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Após 1 ano, mães 'órfãs' vivem drama da solidão

Mulheres que ficaram solitárias depois da tragédia relatam ódio, tristeza e depressão

25 de janeiro de 2014 | 16h 23
Diego Zanchetta - O Estado de S. Paulo

Em menos de dois anos, Elaine Marques Gonçalves, de 66 anos, perdeu o marido e os dois filhos. Daves Gonçalves, de 33 anos, e o irmão Gustavo, de 26, estavam na boate Kiss em 27 de janeiro de 2013. Em uma residência de madeira reformada por um programa de TV logo após a tragédia, na periferia, a dona de casa vive solitária. Ela quase não tem forças para trabalhar e vive sob o efeito de antidepressivos. É uma das mães que se tornaram "órfãs" após o incêndio.

Elaine Gonçalves segura foto dos dois filhos mortos - Evelton de Freitas/Estadão
Evelton de Freitas/Estadão
Elaine Gonçalves segura foto dos dois filhos mortos

"Deixo o rádio bem alto, com música gaúcha, do jeito que o Daves gostava. Hoje não está ligado porque vocês me pegaram em um dia que estou muito triste mesmo. Me deu uma saudades dos meninos. Tenho vontade de gritar e pedir ajuda da minha mãe, de pedir uma explicação para ela do porquê Deus levar meus garotos desse jeito", diz Elaine, que faz bolos e doces para sobreviver. Evangélica, seu único passeio é ir à igreja. "Tem dia que não tem jeito, não consigo trabalhar. Nada me dá forças para sair da cama."

O marido de Elaine morreu um ano antes do incêndio na boate. "Eu e os meninos sofremos tanto, lutamos contra a doença do pai durante dois anos. E, depois de tudo, ainda perdi eles", diz.

Pela casa, fotos do marido e dos filhos espalhadas. Elaine pega o porta-retrato dos meninos que fica na cozinha, ao lado do fogão. Aperta contra o peito e chora. "Essa dor nunca vai passar, nunca. Eles eram minha vida, minha razão de existir. Ainda sinto o cheiro do Daves quando entro no quarto dele", conta a dona de casa, que está sob tratamento psiquiátrico, oferecido pela prefeitura às famílias das vítimas.

Quando o assunto é a falta de prisões ou culpados, Elaine para imediatamente de chorar e toma um ar transtornado. Junta os dentes e fala com raiva. Parece outra pessoa. "Esses desgraçados (donos da boate), eu queria matar eles. Se eu vejo eles na rua não sei nem o que posso fazer. Eles acabaram com a minha vida e a dos meus filhos."

Remédios. Outras mães ficaram sós e vivem à base de antidepressivos. Marise Dias de Oliveira, de 47 anos, era mãe de Lucas de Oliveira, de 19, seu único filho. Como Elaine, mora em uma casa simples em Santa Maria, com uma parreira de uvas verdes no quintal. Para ela, parece que a morte "foi ontem".

"Ele ficava aqui, tocando violão embaixo da sombra da parreira. É o lugar da casa onde gosto de ficar", diz a dona de casa. Lucas estava com a namorada, que sobreviveu. Ela usava o chapéu de violeiro do rapaz, quando escapou da boate. O chapéu fica sob a cama de Lucas, ao lado de seu violão. A mãe também mandou fazer pôsteres do garoto, que ficam na parede do quarto, transformado em um tipo de memorial do filho.

Marise também passa por tratamento psicológico. Ela fala do filho o tempo todo. Lucas era domador de cavalos e sonhava fazer Medicina Veterinária. Espírita, a dona de casa afirma que não consegue fazer o que sua religião prega e aceitar a morte do jovem. "Parece que estou vendo ele chegar e me dar um beijo, perguntar: ‘Como você está, véia?’", diz. O marido trabalha no litoral gaúcho e fica a maior parte do mês fora.

A manicure Fani Milanova Torres, de 63 anos, também perdeu a filha única. Aluna de Pedagogia, Flávia Torres Lemos comemorava 22 anos na Kiss. "O aniversário dela era dia 25, mas a festa com os amigos foi no sábado, na boate. Fiquei sozinha", diz a manicure. Fani mora em Santa Maria e ajudou a fundar a ONG Para Sempre Cinderelas, com outras mães de vítimas da tragédia.





Tópicos: Boate Kiss, Santa Maria

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