Mônica Zarattini/Estadão
Mônica Zarattini/Estadão

À espera

O tempo teimoso, a melancolia das festas... Para as presas ‘marcadas’ de Tremembé, a vida é uma eterna expectativa

Juliana Sayuri,

22 Dezembro 2012 | 17h15

TREMEMBÉ, SP - Primavera é tempo triste em certos campos de Tremembé. Não há flores, nem frescor, nem cartas de amor que façam jus à estação. Só há o sol escaldante do Vale do Paraíba, a saudade, o marasmo inquietante, as grades. Setembro vira outubro, passa o Dia da Criança, o último capítulo da novela, Finados, o outro feriado esquecido, a chuva inesperada, volta o sol ardido, outro domingo solitário, outro Fantástico, novembro quase no fim e, enfim, a melancolia natalina, já com os primeiros dias de verão. Assim, silencioso, passa o tempo na Penitenciária Feminina I Santa Maria Eufrásia Pelletier de Tremembé.

Minto: não passa. Teima e se arrasta. No número 59 da Rua Monsenhor Amador Bueno, a mesma bicicleta Caloi antiga encostada, as mesmas janelas brancas enxadrezadas e a mesma muralha azul-bebê envelhecida dão uma desesperadora sensação de tranquilidade à penitenciária de segurança máxima, inaugurada oficialmente em 1963. Do lado de fora, não fossem a guarita alta, as fechaduras fortes e o arame farpado, a construção talvez passasse por um colégio qualquer. Mas, do lado de dentro, a história é outra. Encravado no centro da cidadezinha de 45 mil habitantes, a 133 km de São Paulo, o presídio abriga 169 mulheres que, literalmente, não têm mais aonde ir. São as excluídas das excluídas do sistema.

"As presas de outras prisões têm as próprias regras. E simplesmente não aceitam certas detentas. Tremembé é a última parada para elas", diz a diretora, Eliana de Freitas Pereira. Por um lado, o xadrez mantém famigeradas personalidades como Suzane Von Richthofen, Elize Matsunaga e Anna Carolina Jatobá que, graças aos holofotes, dispensam apresentações. Por isso, o endereço é chamado de "Presídio de Caras" (na mesma linha, mas num canto distante da cidade, a ala masculina acolhe famosos como Alexandre Nardoni, Cristian e Daniel Cravinhos, Lindemberg Alves). Por outro lado, ali também estão presas anônimas, mas hostilizadas e recusadas por outros xilindrós do Brasil. É a mãe que matou a filha, a filha que matou a irmã, a irmã que matou o pai, a madrasta e a família inteira, e assim por diante - na casa das 169 mulheres, 74 foram indiciadas por assassinato. Por fim, há as presas de rabo preso, como ex-policiais, ex e atuais mulheres, namoradas e amantes de promotores, policiais, juízes, carcereiros e qualquer outro homem da lei. Nas prisões comuns, elas são as primeiras a serem escolhidas para alvo, escudo e principalmente refém durante rebeliões e motins.

Em Tremembé, essas presas podem encontrar certa tranquilidade. Desde fins de 2007, a casa de detenção só recebe reeducandas enquadradas nesse "perfil" - as excluídas das excluídas. Na época, foi feito, carimbado e aceito um pedido na Secretaria de Administração Penitenciária para fazer uma triagem entre as pretendentes a um cantinho numa das 44 celas dos três pavilhões que ocupam 6 mil m² do terreno de 35 mil m². Há celinhas de 6 lugares, celões de 15 a 18 lugares e uns outros "quartos" para isolamento no pavilhão 3 - às vezes, quando a tensão aperta, as presas pedem para ficar sozinhas ali; outras vezes ficam trancafiadas, à revelia, como castigo disciplinar.

Na cela n.° 19 do pavilhão 2 vive a maranhense Mayara Almeida Ribeiro, detenta n.° 96, que espera júri popular desde março de 2011. "Desculpe, não quero dar detalhes. Diz aí que estou no crime 121", abrevia a jovem de 22 anos, acusada de esfaquear e matar a mãe num rompante de fúria de 5 gramas de cocaína, em casa, na cidade de Rio Claro.

Antes de permitir minha entrada nos pavilhões, uma agente penitenciária quis conferir o paradeiro de Anna Jatobá e Suzane, para nos desviarmos do caminho. "Elas ficam bravas quando notam gente estranha aqui dentro. Sempre pensam que são o centro das atenções." Cruzamos o corredor abafado do pavilhão 1, ladeado por portas de madeira pesada e portões de ferro, e após poucos lances de escada, passamos pelo pavilhão 2, mais arejado, mas com o mesmo piso avermelhado e paredes descascadas. Na cela 12 dorme Suzane. No fim do corredor, uma porta misteriosa. "Não é salinha de tortura, não, viu? Aliás, essa você nunca vai descobrir onde fica", diz outra agente penitenciária - brincando, espero.

Nas portas, uma cartolina colorida mantém carteirinhas brancas com as identidades das detentas. Uma vez destrancada a cela 19, Mayara diz: "Entra. Fica à vontade". Na segunda cama do treliche, com colchões finos e lençóis brancos como todas as outras camas, a garota guarda bijuterias, diversos cremes e hidratantes perfumados, estojo de maquiagem, laços, papéis de carta, porta-lingerie e outras quinquilharias. Ao lado, um varal com calcinhas e meias coloridas. Na sua prateleira na primeira estante metálica, caixas e caixas de chocolate - "Minha filhinha de 4 anos adora bombons. Guardo para dar de presente nos dias de visita". Na sua parte na segunda estante, os uniformes - camisetas brancas e vermelhas, bermudas e calças beges -, que ela mesmo lava, esfrega, estende e ensaca peça a peça, para protegê-las do pó e do cigarro. "Sou uma presa exemplar", diz a menina tímida, que se tornou miss no festival da primavera no presídio, no início de outubro. "Foi um dia de princesa." Desfilou um vestido preto com flores e outro lilás com fenda, emprestados por pequenas butiques da cidade. "Só nessa festa podemos vestir outras roupas, diferentes do uniforme. Pode até salto alto. Vem maquiador e tudo. Quase esquecemos que estamos presas."

