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Jornada Mundial da Juventude 2013

A força da renúncia

Kenneth Serbin

16 Fevereiro 2013 | 16h 00

Ao admitir a velhice, o pontífice abre caminho para o Vaticano III, os dilemas bioéticos e o catolicismo pós-moderno

Indubitavelmente, o papa Bento XVI será mais lembrado pela história não por alguma realização particular ou falta dela durante seu pontificado, mas pela corajosa e humilde decisão de tornar-se o primeiro chefe da Igreja Católica a abdicar em sete séculos, e apenas o quinto em 2 mil anos de catolicismo.

Não podemos deixar de nos comover diante de Bento XVI, hoje com 85 anos, que reconhece não ter mais suficiente "força da mente e do corpo" e se sente incapaz "de cumprir adequadamente o ministério" que lhe foi confiado.

Em um mundo em que muitos governos e instituições são dirigidos por idosos que não pretendem abrir mão do poder, Bento XVI deixa voluntariamente o leme da Igreja – o maior símbolo do domínio masculino – para ir viver num palácio que até agor tem sido um convento de clausura.

Na atual cultura global da juventude que anciãos procuram de todos os modos preservar por meio de cirurgias plásticas e implantes de cabelo, Bento XVI afirma que não há mal em envelhecer.

Muitas pessoas resistem a abrir mão de liberdades como a experiência prazerosa e poderosa de dirigir um carro depois de certa idade, até que um filho, preocupado com a segurança, lhes tire as chaves ou requeira judicialmente que o pai, ou a mãe, seja declarado incapaz.

Bento devolveu as chaves por espontânea vontade, poupando os outros de situações difíceis, embaraçosas, até mesmo perigosas.

Em vez de dar ao mundo o espetáculo de um papa que luta para manter as rédeas do poder escondido nos aposentos de seu palácio, Bento XVI poderá dar ao mundo a imagem de um papa retirado, hospitalizado ou hospedado num local que pode se tornar efetivamente uma casa de repouso.

Se ele vier a sofrer, ou se já sofre, do mal de Alzheimer ou de outra doença neurodegenerativa, em lugar de ficar escondido atrás da burocracia vaticana, nervosa com a transição do poder e da imagem da Igreja, sua enfermidade será dada a conhecer ao mundo. (João Paulo II sofria do mal de Parkinson e defendeu o aprofundamento da pesquisa na busca de um tratamento.)

A renúncia de Bento XVI testemunha o envelhecimento e a mortalidade do homem. Ela ocorre em um momento em que a Igreja hierárquica, os fiéis católicos e a sociedade em geral lutam com todas as forças com outras questões de vida e morte, como o controle da natalidade, o aborto, a pesquisa com células-tronco e a eutanásia.

Bento XVI sustentou os ensinamentos da Igreja sobre esses temas, mas também pertence a uma geração de pensadores da Igreja confrontada com o desafio de formular um sistema de bioética católica a fim de conciliar as sempre crescentes promessas e os perigos da era da biotecnologia.

Assim, o testemunho de Bento sobre o envelhecimento poderá ajudar a Igreja a seguir em frente com uma bioética cuidadosamente concebida e equilibrada.

Abrindo repentinamente a Igreja à escolha de um novo papa, Bento XVI cria espaço para novas ideias que podem penetrar em sua bioética.

Se um papa consegue, humildemente, renunciar, talvez a Igreja possa, humildemente, admitir a necessidade de uma maior flexibilidade em sua ética.

O papa João XXIII, homem simples de origem camponesa, não esperava causar sensação, mas também surpreendeu o mundo, em 1959, com a convocação do Concílio Vaticano II, que tomou lugar de 1962 a 1965. Em junho se completarão os 50 anos da morte de João XXIII.

O Vaticano II trouxe a Igreja para a modernidade com a realização das reformas mais profundas da história do catolicismo. Entre elas, o início do diálogo com outras religiões e credos políticos antagônicos, como o marxismo.

O Vaticano II reagiu a uma grave sensação de mal-estar na Igreja nos anos 1950, causada pela censura a ideias inovadoras e uma dependência exagerada da tradição e do autoritarismo eclesial, um ambiente não muito diferente daquele provocado pelos padres, bispos e até cardeais hoje envolvidos com o escândalo dos abusos sexuais.

No final da década de 1960, impulsionada pela energia do Vaticano II, a Igreja pareceu prestes a se recuperar.

Como todos sabem, Bento XVI trabalhou intensamente para frear e até mesmo inverter as tendências desencadeadas pelo Vaticano II.

Entretanto, ao contrário dos anos 1960, quando tantas coisas pareciam possíveis para a Igreja, hoje a instituição sofre de uma crise de credibilidade.

Os católicos liberais recomeçaram a insistir para que a Igreja convoque um Vaticano III a fim de tratar de questões como o escândalo dos abusos sexuais e a ordenação de mulheres. Continua sem solução a do celibato obrigatório, a ordenação de padres casados e a hipocrisia a respeito da homossexualidade numa instituição com um grande número de padres gays.

Um Vaticano III seria praticamente impossível durante o papado de Bento XVI. Entretanto, sua saída radical agora torna um concílio possível. Não importa se o novo papa será outro conservador, porque a renúncia de Bento XVI, com o fato de ele ter testemunhado o envelhecimento, assinalou para os líderes da Igreja que ela pode e deve explorar novos caminhos, novas formas de ação.

A bioética poderá tornar-se o tema fundamental do Vaticano III. Assim como nos anos 1960 a Igreja clamou pela paz e pela justiça social, hoje, ela poderá assumir um novo e revigorante papel de liderança ajudando o mundo a adaptar-se aos desafios do genoma, do meio ambiente, de novas formas de relacionamento humano e do imenso ônus da assistência criado pela capacidade da ciência e da medicina de prolongar a vida do corpo, mas não ainda a da mente.

Em sua longa e muitas vezes sábia história, a Igreja evoluiu de maneira gradativa e deliberada. Agora, ela poderá começar a abraçar o mundo pós-moderno.

* KENNETH SERBIN É DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO E AUTOR DE PADRES, CELIBATO E CONFLITO SOCIAL: UMA HISTÓRIA DA IGREJA CATÓLICA NO BRASIL (COMPANHIA DAS LETRAS)

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