A nova diva argentina

A Malbec é e deverá continuar sendo por muito tempo a melhor e a mais plantada uva na Argentina, mas a Cabernet Sauvignon avança rapidamente e já é a quarta mais difundida. Em 1990, só cobria 2.500 hectares, número que subiu para perto de 15.500 hectares nos primeiros anos deste século. O progresso se justifica, uma vez que os vinhos gerados por essa uva estão melhorando consideravelmente. Tintos encorpados, com bastante cor, marcados pelo carvalho, que às vezes precisam de algum tempo nas garrafas, mas podem ser provados jovens. Se comparados com outros feitos com a Cabernet na Europa, os argentinos podem ser considerados precoces. Do lado negativo, a alta graduação alcoólica de quase todos os exemplares provados, nas faixas de preços até R$ 80, nesta coluna, e nos que chegam a R$ 150, na próxima semana. Aliás, os melhores feitos com a Malbec na Argentina também são consideravelmente alcoólicos. E a Cabernet bem merece esse crescimento, pois consegue dar ótimos vinhos principalmente em Mendoza, onde são produzidos mais de 70% da enorme produção do país, que pode ter caído nas últimas décadas, mas ainda é a quinta maior do mundo, com 1,3 bilhão de litros. Só em Mendoza, segundo o útil guia Viñas, Bodegas & Vinos, da Austral Spectator, em 2004 eram 18.694 hectares de Malbec; 15.132 hectares de Bonarda; 12.605 hectares de Cabernet Sauvignon; 7.374 hectares de Syrah; e 5.736 hectares de Merlot. Em Mendoza, a altitude e o clima fazem a diferença. A altitude média é de 900 metros, o que garante um contraste de temperaturas entre o dia e a noite que é ideal para o amadurecimento e manutenção dos sabores e aromas das uvas. A Cabernet está presente em todas as sub-regiões de Mendoza. Ela é uma uva que não gosta muito do frio e era mais difundida nas áreas mais quentes (mais baixas), notadamente em Maipu, mas também está ''subindo a serra'', produzindo ótimos vinhos nas zonas mais altas e frias, como as que ficam perto dos Andes. PASCUAL TOSO RESERVE CABERNET SAUVIGNON 2005 ONDE ENCONTRAR: INTERFOOD, TELEVENDAS: 6602-7255 PREÇO:R$ 55 COTAÇÃO: 90/100 PONTOS A Pascual Toso é uma vinícola tradicional e antiga, que passou recentemente por um processo de modernização. Ela tem instalações e grandes vinhedos em Barrancas, em Maipu, e passou a contar recentemente com assessoria do conhecido enólogo californiano Paul Hobbs, cuja influência ficou evidente neste vinho, nitidamente "Novo Mundo", com bastante madeira (talvez americana), concentração de cor e de sabor. Um tinto bem escurão, violáceo. Aroma muito charmoso e complexo. São bem sensíveis as evocações de coco, baunilha e cacau típicas do carvalho. Mas também tem espaço para frutas. Na boca, redondo, sedoso, doce (nada a ver com a quantidade de açúcar, mas sim com a maciez) e taninos finos. Boa acidez. Longe de ser enjoativo. A graduação é alta, mas o álcool não aparece demasiadamente. Longo, deixa sensação gostosa na boca. 14.4% de álcool. KAIKEN ULTRA CABERNET SAUVIGNON 2004 ONDE ENCONTRAR: VINCI, TELEVENDAS: 6097-0000 PREÇO: R$ 58,30 COTAÇÃO: 92/100 PONTOS Sem dúvida, na elite da elite dos Cabernets da Argentina. A Kaiken é um empreendimento da grande vinícola chilena Montes na Argentina. " Ultra" identifica a linha superior da empresa. O enólogo Aurelio Montes é respeitadíssimo, tem grande experiência e faz grandes vinhos no Chile. Agora, ele passou os Andes e está produzindo ótimos tintos com a Cabernet e Malbec em Vistalba, Lujan de Cuyo. No Ultra, o top de linha, 12 meses nas barricas de carvalho e uma adição de 9% de Malbec. Aroma fino e complexo. Não é dos mais grandiloqüentes, mas sim fino, com toques contidos de madeira, algo mineral, aspectos de torrefação e ainda frutas. Melhor ainda na boca, principalmente pela primeira impressão de tinto redondo, sem arestas. Fácil de gostar. Boa acidez, nada enjoativo. Um vinho com alta graduação, mas o álcool não aparece tanto, acaba bem equilibrado. Ótimo final. 14,5% de álcool. ANDELUNA RESERVA CABERNET SAUVIGNON 2004 ONDE ENCONTRAR: GRAND CRU, R. BELA CINTRA, 1.799, JARDINS - 3062-6388 PREÇO: R$ 71 COTAÇÃO: 89/100 PONTOS Um vinho da Andeluna Cellars, com vinhedos e instalações moderníssimas em Guatallary, numa das zonas mais altas de Mendoza, perto dos Andes. A tradicional Familia Reina Rutini vendeu o controle a um grupo internacional, mas continua fornecendo uvas de suas propriedades para a vinícola. Mais um vinho de grande concentração de cor e de sabor. Aroma com várias nuances, no qual se encaixam muito bem as frutas e toques de madeira. Algo de torrefação, de café. Aroma fino. Primeira impressão na boca realmente muito gostoso, de tinto encorpado, concentrado. Também algo de torrefação, de bala de café na boca. Tinto realmente quente, mas até que o álcool não aparece tanto. Um pouco tânico, deixa a boca um pouco rugosa. Deve ganhar com mais tempo na garrafa, mas está pronto. Final ligeiramente alcoólico. 14,5% de álcool. D.V. CATENA CABERNET SAUVIGNON 2003 ONDE ENCONTRAR: MISTRAL - R. ROCHA, 288, 3372-3400 PREÇO: R$ 76,90 COTAÇÃO: 88/100 PONTOS Ao beber o Catena Cabernet Sauvignon 2004 esperava mais deste vinho desta excelente vinícola, provavelmente a melhor e mais variada da Argentina, com vinhos de vários níveis e de várias zonas de Mendoza. O nome é homenagem de Ernesto Catena ao pai, Domingo Vicente. Feito com uvas de Agrelo, a 950 m de altitude, e de Guatallary, em Tupungato, 1.470 m. Daí a repetição do nome Cabernet no rótulo. Um bom vinho, mas com aroma pouco intenso, fechado. E já não é vinho novo, está pronto. Depois de certo tempo no copo apareceram aromas finos, mas pouco intensos. Melhora muito na boca. O aroma não prometia muito, mas ele agradou demais na boca. Um vinho não concentrado ou encorpado, mas sim elegante, com boa acidez, que dá vontade de continuar bebendo. Macio, gostoso e com álcool equilibrado. 14% de álcool.

Saul.galvao@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2008 | 03h19

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