Comércio em moeda local com a Argentina ainda é modesto
Enquanto Banco Central defende que sistema está crescendo no Brasil, economista fala em 'sonho de verão'
A declaração final da cúpula dos Brics - Brasil, Rússia, Índia e China -, em junho, não faz referências explícitas ao tema da substituição do dólar no comércio mundial. Mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz - repetidas vezes. À uma revista chinesa, em maio, disse que "é absurdo que duas nações comerciais importantes continuem a fazer comércio na moeda de um terceiro país". Neste mês, em Áquila, na Itália, divulgou o empenho brasileiro em adotar programas de comércio em moeda local com China, Índia e os vizinhos sul-americanos.
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Por enquanto, o que o Brasil tem para mostrar é o programa assinado com a Argentina, que entrou em operação em 2008. O mecanismo foi idealizado em 2005 como um piloto para o Mercosul. Em junho, girou cerca de R$ 27 milhões em exportações e R$ 249 mil em importações. Embora represente apenas 2% das exportações brasileiras para o País e 1,15% do comércio total, a avaliação do Banco Central é positiva. "A tendência é crescente", diz Maria Celina Berardinelli Arraes, diretora de Assuntos Internacionais do Banco Central.
O professor da Fundação Instituto de Administração (FIA), Celso Grisi, afirma, porém, que o mecanismo não vai ganhar força no País, devido à falta de confiança do mercado na economia argentina. "O Brasil pode importar em real, pega o real, manda para o banqueiro argentino, que transforma isso em peso e paga a empresa argentina. Agora, nós vamos receber peso aqui? O banqueiro vai ficar estocado em peso e entregar real para o exportador brasileiro? Ele não vai fazer isso, o peso é uma moeda que não inspira nenhuma confiança", diz.
Para ele, o comércio em moeda local é um "sonho de uma noite de verão". "A Argentina é um país que tem que aplicar um imposto sobre a exportação para controlar a inflação. E mais: ninguém acredita que controlou, a gente acha que eles estão maquiando a economia para dizer que não tem inflação. Uma economia sob essa suspeita vai conseguir fazer aceita sua moeda?"
Maria Celina, por outro lado, frisa o aumento do número de operações, de 4 para 98, e os sinais de aprovação por parte das empresas. Atualmente, 119 empresas utilizam o sistema. "Estamos atendendo a um nicho", diz. O BC reconhece que os valores envolvidos ainda são baixos, mas que isto já era previsto em uma fase inicial, uma vez que as empresas grandes já trabalham com seus próprios mecanismos de defesa contra a volatilidade do dólar, como as operações de hedge. "É uma outra cultura", diz Maria Celina. Depois de Argentina, o Brasil pretende adotar o mesmo mecanismo com Uruguai, no segundo semestre de 2009, e com o Paraguai, para o que ainda aguarda alterações no sistema de pagamentos deste país.
Entre os BRICs, o Brasil iniciou as conversas com China e Índia. Mas a negociação está em fase inicial. O BC preparou notas técnicas para que os países tomem conhecimento dos detalhes do mecanismo e ainda não há previsões ou metas para a sua implementação. Os chineses, atualmente os maiores parceiros comerciais do Brasil, mostraram maior entusiasmo. Eles também estudam seus próprios mecanismos para o comércio com parceiros vizinhos. No início desta semana, o país lançou um programa piloto, assinado por seis empresas de Xangai, para a troca de produtos com Indonésia e Hong Kong em moeda local.
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