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Por dentro da Nova Palestina

Ocupação com 8 mil famílias na zona sul de São Paulo tem rigidez no controle de moradores e organização meticulosa

15 de janeiro de 2014 | 10h 57
Renato Vieira - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Quem trafega pela Estrada do M'Boi Mirim, na zona sul de São Paulo, nas proximidades do Parque Guarapiranga, na direção de Embu-Guaçu, vê à direita barracos de lona em várias cores. Do preto ao vermelho, do azul ao laranja. Mas o que chama a atenção daqueles que passam costumeiramente por ali é ver que o terreno, na região do Jardim Ângela, abandonado até novembro do ano passado, se tornou uma grande ocupação com 8 mil famílias, vindas de diversos pontos de São Paulo. São pessoas que deixaram para trás aluguéis considerados altos para seus padrões de vida e casas de parentes para ter um canto mínimo e precário para chamar de seu, com uma organização e controle que dariam inveja a muitos condomínios.

Essa é a realidade da ocupação Nova Palestina, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Desde o dia 29 de novembro, eles estão no terreno, de propriedade privada, que mede cerca de 1 milhão de metros quadrados. Segundo o movimento, a Prefeitura o declarou na gestão Gilberto Kassab como Zona de Proteção e Desenvolvimento Sustentável, permitindo edificações em 10% da área. O Estado visitou o local na terça-feira, 14, pela manhã.


O MTST se empenha para mudar o tipo de zoneamento, tornando-a Zona Especial de Interesse Social 4 (ZEIS 4) para que haja construções em 30% do terreno. A intenção da Prefeitura é fazer um parque público no local. "Já existe um parque aqui do lado. O que as 8 mil famílias que estão aqui precisam é de moradia", diz Juscelino Matos, o Jota, 34. Militante do MTST há dez anos, ele é responsável pelo Setor de Organização da Nova Palestina. Jota é um dos que registraram a presença dos moradores nas assembleias realizadas diariamente às 19 horas e suas ações, como cooperação nas cozinhas e ajuda aos outros ocupantes. Cada iniciativa vale pontos. Os que obtiverem pontuação maior teriam prioridade em adquirir um apartamento no conjunto habitacional cuja construção almejam, através da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) e do programa federal Minha Casa Minha Vida.

A entrada da ocupação é na Rua Clamecy. Uma espécie de guarita, onde ficam os representantes do MTST, é o "portão principal" da Nova Palestina, com dezenas de mosquitos, lama e muito calor. Homens enchem um galão de água puxada da rua para uso coletivo. "Aqui as pessoas vão se ajudando. Só assim a gente vai conseguir ter o mínimo de conforto", conta Jota.

De lá, a reportagem é guiada por Jota pelo terreno. Ele explica que os barracos são organizados em 21 grupos. Cada um deles tem uma identificação em sua fachada, com seu respectivo agrupamento, como se fosse sua rua, e número. Os grupos têm cozinhas com energia elétrica - "puxada por aí", disse Jota -, além de banheiros masculinos e femininos, sem chuveiro. Os barracos não têm luz. "Não há estrutura e, mesmo se houvesse, poderia haver um incêndio e queimar tudo. A cozinha temos que ter por necessidade", avalia o militante. Construções de alvenaria também são proibidas, já que o MTST pretende que o local seja um conjunto habitacional e não "uma nova favela".


Entre os moradores está a dona de casa Tereza Maria de Cristo, que está na ocupação desde dezembro. Um de seus filhos, que pagava o aluguel de uma casa na Vila Remo, também na zona sul, foi assassinado no ano passado. Desde então ela mora em um pequeno barraco na Nova Palestina e divide dois colchões com seus dez filhos. Os danos na lona por causa da chuva e o calor são compensados pela colaboração e convívio com os outros moradores. "O clima é muito bom aqui. Todo mundo conversa e bate papo. É bom pra desanuviar minha cabeça".


'Andorinhas'.
Meio-dia. Na cozinha do G1, duas mulheres preparam a comida. O cardápio do dia é arroz e frango. Os alimentos e os utensílios domésticos são doados pelos próprios moradores, que veem TV e ouvem música à espera do almoço. Um quadro define as regras da cozinha para os moradores. Acampados não podem entrar, discussões são proibidas, assim como fumo e palavrões. E, por último, mas não menos importante: "Quem não ajuda, não vai ter presença". Ou seja: sem pontos a acumular.


Jota explica que o sistema serve para verificar quem realmente merece ter moradia. "O que a gente não quer aqui são 'as andorinhas', as pessoas que vêm e somem nas ocupações. A participação dos moradores é importante pra mostrar quem realmente necessita de casa". Segundo ele, 4 mil famílias estão na lista de espera para uma vaga na Nova Palestina.

Foi por causa do sistema de pontuação que o MTST conseguiu reunir 6 mil pessoas em um protesto que bloqueou a Marginal do Pinheiros e a Ponte do Socorro na sexta-feira, 10. O ato foi uma resposta à suspensão da política de desapropriações para construções de moradia e a declaração do prefeito Fernando Haddad, feita na semana passada, de que a construção de moradias para as 8 mil famílias degradaria toda a região e que a zona sul "precisava de um respiro". Consultada, a Prefeitura diz que a posição do município permanece a mesma.

Política. Jota afirma que o MTST é apartidário. "Se tiver de cobrar do PSDB, do PT, do PSOL, a gente cobra". Mas alguns dos líderes do movimento já participaram de reuniões com integrantes do PSOL, como Guilherme Boulos, da coordenação nacional da organização. Em 2012, ele foi convidado por Stan, candidato a prefeito de Taboão da Serra, para dar contribuição ao programa de governo.


"Quando somos chamados para falar sobre nossa experiência como movimento social, vamos. O que a gente quer é debater", afirma Boulos. Segundo ele, nenhum coordenador do movimento tem filiação partidária.

Durante a visita do Estado à ocupação, assessores do vereador José Police Neto (PSD) estavam visitando o local. Consultados, eles disseram que se tratava apenas de uma "visita extra-oficial" e que o vereador está em férias.





Tópicos: Nova Palestina, MTST

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