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Toque de recolher altera rotina da periferia de São Paulo

Na zona norte, moradores dizem que ordem para baixar portas vem do crime e da PM

10 de novembro de 2012 | 16h 14
Pablo Pereira, de O Estado de S.Paulo

Notícia atualizada às 21h22

Comerciante baixa as portas de açougue, no Jardim Damasceno - José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão
Comerciante baixa as portas de açougue, no Jardim Damasceno

O telefone do açougue tocou logo após as 17h30 de quarta-feira e a funcionária ouviu uma voz que mandava fechar o comércio naquele momento. Se não obedecesse, alguém ia descer bala na loja. Avisado da ligação, o gerente imediatamente começou a baixar as portas. "Não vou esperar para ver", afirmou ele, assustado, cercado por auxiliares nervosos, que foram dispensados do expediente da loja de carnes três horas mais cedo.

O açougue fica na esquina da Avenida Deputado Cantídio Sampaio com a Rua Avoante, no Jardim Damasceno, vizinho à Vila Brasilândia, na zona norte. A região vive assombrada por uma onda de toques de recolher, ameaças a comerciantes, tiroteios e uma Operação Saturação da Polícia Militar, deflagrada após bandidos executarem a soldado Marta Umbelina da Silva, na noite de sábado da semana passada, na frente de sua filha, de 11 anos.

Dois dias após o assassinato da PM, marginais atearam fogo a um ônibus na ladeira da Rua Santa Cruz da Conceição, no Jardim Guarani, atropelaram três pessoas, mataram um homem e trocaram tiros com a PM. Menos de uma hora depois, homens não identificados atiraram em um grupo de moradores na calçada, a cem metros da ladeira, baleando o instalador de som Carlos Eduardo dos Santos, de 20 anos, que morreu no hospital, e o ajudante Luis Ricardo Romão, de 25, que morreu um dia depois.

O medo se espalhou. Nos dias seguintes, a vida ficou tensa também no Jardim Carumbé e na Parada de Taipas. A PM reforçou a presença na área e o toque de recolher no início da noite passou a ser voz corrente nas comunidades. Na Cantídio Sampaio, o temor da ordem dada por telefone para o açougue levou ao fechamento antecipado do mercadinho vizinho e da loja de pássaros, na mesma calçada.

Segundo um soldado do posto policial da avenida, a ordem é dada pelo crime. "Quem dá a ordem é o bandido do local. A gente nem fica sabendo porque os comerciantes não avisam."

De acordo com lojistas, é exatamente ao cair da noite que o faturamento deles melhora. "É no fim do dia que as lojas vendem bem porque o pessoal chega do centro nos ônibus e passa por aqui antes de subir para casa", afirmou um comerciante, assustado, pedindo para não ser identificado. "Mas, se o açougue fecha, não dá pra ficar sozinho aqui. A gente fecha também."

Sem aulas. No alto da Brasilândia, a Escola Ubaldo Costa Leite foi fechada na terça-feira. A justificativa oficial da direção foi a falta de energia provocada pela batida do ônibus que foi jogado ladeira abaixo e atingiu um poste. Mas mães de alunos contaram que o clima de violência e boatos de toques de recolher no Jardim Guarani têm assustado a população há dias.

"A minha filha não veio. Eu não deixei", disse Maria Alves, de 52 anos. "A gente vive com medo, moço", disse ela no portão da escola. A filha dela, de 18 anos, estuda no turno da noite. Havia dois dias que a mãe, para preservar a vida da menina, a proibira de ir às aulas.

Para a vendedora Cristiele Henrique, de 30 anos, mãe de um garoto de 11, do 5.º ano, que também não foi à escola, o toque de recolher naqueles dias de terror foi dados pelos próprios PMs. "Os policiais passaram avisando para fechar", disse.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública, em São Paulo não existe toque de recolher, apenas boatos espalhados por pessoas que se aproveitam do clima de medo nesses bairros. A Secretaria afirma que, em caso de boatos de toque de recolher, as pessoas devem avisar pelo telefone 190.






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