Série de erros causa maior incêndio em 50 anos: 231 mortos e 127 feridos

Tragédia começou às 2h30 de domingo, 27, quando um músico acendeu um sinalizador para dar início ao show pirotécnico da banda Gurizada Fandangueira

Lucas Azevedo, especial para o Estado,

27 Janeiro 2013 | 21h35

Atualizado em 28/01, às 8h52

SANTA MARIA - O incêndio com mais mortes nos últimos 50 anos no Brasil causou comoção nacional e grande repercussão internacional. Em poucos minutos, 231 pessoas - na maioria jovens - morreram na boate Kiss de Santa Maria - cidade universitária de 261 mil habitantes na região central do Rio Grande do Sul. Outras 127 ficaram feridas. No início da madrugada desta segunda-feira, 28, a Secretaria da Segurança do Governo do Rio Grande do Sul divulgou lista atualizada e o número de vítimas identificadas passou de 233 para 231 pessoas.

A tragédia começou às 2h30 de domingo, 27, quando um músico acendeu um sinalizador para dar início ao show pirotécnico da banda Gurizada Fandangueira. No momento, cerca de 2 mil pessoas acompanhavam a festa organizada por estudantes do primeiro ano das faculdades de Tecnologia de Alimentos, Agronomia, Medicina Veterinária, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Uma fagulha atingiu o sistema de exaustão da casa noturna e o fogo se alastrou rapidamente pelo teto com papelão e material de proteção acústica. A maioria das vítimas, porém, não foi atingida pelas chamas - 90% morreram asfixiadas.

Uma série de erros potencializou a tragédia. Sem porta de emergência nem sinalização, muitas pessoas em pânico e no escuro não conseguiram achar a única saída existente na boate. Com a fumaça, várias morreram perto do banheiro. Para piorar, seguranças da casa tentaram impedir alguns frequentadores de sair antes de pagar a comanda. Na rua estreita, o escoamento do público foi difícil. Bombeiros e voluntários quebraram as paredes externas da boate para aumentar a passagem. Mas, ao tentarem entrar, tiveram de abrir caminho no meio dos corpos para chegar às pessoas que ainda estavam agonizando. Muitos celulares tocavam ao mesmo tempo - eram pais e amigos em busca de informações.

Como o Instituto Médico-Legal não comportava, os corpos foram levados a um ginásio da cidade, onde parentes desesperados passaram o dia fazendo reconhecimento. Lá também foi realizado o velório coletivo.

Ao longo do dia, centenas de manifestações de solidariedade lembraram a tragédia em todo o País. Emocionada, a presidente Dilma Rousseff chorou duas vezes ao falar do caso - ainda no Chile, de manhã, onde deixou um encontro com presidentes, e à tarde, ao lado do governador Tarso Genro, já em Santa Maria.

Uma única porta, saída não sinalizada, escuridão, fumaça, falta de orientação e pânico aumentaram a tragédia na boate Kiss. Os bloqueios no caminho fizeram com que 90% das 233 vítimas fossem mortas por asfixia enquanto tentavam escapar, segundo bombeiros. Poucos corpos foram tirados da casa noturna queimados, mas muitos estavam cobertos de fuligem.

O desastre aconteceu com a casa cheia. Por volta das 2h30, a banda Gurizada Fandangueira tocava no palco, durante a festa Agromerados. O evento, organizado por alunos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) reunia cerca de 2 mil pessoas, a maioria no primeiro ano de Tecnologia de Alimentos, Agronomia, Medicina Veterinária, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio ou Pedagogia.

Segundo testemunhas, em determinado momento do show, a banda usou um tipo de fogo de artifício conhecido como "sputnik" ou "chuva de prata": faíscas prateadas saíram de um pequeno morteiro instalado no palco. Uma fagulha entrou no sistema de exaustão e o fogo atingiu o teto do salão, baixo e feito de papelão e material de proteção acústica.

As chamas se espalharam rapidamente pela estrutura. Testemunhas contam que o vocalista da banda, Marcelo de Jesus dos Santos, tentou apagar o incêndio com um extintor, mas o equipamento não funcionou.

Em pouco tempo, o público concentrado no salão onde fica o palco percebeu o fogo e começou a correr. Mas um curto-circuito apagou a luz. No escuro e sem indicações de saída, muitos se perderam no caminho. Alguns foram parar no banheiro.

O Plano de Prevenção de Combate a Incêndio da boate Kiss estava vencido desde agosto de 2012, segundo o comandante-geral do Corpo de Bombeiros do Rio Grande do Sul, coronel Guido Pedroso de Melo. A casa também não tinha saída de emergência: só havia um local de acesso, que funcionava como entrada e saída.

Durante o incêndio, as primeiras pessoas que chegaram a essa única porta não conseguiram sair. Isso porque os seguranças impediram a saída de algumas pessoas (leia mais ao lado). Mesmo depois que a porta foi aberta, só havia uma saída, que não era suficiente para escoar todo o público. Bombeiros e voluntários quebraram as paredes externas da boate, voltadas para a Rua dos Andradas, para aumentar a passagem.

A via é estreita e os carros estacionados atrapalharam o resgate. Além disso, ao tentarem entrar no local, os bombeiros se depararam com uma barreira de corpos logo na porta - eram as vítimas que tentaram sair. "Os soldados tiveram de abrir caminho no meio dos corpos para tentar chegar às pessoas que ainda estavam agonizando", descreve o comandante-geral Guido Pedroso de Melo. Muitos celulares tocavam ao mesmo tempo - eram parentes e amigos em busca de informações.

Pela mesma porta, bombeiros e voluntários entravam para combater as chamas. Aos poucos, os corpos foram sendo removidos e colocados na calçada na frente da boate. Até o fim da manhã, todas as vítimas já haviam sido levadas ao Centro Desportivo Municipal (CDM). Lá, foram organizadas por agentes do governo estadual e colocados à disposição dos parentes que foram fazer o reconhecimento das vítimas.

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