Ex-funcionária de Tânia Bulhões confirma esquema
Braço direito da empresária Tania Bulhões diz que 70% do valor real das mercadorias era pago por fora
A administradora de empresas Magali Bertuol, braço direito da empresária Tania Bulhões até abril do ano passado, confirmou à Polícia Federal as suspeitas levantadas pela Operação Porto Europa - missão integrada entre PF, Receita Federal e Ministério Público Federal que apura fraudes em importações do Grupo Tania Bulhões.
Em depoimento ao delegado Alexsander Castro de Olivera, da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros da PF em São Paulo, Magali afirmou que 70% do valor real das mercadorias trazidas do exterior era "pago por fora". Disse, ainda, suspeitar que o grupo comercializava mercadorias sem nota fiscal ou com valores subfaturados.
O intrincado processo de importação dos artigos de decoração começava com o retorno de Tania das feiras internacionais, onde escolhia os produtos a serem adquiridos. A partir daí, Magali entrava em contato com os fornecedores para efetuar os pedidos. As faturas (denominadas pro forma) eram então traduzidas e remetidas para as importadoras All Trade Logistics e Eurosete Internacional, com sede em Miami, nos Estados Unidos, e By Brazil, investigada em 2005 por intermediar compras para a butique Daslu.
Magali afirma que era o empresário Márcio Campos Gonçalves, dono da All Trade e da Eurosete, quem refazia as notas de importação "com a redução de algo em torno de 60% (do valor real)". Na maioria das vezes, diz a ex-funcionária, ele seguia instruções de Tania. Magali disse se recordar de dois pagamentos feitos a Gonçalves, um por meio de dólar-cabo (remessa de dinheiro não declarado) e outro num paraíso fiscal.
A ex-funcionária reconheceu ainda o manuscrito apreendido em agosto de 2006 pela Operação Dilúvio da PF e reproduzido no relatório de inteligência fiscal da Receita, base da investigação que atingiu os negócios do Grupo Tania Bulhões. Ela explicou aos federais o significado de cada uma das oito etapas do esquema utilizado pela empresária para, em tese, simular o valor das importações.
Apesar de não trazer novas revelações sobre as vendas de Tania no Brasil, Magali disse suspeitar que a loja comercializava mercadorias sem nota fiscal ou com valores reduzidos. Diante de duas tabelas escritas em códigos apreendidas pela PF, a ex-funcionária declarou: "seriam os códigos utilizados no sistema informatizado para vendas no mercado interno com sonegação fiscais". Na sequência, esclareceu "que não sabe certamente o que significam (os códigos), pois se tratava de informações do departamento de vendas, contudo acredita tratar-se de códigos de porcentuais de nota fiscal para operação de vendas".
Magali contou que, desde de 2005, sugeria a Tania que importasse os produtos por meio da licença denominada "Radar". Mas só após a prisão de Eliana Tranchesi, dona da Daslu, é que Tania pediu a Magali que agilizasse o processo de obtenção da autorização.
A advogada Beatriz Catta Preta, que defende o empresário Gonçalves, reagiu às suspeitas contra seu cliente. "Márcio é um empresário honesto. As operações são realizadas sempre de acordo com as instruções dadas pelo cliente", afirmou. "Essa é a efetiva participação dele no caso. Ele armazenou as mercadorias compradas na Europa e, no momento em que ela pede o envio ao Brasil, ele o faz na forma da lei."
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