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A crise não poupa ninguém

O processo de deterioração do mercado de trabalho é intenso e contínuo, demonstra grande resistência e tende a se acentuar nos próximos meses. Já corrói duramente o emprego de trabalhadores com mais qualificação, que as empresas tentavam preservar. Enquanto puderam, as empresas evitaram dispensar esses profissionais, pois sua preparação e treinamento para o desempenho de tarefas mais complexas custaram-lhes investimentos, mas a persistência e o agravamento da crise econômica as forçaram a cortar até mesmo esses trabalhadores.

Mesmo que a economia retome a trilha do crescimento, sua recontratação será lenta. Tradicionalmente, nos momentos de recuperação econômica, o mercado de trabalho reage com defasagem em relação a outros indicadores. E a recontratação do trabalhador qualificado costuma ser mais lenta do que a dos demais. Perdem não apenas os trabalhadores diretamente atingidos pela crise, mas também o País, pois são esses profissionais que mais contribuem para elevar a qualidade do mercado, a eficiência do sistema produtivo e a produtividade da economia.

No ano passado, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, foram fechados 115 mil postos de trabalho com carteira assinada para trabalhadores com o ensino superior completo ou incompleto, como mostrou reportagem do Estado. Trata-se de uma mudança notável em relação ao desempenho do mercado observado entre 2004 e 2014.

Nesse período, foi crescente a demanda por profissional de nível superior. Em 2010, quando o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 7,6%, foram abertos 306 mil postos de trabalho para profissionais com ensino superior completo ou incompleto. Mais teriam sido contratados se houvesse maior oferta de trabalhadores qualificados. Chegou-se a falar, naquela época, em “apagão” de mão de obra qualificada, pois, com um sistema de ensino ineficiente, o País não formava profissionais na velocidade e com a preparação demandadas pelo mercado em rápida expansão e mais exigente.

O saldo de novos empregos no mercado formal para trabalhadores com maior escolaridade vinha diminuindo há algum tempo, embora o resultado final continuasse sendo positivo. De 2010 a 2011, mais de 1 milhão de postos de trabalho foram abertos para esses trabalhadores. Em 2014, ano em que se iniciou a crise na qual o País continua mergulhado, foram abertas 400 mil vagas, mas, no ano passado, foram eliminadas 490 mil. O que se perdeu em 2015 corresponde ao ganho registrado em 2012 e 2013. Em 2016, as perdas de vagas para profissionais com ensino médio completo podem corresponder aos ganhos de mais dois anos, estima o economista João Saboia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

As projeções de economistas que acompanham a evolução do mercado de trabalho são coincidentes. O desemprego continuará a subir. Pode alcançar 10% pela Pesquisa Mensal de Emprego do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que abrange seis regiões metropolitanas. Pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua – também do IBGE, mas bem mais abrangente que a anterior, pois avalia a situação em cerca de 3.500 municípios –, a taxa de desemprego deve ficar em torno de 13%.

O PIB, como já admite o governo, deve cair também em 2016, o que ocorrerá pelo terceiro ano consecutivo e tornará a atual recessão uma das mais intensas e longas da história recente. Com isso, a deterioração do mercado de trabalho deve se manter pelos próximos meses. Mas, mesmo que a atividade econômica volte a se aquecer no ano que vem, a recuperação do emprego será lenta, pois, como observou o economista João Saboia, historicamente o mercado de trabalho é o último a reagir na retomada da economia. Além disso, as empresas só voltarão a contratar quando estiverem certas de que houve melhora real no ambiente econômico – o que é altamente improvável no horizonte visível.

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