Após morte, CBA proíbe ultrapassagem na Curva do Café
Enquanto inspetor da FIA não visitar autódromo, corridas vão começar com bandeira amarela naquele trecho
Duas mortes na Curva do Café do circuito de Interlagos, entre 9 de dezembro de 2007 e o último domingo, foram suficientes para o presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), Clayton Pinteiro, tomar uma medida radical, conforme explicou, na última segunda-feira, à Agência Estado: "Solicitei hoje (segunda) à FIA o envio de um inspetor ao autódromo e enquanto não encontramos uma solução para melhorar a segurança as corridas vão começar com bandeira amarela naquele trecho". A bandeira proíbe ultrapassagens no setor e impõe a redução de velocidade.

Na etapa de encerramento do campeonato da Stock Car Light de 2007, o paranaense Rafael Sperafico morreu depois de bater na barreira de pneus na reduzida área de escape da Curva do Café, que antecede a Reta dos Boxes, e ao ser lançado de volta à pista recebeu o impacto do carro de Renato Russo. O piloto faleceu na hora. No último domingo, o paulista Gustavo Sondermann, na prova de picapes Montana da Stock Car, envolveu-se em acidente de dinâmica semelhante à de Sperafico, na mesma curva do Café, e também perdeu a vida.
"Depois do ocorrido com Rafael Sperafico foi tentada a instalação do chamado "softwall" no local (em substituição aos pneus), mas vimos que não funcionou", argumentou Pinteiro. Trata-se de um muro retrátil. "Penso que não há outra saída para o local a não ser a ampliação da área de escape", afirmou. A medida exigiria a destruição de parte das arquibancadas de alvenaria que lá existe e é questionada, por exemplo, pelo engenheiro civil Chico Rosa, da administração de Interlagos. "O espaço necessário é grande e fugiria à área do circuito, pois o muro do perímetro do autódromo não está longe do local", explicou.
O fato é que como está não pode ficar. Os próprios pilotos da Stock Car já se mobilizam para exigir mudanças. Mas há problemas administrativos graves para a solução poder ser implantada. "A primeira dificuldade vem do fato de Interlagos ser um circuito homologado pela FIA e qualquer alteração necessita da sua concordância", disse Pinteiro. E há o mais complexo, que é a burocracia da Prefeitura de São Paulo.
"Mudanças de relevância devem ser encaminhadas para serem incorporadas ao pacote que todo ano a FIA solicita para o GP do Brasil", contou Rosa, "até também por causa da agenda de Interlagos". Isso quer dizer que, se o autódromo precisar de algo urgente, como agora, não será possível fazer mudanças agora. É necessário esperar o início as obras para a Fórmula 1, torcer para a FIA aprovar a mudança e a prefeitura concordar em executá-la, o mais difícil se não for de interesse exclusivo da Fórmula 1.
Depois do acidente fatal de Sperafico, o Conselho Técnico Desportivo Nacional (CTDN) encaminhou, por meio do seu presidente, Nestor Valduga, um pedido à administração de Interlagos. "Realizamos um teste da Stock Car utilizando uma chicane que há antes da Curva do Café, feita para o pessoal das motos, e os pilotos aprovaram. A partir daí solicitamos a melhora da chicane", disse Valduga. Obra relativamente simples e de baixo custo.
Rosa admite ter recebido o documento. "Eu o encaminhei para os responsáveis de engenharia da Fórmula 1 que trabalham para os promotores da prova, a fim de que consultassem Charlie Whiting, o inspetor de segurança da FIA". O que aconteceu a partir daí, o administrador de Interlagos diz desconhecer. Sabe-se que a consulta foi feita e Whiting não se opôs. Respondeu: "A Fórmula 1 não precisa da chicane. Se o autódromo a considera importante para suas necessidades, deve dar andamento com a CBA".
No melhor estilo da administração pública brasileira, o projeto de apenas melhorar a chicane antes da Curva do Café morreu ali. Com os vários envolvidos não se entendendo e, pior, sem demonstrar o interesse que a situação exigia para ir fundo na questão.
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