Morena mignon, Mayara tem voz doce e um jeito pueril, quase adolescente. Aos 12, encontrou o primeiro amor - ela, corintiana; ele, palmeirense. Ficaram sete anos juntos e tiveram uma filha, a pequena Mayany Naiá, que está com a família paterna "desde o B.O.". Na última visita, Mayara mostrava vaidosa o esmalte tom lilás, "Garota Pop". Mantém bem-feitas as unhas delicadas, de fazer inveja a muita socialite.

Vaidade, aliás, é o pecado capital preferido dessas mulheres. "Nós temos tempo, muito tempo...", diz Dominique Scharf, detenta n.° 188. "Eu sei que sou uma bela jovem senhora", conta a paulistana de 52 anos. Dominique escapa ao perfil das presidiárias dali: é a única estelionatária. Filha de pai judeu americano e mãe católica alemã, ela casou "muito errado" aos 18 anos, com um pequeno traficante de armas. Rendeu-se à adrenalina do roubo e do estelionato, foi processada pela primeira vez em 1979 e, quando viu, foi presa pela primeira vez em 1990. "Era estelionato internacional. Estava voltando ao Brasil e a polícia estava me esperando no aeroporto", lembra. Após idas e vindas, fuga e habeas corpus nas prisões de Campinas, Tatuapé e Ribeirão Preto, pediu transferência para Tremembé, em 2008. "Queria paz." Agora ela vive na cela 16 - "a melhor do hall", diz, também orgulhosa por ter comprado uma TV de LCD nova para instalar no "apartamentinho". "Nós nos revezamos na faxina das celas e damos um toque feminino ao lugar."

Loira e alta, rímel preto, batom forte, Dominique não é tão famosa como Suzane e Elize. Dentro do presídio, porém, a 171 é uma referência. Primeiro, pelo estilo elegante e sofisticado, diz, tanto que arrisca dicas de etiqueta para as companheiras de cárcere. Segundo, pelo histórico prisional, com passagens por diversas unidades sem se corromper por facções. "Fiz escolhas erradas, mas eu sou uma história. Não viro as costas para a minha história." Dominique se divorciou, casou com um arquiteto, teve dois filhos. E caiu em tentação novamente. "Fui escrachada nos jornais. Diziam: ‘Procura-se loira ladra de carros importados’. Pensei: ‘Nunca mais vou conquistar um carro importado na vida’." Mas uma vez, livre por habeas corpus, ela passeava no Shopping Iguatemi:

- A senhora está sozinha? Não costumo fazer isso, mas... Quer uma carona?

- Que gentil! Também não costumo fazer isso, mas aceito a carona, sim.

Era um BMW, oras. Minutos depois, armada, disse:

- Desculpa, mas o senhor não lê jornais?

- Não...

- Amigo, hello! Isto é um assalto. Passa a chave e dá o fora.

E ri alto, ao lembrar da história. Entre lembranças e confidências de cárcere, porém, as detentas não gostam de dizer por que foram parar ali. Preferem conversar sobre histórias "lá de fora", a novela, a família, os amigos. "Não estamos aqui para julgar ninguém. Já fomos julgadas", diz Dominique.

Durante a semana, as mulheres trabalham na cozinha, na limpeza ou nas oficinas, principalmente nas confecções da Funap (três dias de trabalho dão direito a um dia a menos na pena). Também participam das oficinas da padaria experimental inaugurada por Lu Alckmin em outubro. Aos sábados, podem receber visitas íntimas, ironicamente realizadas nos quartos da antiga casinha das freiras que administravam a prisão na década de 1960. No entanto, essas visitas são raríssimas. "Uma vez encarcerada, a mulher é esquecida. O homem ainda recebe cartas, presentes e visitas da companheira, que fica à espera dele lá fora. A mulher, não", comenta o médico Drauzio Varella, autor de Estação Carandiru e Carcereiros.

Assim, sozinhas, as presas aproveitam o sábado para o sol e a música no pátio e, principalmente, para os mimos de beleza - bijus, esmaltes novos, fios coloridos, como preparativos para receber os visitantes de domingo - que, muitas vezes, não virão. Em Tremembé, os visitantes fazem fila nos fins de semana no presídio masculino. No feminino, porém, são uns 30 gatos pingados. "Ainda hoje, a mulher delinquente não é aceita como o homem. Não se espera dela um comportamento agressivo e criminoso. Talvez por isso a família e os amigos a condenem ao esquecimento", considera a antropóloga Bruna Angotti.

Nesta época, a solidão aperta ainda mais, principalmente para as meninas de Tremembé. "Vem vindo o Natal e nós ficamos... tristes, né?", diz Mayara. Isoladas dentro e fora do presídio, com sentenças altas e crimes brutais nas costas, muitas delas foram absolutamente esquecidas pelas famílias. E, como todas ali cumprem regime fechado, não há a menor chance de receberem saída temporária para as festas de fim de ano.

Neste domingo, antevéspera do Natal, elas ficarão à espera mais uma vez. Mayara quer rever a filha, que há pouco tempo voltou a chamá-la de mãe. Dominique talvez receba o marido e os filhos. Mayara ainda espera o julgamento para abril de 2013, que poderá lhe custar até 30 anos de prisão. Dominique espera reconquistar a liberdade em meados de 2014. Até lá, a espera.

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