaganda, ainda mais do refrigerante gringo, ícone do capitalismo. Curioso é lembrar que o episódio aconteceu poucas semanas antes da onda de protestos de junho, que também encontrou nas redes sociais um ponto de mobilização e articulação. Pensar nisso deixa ainda mais complexa a noção de tribunal popular trazida pelo disco do baiano.

O fato é que Tom Zé - perto de completar 80 anos de idade, 45 anos desde o lançamento do primeiro disco, alguns deles amargando um esquecimento que lhe permitiu ser jardineiro do próprio condomínio - acusou o golpe. E, ato seguido, tomou para si a acusação da qual foi alvo: doou o cachê da propaganda para a Banda de Irará e colocou-se como réu no Tribunal. Mas também assumiu, enfim, o papel que alguns artistas se outorgam em tempos difíceis: expressou-se de maneira pública e singular sobre os acontecimentos de seu entorno.

Grátis. Além de lançar o EP em seu site - que agora ressurge em disco - nas semanas seguintes, compôs e publicou ainda outras canções para audição gratuita, dando continuidade a seu projeto da década passada, Imprensa Cantada (2003). A música mais representativa é, sem dúvida, Povo Novo, que canta e reflete sobre as manifestações de rua. Esta, porém, não figura no compacto, que centra forças na borbulhante polêmica do comercial de refrigerante.

O vinil de Tribunal do Feicebuqui decanta aqueles momentos e transforma processo em produto, a discussão fugaz da rede social na bolacha preta, analógica e manipulável. Obra de colecionador nos dias que correm, alheio ao universo do Facebook, o anacrônico compacto duplo é sobretudo provocativo. Outrora portador da "música de trabalho", com potencial para ser veiculada nas paradas de sucesso das emissoras de rádio e tevê, agora ele, feito esfinge, inquire os detratores do mundo virtual.

De modo sagaz, o artista se imola e coisifica ao se associar radicalmente, nas letras, ao universo da propaganda. Logo na música de abertura, canta: "Vendido, vendido, vendido / a preço de banana / Já não olha mais para o samba / tá estudando propaganda", fazendo referência a seus discos Estudando o Samba (1975) e Estudando o Pagode (2005). Já em Zé a Zero embaralha os fonemas para dizer: "Aqui copa coca acolá / Fazendo propaganda do Tom Zé". Fica a pergunta, desafiadora, também da faixa de abertura, bradada pelo rapper Emicida: "Que é que custava morrer de fome só para fazer música?". Bastante rara tal lucidez no mundo em que a canção deixou de ser uma commodity em alta no mercado.



No lado B, mais dois momentos singulares. O primeiro deles, a marca maior de uma sociedade que insiste em não ser laica: numa quase marchinha, o poeta vai supostamente contrito pedir perdão ao papa para "o tipo de pecado que acabaram de inventar". E apela: "No Feicebuqui da Santa Sé / Papa Francisco perdoa Tom Zé".

O disco é encerrado com um jingle do guaraná Taí, que Tom Zé compôs no tempo em que trabalhou na DPZ, há 40 anos. Pois a canção, que legitima o passado de iniquidades do artista, ressurge metamorfoseada na versão de The Hips of Tradition (1992) com o acréscimo de uma beat-box ao fundo, aliada a intervenções tangueiras de um bandônion.

Ao final da audição se pode perceber como o artista devorou o refrigerante e os críticos. A resposta musical e pública à polêmica dá a dimensão de Tom Zé como artista que se afeta pelo que também publicamente se diz sobre seus gestos. Mas também como o artista que pode tomar a palavra quando quer. O lançamento ligeiro de Tribunal do Feicebuqui mostra quanto é diferente o Brasil contemporâneo daquele em que para voltar à cena, Tom Zé precisou de 20 anos e da chancela legitimadora da "redescoberta" de David Byrne.

O disquinho mostra ainda que o flerte entre criação artística e mercado é antigo em sua trajetória, e que ele há tempos ri disso. Muitos artistas poderiam prestar um serviço para a maior marca de refrigerantes do planeta. Mas poucos, bem poucos, concluído o trabalho, poderiam se dar ao luxo de expressar, "na hora do breque, um belo arroto de coca cola" como já cantava Tom Zé, em 1968, em seu Guindaste a Rigor.

*WILSON ALVES-BEZERRA É COORDENADOR DE CULTURA DA UFSCAR E AUTOR DE 'DA CLÍNICA DO DESEJO A SUA ESCRITA' 




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