Torcida argentina amarga eliminação, mas se salva de ver Maradona despido
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Natacha Pisarenko/AP
BUENOS AIRES - Nunca antes na História da Argentina um cefalópode foi tão citado como oráculo de mau agouro. O octópode em questão era o polvo Paul, residente do aquário de Oberhausen, que no início da semana ficou mundialmente famoso ao vaticinar a vitória da seleção da Alemanha sobre a Argentina. "Esse polvo, ainda por cima, é inglês de nascimento", disse com humor - em referência ao lugar de nascimento do molusco, a Inglaterra, velha rival futebolística da Argentina - o comerciante Julián Barrera ao Estado, após sair do bar temático "Locos por el fútbol". Na porta do bar, na esquina das ruas Vicente López e Azcuénaga, no bairro da Recoleta, ponderou resignado sobre a desclassificação da Argentina: "fazer o quê...será na próxima!".
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No entanto, nem todos os torcedores tinham o mesmo sangue frio para fazer piadas após a derrota argentina. Logo atrás do irônico "hincha" (gíria argentina para "torcedor"), saiu o engenheiro Tomás Lerma, carrancudo e com os olhos embaçados. "Eu achei que desta vez a gente ia cortar essa onda de azar que a gente carrega desde 1986. Achei que com o Diego (Maradona), a coisa ia engrenar. Mas não foi possível. Esperaremos outros quatro anos", explicou com voz grave. "Maradona é um estúpido!" gritaram dois torcedores atrás dele.
Na sequência, Lerma desabafou com uma típica expressão portenha em tom de autoflagelação: "a la pucha (puxa vida!) o que é que estamos fazendo de errado? São muitas copas, muitas copas sem conquistar (o troféu)". Logo depois, encerrou abruptamente a entrevista: "não quero falar mais, desculpe".
A uma quadra dali, Luciano Espinola, estudante de Direito, saia para passear com seu cão labrador. Perguntado pelo Estado como avaliava o jogo, o Luciano matutou primeiro, para depois expressar sua opinião: "jogamos bem. Mas, a Alemanha jogou muitíssimo melhor. Agora a torcida é pelo Uruguai! É um país pequeno que merece uma grande vitória!".
Luciano também criticou o técnico Diego Armando Maradona: "teria sido necessário um técnico de categoria, alguém que sabe unir, e não desunir. (Juan Román) Riquelme não quis participar da seleção porque Maradona é insuportável. Espero que a AFA (a Associação de Futebol da Argentina) perceba isso de uma vez por todas e coloque Carlos Bianchi como técnico. Aí, com o Bianchi, na próxima, venceremos".
A meio quarteirão dali, o Estado encontrou Héctor Almada, um aposentado "copa-fóbico", setor da sociedade que foi considerável nesta Copa do Mundo": "ainda bem que a Argentina perdeu. Assim, o governo da Cristina (Kirchner) não poderá tirar proveito político disso. É preciso que os argentinos voltem a pensar nos problemas reais".
Na praça San Martín, no bairro de Retiro, onde a prefeitura portenha havia instalado uma barraca com um telão para transmitir os jogos, o clima era de decepção e tristeza. Uma multidão também concentrou-se no Parque Centenário, onde está outro dos telões da prefeitura. Além disso, torcedores também aglutinaram-se no Obelisco, em pleno centro portenho. No total, nos três lugares, a torcida acumulava 40 mil pessoas, volume baixo em comparação com outras copas do mundo.
Os torcedores, que haviam acotovelado-se nesses pontos com a expectativa de festejar uma hipotética vitória que não ocorreu, desconcentraram-se em funéreo silêncio.
Integrantes da comunidade alemã festejaram - discretamente - o resultado do jogo no portenho bairro de Belgrano. Festejos similares foram registrados em Villa General Belgrano, na província de Córdoba, famosa por suas festas típicas alemãs.
Mídia elogia Alemanha. "O triste de uma Copa do Mundo que ainda continua é ver que a festa passa ser de outros", desabafou um dos principais comentaristas esportivos do país, Gonzalo Bonadeo, em declarações ao canal Telefé.
Ariel Donatucci, o enviado especial do canal 5CN, ponderou: "a Argentina paga os erros das colocações táticas que Maradona cometeu".
Os sites dos principais jornais argentinos lamentaram a derrota, ao mesmo tempo que elogiavam o desempenho germânico.
O sóbrio La Nación colocou em seu site a manchete de tom crítico "A Alemanha despiu as falhas da Argentina e deixou o país de fora da Copa". Segundo a análise do centenário periódico, "a seleção argentina não conseguiu reverter as adversidades durante o jogo". Além disso, destacou que "há 20 anos que a seleção nacional não está entre as quatro melhores de uma Copa".
O Clarín sustentou que "A Argentina disse adeus depois de um golpe duríssimo". Segundo o jornal, a Alemanha "superou a Argentina com uma colocação inteligente. Perdeu-se a oportunidade de chegar à semifinal depois de 20 anos". O "Clarín" também sustentou que a seleção argentina "falhou em não apostar na magia" do jogo.
O jornal econômico Ámbito Financiero indicou que "Acabou o sonho: Alemanha assustou a Argentina e a eliminou da Copa". O site do jornal Infobae sustentou que a Alemanha foi "demolidora".
Maradona continuará vestido - O colunista Diego Gualda, do jornal Perfil, avaliou a derrota argentina com ironia e celebrou que, pelo menos, a retirada da seleção nacional na Copa salvará a população de ter que ver Diego Maradona "en bolas" (expressão argentina para "nu") no Obelisco.
Gualda referia-se à promessa que Maradona fez poucos dias antes do início da Copa do Mundo, quando jurou que - em caso de vitória argentina do troféu da FIFA - tiraria toda a roupa e correria ao redor do Obelisco.
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