A dama de negro que fez história em Champagne

Livro conta a vida de Barbe-Nicole Clicquot, a rainha discreta do espumante

Cíntia Bertolino,

14 Maio 2009 | 09h37

Você pode nunca ter ouvido falar em Barbe-Nicole Clicquot Ponsardin. Mas é bem possível que tenha ouvido dizer que houve uma viúva que marcou época na região francesa de Champagne - na verdade, houve algumas mulheres importantes na produção de champanhe, várias delas, viúvas, mas nenhuma ficou tão famosa como a viúva Clicquot cuja biografia, escrita pela americana Tilar Mazzeo, está sendo lançada no Brasil, pela Editora Rocco. Mais conhecida como "a viúva", ela era uma mulher muito discreta, que se vestia só de preto, a cor do luto permanente. Não era bonita e tinha menos de 1,50 m. Mas, antes de chegar aos 30 anos, sua vida começou a se confundir com a própria história do champanhe. Filha de um rico comerciante da indústria têxtil de Reims, no coração da Champagne, aos 11 anos Barbe-Nicole escapou à turba nos primeiros dias da Revolução Francesa (1789-1799) vestida de camponesa. Sobreviveu à Revolução e às guerras subsequentes. Embora seu bisavô Nicolas Ruinart tenha fundado a primeira casa de vinho espumante da família em 1729, ela só descobriu a paixão pelos vinhos ao se casar com François Clicquot. Juntos, começaram a produzir champanhe, mas o negócio incipiente foi interrompido pela morte prematura de François, de febre tifoide. Veja também: Afinal, quem era ela? A pergunta deu um livro Viúva aos 27 anos e com uma filha pequena para criar, tirou vantagem da viuvez, que lhe garantia o direito de trabalhar e cuidar da própria vida. Passou a gerir os negócios. Com a ajuda do sogro, apostou na produção de vinhos finos e acreditou no potencial do mercado russo. A situação estava difícil. Napoleão estava em guerra com metade do continente. Em 1806, o bloqueio fechou portos ao longo da Europa e cerca de 50 mil garrafas do champanhe Veuve Clicquot se perderam, retidas num armazém de Amsterdã. O prejuízo quase levou à empresa a bancarrota. Em 1811, uma colheita generosa em toda a Champagne, creditada à passagem de um cometa, produziu vinhos excepcionais. Apostando na qualidade da safra, a viúva havia vendido suas joias para financiar os negócios. Alguns meses depois de o vinho ser engarrafado, os russos invadiram Reims. Ela mandou emparedar a adega para evitar saques. Deu certo. Quando a guerra terminou e as tropas inimigas se retiraram, a viúva recuperou os vinhos e tomou uma decisão que mudou sua vida: sem esperar a liberação dos portos, sem autorização, ela despachou um representante de sua maison e um carregamento de 10 mil garrafas para a Rússia. O champanhe foi vendido por um preço exorbitante. O sucesso foi tamanho que na Rússia, nessa época, pedir "uma viúva" era o mesmo que dizer "uma garrafa de champanhe, por favor". Assim começou a lenda de que o Veuve Clicquot era esnobado por Napoleão - ele preferia os espumantes de Moët - e adorado pelo czar russo. A família Moët, na verdade, era amiga de Napoleão e chegou a construir um palácio em Champagne para recebê-lo. Mas de todos os feitos atribuídos à viúva, o maior teria sido a invenção da remuage, processo que mantém a garrafa inclinada na adega, com alguém girando cada dia um pouquinho para concentrar os resíduos no gargalo e facilitar sua extração. Uma das mulheres mais ricas da França, ela conquistou o título de "rainha não coroada de Reims".

Mais conteúdo sobre:
Paladar espumante Barbe-Nicole Clicquot

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.