O tão concentrado Brasil sofreu uma pane...
Seleção brasileira não teve liderança, organização e equilíbrio emocional na momento que mais precisou na Copa do Mundo
Poucas vezes uma seleção brasileira chegou à Copa tão fechada e unida como a equipe do técnico Dunga. Os jogadores classificados de problemáticos ficaram de fora da lista. A harmonia e a união entre os atletas foi o ponto destacado para conseguir a conquista do hexacampeonato na África do Sul. Tudo isso, porém, não foi capaz para evitar que o Brasil sofresse uma pane na etapa final e acabasse eliminado diante da Holanda.

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Foi a terceira vez na história da Copa que o Brasil sofreu uma virada. E nunca da forma que sofreu nesta sexta-feira. Depois de ter um primeiro tempo avassalador, com chances até de marcar três ou quatro gols, a apresentação do Brasil no segundo tempo com certeza encheu a cabeça do torcedor de perguntas. Como explicar o vexame do Brasil? Como explicar que um grupo tão unido se perdesse pelo nervosismo.
Respostas são difíceis. Talvez um histórico de tudo o que aconteceu nos traga alguma solução. Dunga chegou ao Brasil em 2006, após a Copa do Mundo da Alemanha, em que a equipe de Parreira acabou eliminada pela França. Naquela época, o Brasil era criticado pelo excessivo oba-oba. O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, decidiu inovar com a contratação de Dunga - pessoa de personalidade forte, e que teria capacidade para colocar limite aos atletas.
O começo de Dunga não foi fácil. Sob a desconfiança dos torcedores brasileiros, o treinador recebeu críticas - muitas. Demonstrou estar perdido no início do trabalho, mesmo com o apoio de Jorginho como auxiliar. Dunga convocou muitos atletas até definir uma base. Muitas convocações tidas como bizarras. Lembram de Afonso Alves, que se destacou por ser artilheiro no futebol holandês? E olha que curiosamente fomos eliminados pela Holanda.
Pois bem. Era difícil não assistir um jogo do Brasil e ver os torcedores gritando "adeus Dunga", no início do trabalho do treinador. Os coros foram até a disputa dos Jogos Olímpicos de Pequim. Dunga definiu uma base, mas teve de engolir a convocação de Ronaldinho Gaúcho, imposta por Ricardo Teixeira. Não conseguiu ganhar o ouro olímpico. Jornais de todos os cantos do Brasil assinaram a carta de demissão do treinador.
Mas ele ficou. Ricardo Teixeira surpreendeu de novo ao manter o treinador - seria um fantoche?. Então Dunga decidiu chamar para o seu lado os jogadores de confiança. Aqueles que faziam parte da família Dunga, ou hoje apelidada de "Era Felipe Melo". Fechado com um grupo de atletas, o Brasil se definiu, e ganhou - chegaram os títulos da Copa América, a liderança das Eliminatórias Sul-Americanas e a Copa das Confederações.
Dunga ficou importante e definiu em sua mente que o importante era manter o grupo fechado e se concentrar apenas no Mundial. Definiu como grande craque da seleção brasileira Kaká. O camisa 10 do Brasil ganhou a responsabilidade de liderar a equipe dentro de campo, e ser o homem para chamar a responsabilidade. Mas foi contundido no Mundial. Não brilhou, e foi um dos mais descontrolados dentro de campo - levou vermelho contra a Costa do Marfim, brigou com jornalistas por causa da religião e revidou agressões.
Todos criticaram Dunga por manter de fora da convocação jogadores como Ronaldinho Gaúcho e Paulo Henrique Ganso. O primeiro foi cortado por ser muito baladeiro. O outro não ganhou a chance de ir à África por não ter participações na seleção. Adriano também ficou de fora da lista das convocações, mas a ausência do Imperador aconteceu pelos problemas extra-campo - escândalos, suposto envolvimento com traficantes e outras coisas mais.
