Zé Otávio
Zé Otávio

A mal-amada heroína dos alienados

Como Sarah Palin roubou a cena da direita, confundiu a esquerda e, assim, vai ocupando vazios da vida americana

Lucia Guimarães,

25 Dezembro 2010 | 13h55

Todos os dias, na casa com vista para o Llgo de Wasilla, no Alasca, Sarah Palin recebe por e-mail um relatório preparado por seus assessores. É um briefing de notícias sobre a ex-governadora, atual estrela de um reality show e possível candidata a presidente. Se a própria Sarah entrasse no Google Notícias em inglês, encontraria no topo da busca o site “Tired of Sarah Palin?” (Cansado da Sarah Palin?). O link para o site é http://www.sarahdoesntspeakforme.com/ (“sarahnaofalapormim.com”), que recolhe doações para neutralizar a formidável ascensão dessa mulher espantosamente despreparada para liderar a maior economia e maior potência militar do planeta.

É fácil entender por que as pesquisas revelam que a maioria dos americanos tem uma opinião negativa de Sarah Palin. Difícil é explicar por que, dois anos depois de derrotada nas urnas como vice de John McCain, Sarah Palin é a mais popular política republicana dos Estados Unidos. Estamos falando da mulher que tem 2,5 milhões de seguidores no Facebook, onde ela estreou em agosto de 2009 acusando Barack Obama de promover “comitês de morte” para doentes terminais na legislação do seguro-saúde. Apesar de se tratar de pura mentira, “comitês de morte” entrou para o jargão antirreforma do seguro-saúde e consumiu tempo e energia dos democratas, obrigados a dar satisfações a seus constituintes assustados.

É fácil também, a distância, ridicularizar o fascínio de milhões por essa mulher crassa, deslumbrada e gananciosa. Sentada num cinema quase vazio, entendi melhor o fenômeno Sarah Palin. Na tela, o excepcional documentário The Inside Job narrava o circo de horrores da elite financeira que levou ao crash de 2008, ao desemprego de 10 milhões e despejou 2,5 milhões de famílias de casas compradas com artifícios criminosos de financiamento. Eu disse criminosos? Os empréstimos subprime eram legais. O domínio crescente da indústria financeira na economia americana é um sintoma que ajuda a explicar Sarah Palin. O populista é tradicionalmente o político que se aproveita de vácuos ou da irresponsabilidade da elite governante.

Quando Sarah Palin grita suas sandices pelo Twitter, o eco atravessa o país onde, pela primeira vez, uma nova geração terá menos acesso à educação e à estabilidade econômica do que a geração de seus pais. Para quem gosta de dizer que vivemos no mundo pós-americano, Sarah Palin serve de argumento eloquente, como poster girl de muito do que lamentamos: o anti-intelectualismo, o obscurantismo religioso e a patriotada. Seu novo best-seller se chama America by Heart: Reflections on Family, Faith and Flag (America de Cor – ou de Coração – Reflexões sobre Família, Fé e Bandeira). Assim como a finada série Seinfeld era anunciada como comédia sobre nada, Sarah Palin produz um gênero de autoajuda política em que fatos e análise não têm a menor importância.

A ironia é que Palin chamou atenção de John McCain por ser pragmática e não conservadora. Quando era governadora do Alasca, Palin, além de não cortejar o establishment republicano, não se prendia a ideologias de direita para tomar decisões e por isso havia se tornado popular no Estado que recebe mais contribuições de Washington por habitante.

A guinada de Palin para a direita, longe de ser uma conversão, parece servir a um projeto que seus inimigos consideram puramente pessoal. Palin se tornou milionária menos de um ano depois da derrota de 2008. Seu patrão, Rupert Murdoch, mandou construir um estúdio em Wasilla, de onde Palin grava aparições na Fox “News” (as aspas são minhas) e arrecada milhões de dólares para dezenas de políticos que abençoa. Muitos são os noviços do Tea Party. Vários são figuras tão grotescas que se tornam material para comediantes, como a derrotada candidata ao Senado em Delaware, Christine O’Donnell, cuja propaganda eleitoral na TV começava assim: “Eu não sou uma bruxa...”

