Promotor vê nazismo em ação que quer remover albergue de Pinheiros
Comerciantes e moradores não queriam abrigo em área residencial; caso foi parar na Delegacia de Intolerância Racial
Em um pedido com 1,2 mil assinaturas levado ao Ministério Público Estadual (MPE) no dia 29, moradores de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, tentavam impedir que um albergue para moradores de rua no bairro fosse transferido para uma área residencial mais nobre da Rua Cardeal Arcoverde. Mas o efeito foi inverso. Ontem, o promotor Maurício Antonio Ribeiro Lopes comparou a iniciativa às tomadas na Alemanha nazista.
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Lopes indeferiu o pedido e enviou os nomes de seis síndicos que assinaram a petição para a Delegacia de Polícia Especializada em Crimes Raciais de Delitos de Intolerância (Decradi). Todos serão alvo de inquérito por intolerância social, prevista na Constituição (art. 5.º, inciso 41).
"É de provocar inveja a qualquer higienista social do Terceiro Reich a demonstração de tal insensibilidade. A ideia - ou que ocupa o que deveria ser o seu lugar - associando pobreza e criminalidade e violência não tem guarida teórica e ética", escreveu. "Esse pedido é muito revoltante", disse ele ontem ao Estado.
O abaixo-assinado foi organizado por comerciantes e moradores de Pinheiros e se posiciona contra a mudança do albergue Cor da Prefeitura que hoje funciona no número 1.968 da Rua Cardeal Arcoverde, mas está prestes a ser transferido ao 3.041 da mesma rua - um trecho mais nobre e residencial, entre as Ruas Simão Álvares e Deputado Lacerda Franco. O local oferece melhores condições para o funcionamento do centro e tem mais quartos, segundo o governo municipal.

Mas, segundo o que os vizinhos do novo endereço relataram ao MPE no pedido de intervenção contra o albergue, "o comércio possivelmente não vai sobreviver, uma vez que a população local será acuada em suas residências e os visitantes de outros bairros vão nos trocar por centros comerciais mais tranquilos". Eles também reclamam de constantes ataques de cachorros de moradores de rua contra "crianças e idosos". Até um boletim de ocorrência de 2006 com um desses supostos ataques foi anexado no abaixo-assinado.
Ana Arlene Carvalho, relações públicas e síndica de um prédio do bairro, reagiu com indignação à comparação feita pelo promotor. "Então bota os sem-teto na porta da casa dele. Será que ele aceita?" Ela negou que exista preconceito contra os sem-teto e afirmou que colabora frequentemente com um albergue da região do Brás, no centro.
A comerciante Joacy Sant’Anna Lui, de 57 anos, diz que já teve problemas com um albergue que funcionou perto dali durante a gestão Marta Suplicy (PT), entre 2001 e 2004. "Um dia acharam um corpo de uma pessoa dentro de um freezer nesse albergue. Você acha isso uma coisa normal? Eu não acho." Segundo ela, um local alternativo para a implantação do albergue fica próximo da Subprefeitura de Pinheiros, na Rua Sumidouro. "Essa região está cheia de galpões vazios. Eles poderiam colocá-los lá."

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