Enfim, o Brasil na Copa adotou uma postura de isolamento total. Dunga barrou a presença da imprensa na maioria dos treinos para ensaiar jogadas secretas - pela primeira vez decidiu peitar os profissionais de imprensa durante a coletiva. A tão criticada Argentina adotou uma postura diferente. Maradona, que chegou brigado com todos, fez as pazes, deixou os atletas mais livres, e privilegiou a qualidade técnica na convocação - até agora tem encantado.
Contra a Holanda, o Brasil viveu seu primeiro grande desafio. Enfrentou o primeiro rival de qualidade. E colheu o fracasso. O primeiro tempo foi fantástico, mas ilusório. Fez 1 a 0 com Robinho e perdeu a chance de marcar mais dois ou três. Mas a etapa final foi um desastre. Após sofrer a virada, com erros da defesa - especialmente Felipe Melo -, o Brasil sentiu a falta de jogadores capazes de virar a situação.
Kaká sumiu. Robinho desapareceu. Lúcio não conseguiu cumprir seu papel de capitão e Luis Fabiano quase nem foi notado. Lembram do jogo Santos e Santo André, quando o Ganso assumiu a responsabilidade e segurou a bola nos minutos finais para evitar a perda do título? Talvez o Brasil tenha caído por não ter um jogador deste tipo dentro do elenco.
A falta de Elano, machucado, também pode entrar na lista de tópicos que expliquem a queda. Difícil mesmo é definir um único fator para a pane sofrida pela seleção brasileira no segundo tempo. São muitos: excesso de isolamento, má convocação, falta de liderança, contusões, erro no esquema tático...
Enfim, o Brasil caiu. Perdeu para os nervos. E Dunga encerrou sua era. Em 2006, caímos diante pelo oba-oba. E em 2010 caímos pelo isolamento.
Se o 22.º dia da Copa do Mundo terminou em tristeza para a seleção brasileira - eliminada por 2 a 1 para a Holanda -, o mesmo não pode ser dito a respeito do Uruguai que, de forma dramática, eliminou Gana nos pênaltis por 4 a 2, após empate por 1 a 1 no tempo regulamentar e prorrogação, voltando às semifinais depois de 40 anos.
A DEFESA DA COPA. O Uruguai está novamente nas semifinais de uma Copa do Mundo após 40 anos. Para isso contou com a defesa da competição até o momento, ocorrida no último minuto do segundo tempo da prorrogação. O autor, no entanto, não foi o goleiro Muslera, e sim o atacante Suárez que, no desespero, tirou uma cabeçada certeira em cima da linha com as duas mãos.
Obviamente, o atacante foi expulso, mas sua atitude salvara o dia uruguaio. Aos prantos, Suárez viu o que parecia impossível: a bola bater com força no travessão após chute do craque ganês, Gyan, levando a disputa para os pênaltis.
Nos pênaltis, Muslera tratou de mostrar serviço ao defender dois pênaltis, deixando o toque final para um conhecido da torcida brasileira, especialmente a botafoguense: "Loco" Abreu, que fez jus ao apelido e, com uma cavadinha, colocou a bola no meio do gol, decretando a vitória por 4 a 2, além da festa de uma nação que sonha, por que não, com o tricampeonato mundial.
Personagem do dia: Suárez, pela sua versão uruguaia da "mão de Deus", que deu a oportunidade para sua seleção vencer Gana nos pênaltis e, assim, chegar às semifinais do Mundial.
Craque do dia: Snyder, que aos poucos mostra o porquê de ter a chance de vencer todos os títulos que disputou na temporada 2009/10. Preterido pelo Real Madrid, o meia holandês foi campeão italiano, da Copa da Itália e da Liga dos Campeões da Uefa com a Inter - time dos brasileiros Julio Cesar, Lúcio e Maicon -, e está perto de levar a Holanda ao seu primeiro título mundial. O Brasil se descuidou e o jogador de baixa estatura marcou o gol da virada, de cabeça.
Perna de pau: Felipe Melo, que foi uma das apostas de Dunga para o meio-campo da seleção, mas mostrou desequilíbrio quando não poderia, sendo expulso de forma infantil ao pisar em Robben, quando o Brasil já perdia por 2 a 1. O volante, agora, terá de lidar com as críticas.
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