Quem pensa que esse tipo de ridículo preocupa Sarah Palin se engana. Ela descobriu a mina de ouro da alienação popular contra o establishment político. Ao desafiar os caciques do Partido Republicano, ao abater alces e fazer churrasco com a caça para a câmera, ela encarna o arquétipo ao qual tantos americanos tentam se agarrar, como náufragos na tormenta. Palin é a personagem fronteiriça, destemida, no país que se orgulha de ter sido fundado por dissidentes religiosos. Individualismo e independência formam o DNA da autoimagem americana. Não importa que a realidade econômica tenha provocado uma certa mutação genética e fritar hambúrgueres numa lanchonete não combine com o sonho americano.

Cumplicidade. Para entender o lugar ocupado por Sarah Palin é preciso também observar o papel cúmplice da mídia americana. Sim, a mesma que ela apelidou de “lamestream” mídia, num trocadilho de tradicional com manco, em inglês. Escudada pelo marido Todd, Palin hoje quase só atende jornalistas que considera aliados ou vão se comportar como meros escadas para sua campanha não necessariamente presidencial. Um dos prazeres de Sarah Palin é manter o Partido Republicano em suspense sobre sua decisão de concorrer em 2012. Ela é a única potencial adversária de Barack Obama que já está em campanha sem se declarar candidata. Corre sozinha numa raia que não pode ser ocupada por políticos profissionais como Mitt Romney. A indústria Sarah Palin já acumula dois best-sellers, um contrato milionário com a Fox, um reality show e até aparições de sua filha num concurso de dança na TV com 26 milhões de espectadores no episódio final.

Quando um jornal da mesma mídia atacada por Palin abre suas páginas para publicar um editorial da ex-governadora sobre o Irã, não resta dúvida de que ela não teria ocupado tanto espaço sem ajuda dos que conhecem bem sua ignorância. O editorial É Hora de Jogar Duro com o Irã foi publicado no USA Today pouco antes do Natal. Não é surpresa que o primeiro comentário visto sob o texto perguntasse: “A Sarah sabe onde fica o Irã?” Assim como não escreveu seus livros e tem um domínio precário da língua inglesa, Sarah Palin não tem curiosidade intelectual e nem a mais remota credencial para produzir um editorial sobre o programa nuclear iraniano e suas consequências regionais.

Mas ela conta com a timidez da imprensa, insegura com as mudanças tecnológicas que enfraqueceram o jornalismo tradicional. Sarah Palin vende jornal e multiplica cliques online. Como ela derrubou a fronteira entre a cobertura de celebridades e a cobertura política, a mídia vai atrás.

Por fim, é preciso entender Sarah Palin à luz dos liberais, dos americanos esclarecidos que jamais votarão nela. Há uma compulsão voyeurista acompanhando cada passo dessa mulher. A tal ponto, que um editorialista como Charles Blow, do New York Times, prometeu não escrever uma linha sobre ela a não ser que tivesse valor jornalístico. Assim como Paris Hilton não faz nada e num passado recente dominou a cobertura de celebridades, Sarah Palin é famosa por ser famosa. Palin eleva e coloca em evidência o americano esquecido pela elite esclarecida das Costas Leste e Oeste: o americano que anda armado, é profundamente religioso e não tem perspectivas de um futuro melhor numa economia que exige um grau de educação hoje inacessível para a maioria.

Lamentar a ascensão de Sarah Palin é um exercício passivo. Entender o vazio ocupado por Sarah Palin é um desafio que o país eleitor de Barack Obama precisa enfrentar. Mas não custa lembrar que o entretenimento oferecido por Sarah Palin não é uma garantia de votos. Os americanos costumam votar em presidentes que são a favor de alguma coisa. E quase sempre alguma coisa localizada no centro do espectro político.

Lucia Guimarães é colunista do Caderno 2, da Rádio Eldorado e correspondente do GNT. Vive em Nova York desde 1985.

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