A magia ancestral do ano que chega

Desde o ano 46 a.C., quando o general e ditador Júlio César decretou a mudança do velho e impreciso calendário romano, o réveillon cai em 1º de janeiro. Passou a ser comemorado logo após o solstício de inverno, período no qual o Sol parece estacionar alguns dias no ponto mais afastado do Equador e, na convicção dos povos antigos, "morre e renasce na encruzilhada celeste". A palavra réveillon, de origem francesa, que usamos para designar a virada, não poderia ser mais adequada. Deriva de réveiller, que significa despertar, acordar, recobrar a energia. No calendário juliano, assim batizado em homenagem a Júlio César, o ano passou a ter a duração média de 365 dias e 6 horas, e a cada quatro anos se estabeleceu um ano com 366 dias, o bissexto. Os meses se tornaram 12 (eram 10). Na Roma imperial dedicava-se o 1º do ano a Jano, deus do passado e do futuro, do início e do fim, das portas que se abrem e fecham. "Ele olha para a frente e para trás", acreditavam nossos ancestrais. Daí januarius, o atual janeiro. O nome do astrônomo Sosígenes de Alexandria, verdadeiro autor do calendário juliano, praticamente desapareceu dos registros históricos. Há duas referências a ele, feitas pelo escritor latino Plínio, o Velho, na Naturalis Historia, obra em 37 livros, a maior enciclopédia da ciência na Antiguidade. O trabalho de Sosígenes sofreu reformas para a correção de erros. Uma ocorreu no século 8º d.C., encomendada pelo imperador Augusto, de Roma; outra, mais ampla, no final do século 16, foi promulgada pelo papa Gregório XIII, a conselho do médico e astrônomo italiano Luigi Lilio ou Giglio, na bula Inter Gravissimas. Aí mudou o nome. Passou a ser calendário gregoriano. Por motivos religiosos e políticos, os países não católicos demoraram a adotá-lo. Mas acabaram se convencendo de sua relativa perfeição. A maioria das culturas conta o tempo a partir de fenômenos do Sol ou da Lua, salvo os muçulmanos, que fixaram o seu 1º do ano em uma data histórica: 16 de julho. Nesse dia, em 622, o profeta Maomé, perseguido, fugiu de Meca, na migração conhecida por Hégira (Hijra), e finalmente se instalou em Medina. Ali chefiou a primeira comunidade de uma religião que não parou de crescer. A jornalista e psicóloga italiana Nessia Laniado, ressalta essa exceção no livro La Cucina delle Feste (Arnaldo Mondadori Editori, Milão, 1989). Mas, na verdade, o réveillon dos muçulmanos também usou como referência uma encruzilhada. Em seu livro, Nessia Laniado investiga a magia do ano-novo. Afirma que no réveillon as pessoas liberam alegrias e temores, expectativas e recordações, porque a festa se repete pontualmente, assinalando um início e um fim. Ela ainda pesquisou o significado das saturnais, festas realizadas na Roma imperial, nos dias anteriores ao 1º do ano. Assinalava-as uma trepidante licenciosidade. Em princípio, eram promovidas para lembrar a igualdade entre os homens no tempo em que Saturno, expulso do céu por Júpiter, foi morar no Lácio, região de Roma. Os escravos vestiam a toga e fingiam mandar nos senhores. Os jogos de azar, proibidos durante o ano, estavam permitidos. Entretanto, as saturnais terminavam em orgia. Para o dicionário enciclopédico Lello Universal (Lello Editores, Porto, 2002), "o carnaval dos nossos tempos é um eco das saturnais". A partir do século 4º, quando o imperador romano Constantino I, o Magno, concedeu liberdade de culto aos cristãos, eles passaram a realizar publicamente meia dúzia de celebrações religiosas no período das saturnais, a começar pelo Natal. A finalidade era conter o desregramento pagão. Entretanto, na noite de São Silvestre, justamente entre 31 de dezembro e 1º de janeiro, as transgressões persistiram. Nas saturnais, muitos romanos recebiam os amigos em casa com uma ânfora cheia de tâmaras e figos embebidos em mel, com um ramo de louro ou de oliveira, chamado de strena, porque vinha de um bosque dedicado a Strênia, deusa da saúde e da prosperidade. "O gigantesco negócio dos presentes no período do Natal tem essa origem singela", afirma Nessia Laniado. Em Nápoles, na Itália, ainda se saboreiam no final do ano figos envolvidos em folhas de louro. Outra superstição romana sobrevivente ao tempo é o consumo, no réveillon, de alimentos que, levados ao fogo, aumentam de volume, como a lentilha e o arroz. Por isso, trariam felicidade. A mesma crença envolve a amêndoa, noz, avelã, figo seco, uva-passa e fresca, que se conservam na mesa do ano-novo. Por inevitável associação, também comemos ostra, caviar e salmão no réveillon. Enfim, o ritual de passagem continua mais ou menos igual. Como disse no século 18 o francês Antoine-Laurent Lavoiser, pai da química moderna, "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Na alma dos povos também. jadiaslopes@terra.com.br

Dias Lopes,

05 Janeiro 2010 | 10h42

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