À mesa com o Magnífico

Todos os anos um novo livro é publicado na Itália com alguma referência a Lorenzo de’ Medici, o Magnífico (1449-1492), e a sua ilustre família, que governou Florença do século 15 ao 17 e exerceu notável influência na política, diplomacia, pintura, escultura, literatura, costumes, moda, etiqueta e culinária da Renascença - o período entre o fim da Idade Média e início da Idade Moderna, caracterizado por transformações notáveis na vida da Europa. A última obra importante se intitula L’Enigma Montefeltro (Rizzoli, Milão, 2008). Escrita por Marcello Simonetta, pesquisador italiano ligado à Universidade Wesleyan, em Connecticut, EUA, desvenda um dos crimes mais clamorosos do Renascimento. A 26 de abril de 1478, durante a missa de Páscoa celebrada na catedral de Florença, Lorenzo e seu irmão Giuliano, jovens senhores da cidade, foram atacados com punhais em uma tentativa de golpe de Estado. Defenderam-se dos assassinos como puderam.   Veja a receita da Anatra all’arancia Apesar de gravemente ferido, Lorenzo conseguiu escapar, socorrido pelo poeta Angelo Ambrogini, o Poliziano, que o escondeu na sacristia. Giuliano morreu vitimado por 19 punhaladas. Depois de controlarem a situação, os partidários da família Medici fizeram justiça com as próprias mãos, executando todos assassinos. Os membros da família Pazzi, considerada principal responsável pela tentativa de golpe, acabaram enforcados e esquartejados ou banidos para sempre da cidade. Entretanto, L’Enigma Montefeltro acaba de revelar que o autor intelectual do crime foi o duque de Urbino, nascido Federico da Montefeltro (1422-1482). Com isso, arranhou a biografia de um humanista, homem de letras, colecionador de livros e mecenas, cujo retrado pintado por Piero della Francesca constitui uma das atrações da Galleria degli Uffizi, em Florença. Apesar de Lorenzo ter vivido há mais de 500 anos, continua a fascinar os italianos. Não por acaso, sempre se referem a ele como o Magnífico. Poucas figuras da história do país tiveram uma educação tão primorosa, regida pelo filósofo platônico Marsilio Ficino. Falava grego, latim e escrevia em italiano vulgar, sendo elegante prosador e excelente poeta. Apesar do caráter autoritário, mostrava-se hábil diplomata e ouvia os conselhos alheios, pois os julgava enriquecedores do seu conhecimento. Aprendeu a ceder o lugar na calçada às pessoas mais velhas e a frequentar as osterie (tabernas) para entrar em contato com o povo simples. Figura principal de um ambiente luminoso, acolheu na corte os filósofos Ficino e Pico della Mirandola, os poetas Poliziano e Luigi Pulci, os pintores Sandro Botticelli e Domenico Ghirlandaio. O genial artista Michelangelo Buonarroti iniciou os estudos em um ateliê patrocinado por Lorenzo. O senhor de Florença amava o canto, embora tivesse péssimo ouvido e fosse desafinado. Distinguia-se dos outros mecenas renascentistas pela ativa participação intelectual nos eventos que promovia. Também foi banqueiro, seguindo uma das atividades primordiais da família Medici, mas gastou tanto dinheiro que arruinou as finanças do clã. Amava as mulheres bonitas, colecionando amantes, e as festas suntuosas, durante as quais promovia banquetes harmonizados com Chianti, vinho na época elaborado com uvas brancas e tintas, mencionado pela primeira vez em um documento florentino de 1398. Os biógrafos o descrevem como um gastrônomo entendido em cozinha, a ponto de versejar uma receita de cialdoni (bolachas) no Canto de’ Cialdonai, apesar do mau olfato e dos cruéis ataques de gota que lhe impunham rigorosa dieta. Em seu século, a culinária florentina deu um salto e se requintou. Surgiram ou foram aprimoradas ali, entre outras, as receitas de consomê (caldo concentrado de legumes, peixes, aves ou carnes), designado jus consumptium no livro De Honesta Voluptate et Veletudine, de Bartolomeu Sacchi, o Platina (1421-1481); a minestra di ceci (sopa de grão-de-bico); o cinghiale in agrodolce (javali em molho agridoce); o anatra all’arancia, que Catarina de’ Medici, filha de seu neto Lorenzo II, teria levado para a França, no século seguinte, ao casar com o rei Henrique II, onde o prato foi batizado de canard à l’orange; e o denso e espumoso zabaione, feito com gema de ovo, açúcar e Vin Santo. Curiosamente, ao contrário do que acontecia em outras cortes, na de Lorenzo os pratos já iam para a mesa em certa ordem, não se cometia o pecado de misturar aleatoriamente os salgados e doces e cálices de licor encerravam as refeições. O Magnífico casou em 1469 com Clarice Orsini, que lhe deu nove filhos, três dos quais famosos: Piero II, sucessor do pai no governo de Florença; Giuliano, duque de Nemours; e Giovanni, eleito papa em 1513 com o nome de Leão X. Deixou sua filosofia de vida imortalizada em um verso inspirado: "Quem quer ser feliz, que o seja hoje, do amanhã ninguém tem certeza." Anatra all’arancia 4 porções 2 horas Ingredientes 1 pato com cerca de 1,5 kg lavado e seco 3 laranjas 1 ½ xícara (chá) de suco de laranja ½ xícara (chá) de licor seco de laranja ou grappa Sal a gosto Manteiga para untar o pato Preparo Tempere o pato interna e externamente com sal e unte-o generosamente com manteiga. Retire a casca e a pele das laranjas. Corte a casca de uma delas em tirinhas e leve para ferver por alguns minutos, em um pouco de água. Coe e reserve as tirinhas. Corte a polpa das três laranjas em pedaços e introduza no ventre do pato. Costure ou amarre a abertura com um barbante, passe o pato para uma assadeira, umedeça a pele com algumas colheradas de água e asse em forno médio (180ºC), preaquecido, por cerca de 30 minutos. Retire o molho que se formou na assadeira, passe por uma peneira e reserve. Molhe o pato, sempre no forno, com ½ xícara do suco de laranja misturado ao licor de laranja e asse por mais uns 15 minutos, até dourar. Numa panela, misture as tirinhas de laranja ao molho reservado (que estava na assadeira), junte o suco de laranja (1 xícara) que sobrou e leve ao fogo por alguns minutos. Se for necessário, ajuste o sal. Sirva o pato com o molho.

Dias Lopes, jadiaslopes@terra.com.br,

19 Fevereiro 2009 | 00h00

Mais conteúdo sobre:
Dias Lopes Pato

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.