A internet é formada por pontos de vista

Há um livro novo na praça que melhor decodifica nosso comportamento online. Seu autor é Cass Sunstein, um professor das Universidades de Chicago e Harvard que acaba de ser nomeado responsável por toda política de regulamentação do governo Barack Obama.   Chama-se Going to Extremes (Indo a extremos) e resume a ciência de nosso comportamento em grupos e como nossas visões de mundo são moldadas. O princípio é simples. Quando conversamos com pessoas que têm opiniões parecidas com as nossas, tendemos a radicalizar nossos pontos de vista; quando nossas conversas envolvem pessoas de pontos de vista opostos, ficamos mais moderados.   O processo, segundo os estudos que Sunstein conduziu, é assim: um grupo mais ou menos homogêneo se reúne para conversas. Conforme trocam ideias, um vai alimentando o outro com argumentos. A mecânica premia as convicções. Todos querem parecer melhores ante seus pares. Evidentemente, conforme a radicalização se acirra, algumas pessoas começam a se incomodar. Em silêncio ou reclamando alto, deixam o grupo.   A saída dos moderados apenas reforça a convicção dos que ficam de que estão no caminho certo.   Este mecanismo não se dá apenas online. É como somos. A radicalização não é, necessariamente, negativa. A Revolução Americana e a Francesa por certo mudaram o mundo para melhor, mas vieram apenas porque grupos de indivíduos se radicalizaram. Sunstein, que ocupou um cargo alto na campanha de seu velho amigo Obama, é o primeiro a reconhecer que um processo assim, costurado via internet, permitiu a mobilização popular que elegeu o primeiro negro para a Casa Branca.   Mas este processo também está por trás do terrorismo muçulmano. E contribui para a polarização política nas democracias ocidentais - um caminho mais nocivo do que saudável.   Se há algo que Sunstein descobriu é que o caminho da polarização e radicalização pode ser o mais fácil, mas não é inevitável. Na internet, tendemos a procurar locais onde encontraremos gente com quem concordamos, mas essa é uma opção. Ler pontos de vista diferentes e buscar informação que pode nos surpreender exige disciplina. Por outro lado, a internet ainda é um veículo de comunicação jovem. Essa disciplina é, possivelmente, parte do processo de maturidade pelo qual todos nós, consumidores da rede, teremos de passar.   É o meio mais democrático já criado. Seria uma besteira não aproveitá-lo democraticamente.Mas é uma democracia selvagem.   O colunista Pedro Doria passa um ano em Palo Alto, na Califórnia

Pedro Doria,

01 Junho 2009 | 18h43

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