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Vestibular do samba-enredo é 3 vezes mais disputado que Medicina na USP

Briga para ter letra consagrada no Rio ou em São Paulo chega a atrair 150 candidatos; compositores investem até R$ 27 mil para vencer

10 de fevereiro de 2013 | 8h 42
Valéria França, O Estado de S.Paulo

Quem está no ziriguidum dos sambódromos não imagina como os compositores de sambas-enredo tiveram de se preparar e investir pesado para chegar ali e, enfim, colher as glórias junto ao público. O “vestibular” pelo qual eles passam é até três vezes mais concorrido do que o curso de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com 51,18 candidatos por vaga para o ingresso neste ano. A Beija-Flor, no Rio, por exemplo, recebe até 150 sambas para eliminatórias do carnaval.

Em São Paulo, diminui a contenda. Escolas do Grupo Especial recebem, em média, 20 músicas por seleção. “A disputa no Rio é maior porque a festa é maior e isso implica diretamente tempo de exibição na televisão, visibilidade no mundo inteiro e quantidade de dinheiro que a Sapucaí atrai”, explica André Ricardo, de 36 anos, que neste ano aparece como coautor dos sambas-enredo das escolas Acadêmicos do Tatuapé e Leandro de Itaquera, além de mais quatro escolas menores do Grupo de Acesso.

Na Sapucaí, o sambista ganha sucesso e lucro. A maioria também está de olho no valor do direito autoral que varia de R$ 250 mil a R$ 450 mil, dependendo da escola. Em São Paulo, a quantia não passa de R$ 60 mil.

“São Paulo paga menos, mas importou o mesmo sistema rígido do processo seletivo do Rio”, conta Ricardo, uma das estrelas do carnaval paulistano. Morador da Aclimação, está nos bastidores da folia desde os 7 anos de idade.

Antes de abrirem inscrições, em meados de julho, as escolas distribuem uma sinopse. Os candidatos têm no máximo 30 dias para apresentar a música e o CD já gravado em estúdio com intérpretes, arranjadores e músicos.

“Para concorrer, gastei o equivalente a um carro”, diz o administrador Felipe Mendonça, de 35 anos, que neste ano emplacou seu samba na Acadêmicos do Tucuruvi, depois de desembolsar uma verba de R$ 27 mil. “O samba não é meu”, corrige-se. “Tenho parceria com mais cinco sambistas. Para conseguir a verba total, o jeito foi achar sócios para a música. Por isso que hoje as coautorias são tão comuns”, continua Mendonça.

Processo seletivo. Em agosto, as escolas começam o processo seletivo. Daí são marcadas datas para que o sambista faça seu show. Isso inclui contratar intérpretes, músicos, levar torcida organizada, papel picado e placas. “Os donos do samba precisam pagar os ingressos da torcida e, muitas vezes, providenciar o transporte”, diz Mendonça, que entrou na disputa há três anos, como hobby.

O show é precedido de uma eficiente estratégia de divulgação. “Há uma farta distribuição de CDs do samba-enredo. A música também é enviada por e-mail e colocada no YouTube” diz o carioca Igor Sorriso, intérprete de 25 anos que passou a participar também das disputas em escolas de São Paulo. “O mais difícil é fazer o público aprender a letra da música. No dia do show, as pessoas precisam cantar com os intérpretes. A participação da torcida ajuda o samba a crescer e dar uma ideia do quanto pode ser impactante no sambódromo.” Sorriso desfila pela Acadêmicos do Tucuruvi, que presta homenagem ao centenário de Mazzaropi, um dos maiores comediantes do País.

No Rio ou em São Paulo, paga-se o mesmo para entrar na disputa pelo samba-enredo de uma escola. “Mesmo que o gasto seja grande e o retorno pequeno para o sambista paulistano, é impagável a sensação de ouvir o sambódromo cantando sua música”, diz Mendonça. “Vale qualquer esforço.”






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