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Palco da Copa de 2022, Catar tem dinheiro demais e futebol de menos

País constrói tudo o que a Fifa quer, mas não motiva o público para suas competições

29 de dezembro de 2013 | 5h 00
Leonardo Maia - O Estado de S. Paulo

DOHA - Os tons pastéis dão um sentido de uniformidade ao Catar, como se não houvesse contrastes na rica nação do Oriente Médio. A cor da areia é repetida em todas as edificações, até mesmo na maioria dos carros, para diminuir os efeitos do sol. Mas a diminuta península que invade o Golfo Pérsico, vinda da Arábia Saudita, tem seus conflitos e grandes desafios a superar até 2022, quando abrigará a Copa do Mundo em um território apenas o dobro do tamanho do Distrito Federal.

Arena Doha Port será um dos destaques para 2022 - Divulgação
Divulgação
Arena Doha Port será um dos destaques para 2022

Entre as questões problemáticas, um crescimento econômico acelerado, cuja demanda por força de trabalho a pequena população não consegue atender, o clima, a dimensão territorial e a falta de perspectiva de o país construir uma seleção minimamente competitiva, resultado de uma liga fraca e pouco estimulante.

Por outro lado, o Catar será uma sede muito menos problemática para a Fifa e suas infindáveis exigências. Dinheiro não é problema. Em 2012, o PIB do Catar foi de US$ 182 bilhões, para uma população de aproximadamente 2 milhões de pessoas, a mais alta renda per capita do mundo.

Ao longo dos próximos oito anos, grande parte dessa riqueza será destinada ao esforço de entregar estádios e a infraestrutura (construção de um sistema de metrô) necessários para a Copa. Projetam-se investimentos de R$ 450 bilhões.

E os estádios estarão prontos como muita antecedência. Situação como a vista no Brasil, quando o Maracanã foi entregue incompleto para a Copa das Confederações e as seis arenas restantes para a Copa de 2014 previstas para conclusão a apenas quatro meses do pontapé inicial, provavelmente não ocorrerão. A expectativa é que o último estádio seja entregue em 2020.

E não espere protestos e reação negativa da população se houver estouro de orçamento. O Catar é uma monarquia absolutista. A voz do povo não é um conceito por lá. Ao contrário, a população local (88% dos habitantes da capital Doha são estrangeiros) dá apoio irrestrito à empreitada.

Ironicamente, porém, tanta riqueza em uma nação que mal aparece no mapa também gera contrastes que não se vê em um giro superficial por Doha. O país não dá conta de avançar na velocidade que a fortuna derivada do petróleo e do gás demanda. E as diferenças de classes começam a surgir entre uma população pouco familiarizada com abismos sociais. A questão da falta de mão de obra, exacerbada pela explosão da construção civil como resultado das obras para a Copa, criou uma classe trabalhadora quase toda estrangeira, pobre e que vive sob regime de escravidão e trabalho forçado.

Protegidas por uma legislação permissiva e não aplicada, as empreiteiras não pagam o combinado e impedem o trabalhador de retornar a seu país. Regras de segurança não são respeitadas e as condições sanitárias e de habitação são degradantes. "É uma oportunidade de avanços físicos, mas também na área social, do trabalho. Sabemos que temos desafios", diz Nasser Al Khater, diretor de comunicação do Supremo Comitê Catar 2022. "Com a Copa vem o escrutínio (do mundo). Não negamos nossos problemas." Mas os obstáculos não dizem respeito apenas a direitos humanos e temas de maior abrangência. Os organizadores ainda brigam com a Fifa a respeito do período da Copa. Em junho/julho, verão no hemisfério norte e de pausa nas principais ligas, o clima é proibitivo não só para o esporte, mas para a circulação de pessoas.

Se o sistema de ar condicionado nas arenas pode resolver a primeira parte, não resolverá a segunda. Tudo indica que a Copa do Catar será no período de novembro/dezembro, quando os termômetros oscilam entre agradáveis 24º e 29ºC. É o que a Fifa tem acenado.

Encontrar opções de turismo e lazer também será problemático em uma nação pequena e de poucos atrativos. Os estádios estarão quase todos a poucos quilômetros um do outro. “Será uma Copa compacta. Um torcedor poderá ver até três jogos por dia e as delegações e mídia poderão se fixar em uma cidade sem a necessidade de desgaste com viagens de avião e mudança constante de hotéis”, afirma Hassan Al Thawadi, secretário geral do Supremo Comitê.

Outro aspecto vantajoso, para a Fifa, é que não haverá discussão sobre as imposições feitas pela entidade ao país-sede. Tudo no Catar poderá ser resolvido em segundos, com uma assinatura do emir Tamim bin Hamad Al Thani. Assim será dirimida qualquer controvérsia a respeito do consumo de álcool. Alguns hotéis têm liberação de venda de bebidas e isso será estendido aos estádios. Um ponto que pode gerar debate será quanto ao uso de cerveja em áreas abertas, como as 'fan fests' e 'fan zones'.

A segurança é alvo de pouquíssima preocupação. O Catar é dos países mais seguros do mundo. Não é raro ver um cidadão deixar seu carro com o motor e o ar condicionado ligados enquanto para para uma compra rápida. O terrorismo é um assunto tabu, mas o país não tem o histórico de atentados.

Até a bola rolar para a partida inaugural, o Catar tem tempo para atacar seus problemas e destacar suas virtudes. Disposição para se abrir ao mundo não falta aos catarianos, que não apenas aceitam a presença do Ocidente como desejam o intercâmbio cultural que ele traz.

O repórter viajou a convite do Supremo Comitê Catar 2022.






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