Arquivo/Estadão
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A peneira e as curvas do Sol

No terceiro milênio, a grande imprensa internacional reverteu as expectativas soturnas sobre Oscar Niemeyer das duas décadas anteriores

HUGO SEGAWA | ARQUITETO, PROFESSOR DA FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO DA USP ,

08 Dezembro 2012 | 16h58

Cultiva-se a fleuma britânica como uma tradição que remonta mais ao mito que à realidade. Nem assim é possível ficar indiferente à reação dos ingleses quando Oscar Niemeyer projetou o pavilhão da Serpentine Gallery, inaugurado em 2003 nos gramados do Hyde Park de Londres.

A Serpentine é uma galeria fashion de arte moderna e contemporânea instalada num prédio de aparência tradicional de tijolos à vista em Kensington Gardens. Contrastante edifício se posto ao lado da proposta iniciada no ano 2000 para a construção, anualmente, de um pavilhão temporário da galeria, para chamar a atenção e popularizar a arquitetura contemporânea convidando-se um arquiteto de renome. Decerto um pequeno pavilhão temporário não é razão para grande alarde no mundo da arquitetura. Todavia, a carga midiática desse evento é oportuna para se perceber as nuanças da cena arquitetônica atual. O pavilhão inaugural da série foi projetado pela iraquiano-britânica Zaha Hadid, antes de ganhar o Prêmio da União Europeia Mies van der Rohe em 2003 e o Pritzker Prize em 2004. Em 2001 o pavilhão foi de autoria do polonês-americano Daniel Libeskind, celebrado pelo Museu Judaico de Berlim, aberto naquele mesmo ano, e antes de se notabilizar por ganhar o concurso (malogrado) do Ground Zero de Nova York. Em 2002, o japonês Toyo Ito, com seu pavilhão, concluía sua primeira obra britânica.

O “arquiteto certo na hora certa”, anotava o jornal londrino The Observer sobre as escolhas da galeria, em seu artigo dedicado ao pavilhão do ano de 2003. A chamada da matéria: “O velho menino do Brasil. Para o seu pavilhão anual, a Serpentine trocou a juventude por um mestre do passado”. Para surpresa da jovem clientela da galeria, tratava-se de um artista nonagenário. Foi o deleite para a imprensa londrina. No Evening Standard, a manchete já continha um jogo de palavras: “New wave at the Serpentine”. O jornal comentava: “Imagine um novo filme de Hitchcock estreando semana que vem, ou se Stanley Matthews (jogador de futebol, um Garrincha inglês), milagrosamente preservado da mortalidade, estivesse cintilando no campo toda semana. Imagine Garbo ou Sinatra, no auge, apresentando-se agora. Nesta semana, com a inauguração do Pavilhão de 2003 da Serpentine Gallery, esse milagroso lapso do tempo está acontecendo. Ele foi projetado pelo brasileiro de 95 anos Oscar Niemeyer, a Garbo ou Sinatra da arquitetura moderna. Ele ocupa relativamente uma posição mediana no panteão frente a grandíssimos nomes como Le Corbusier e Mies van der Rohe, mas sua condição de estrela é inquestionável. Ele trouxe verve e curvas para a arquitetura moderna no tempo em que a norma eram as eficientes caixas da Bauhaus”.

Ao longo da carreira, Oscar Niemeyer recebeu um sem-número de reconhecimentos internacionais. Todavia, os anos 1970 e 1980 não foram fáceis para a estima do mestre. Politicamente perseguido no Brasil, amargou um dourado exílio na França. Comunista convicto, testemunhou a queda do Muro de Berlim, a derrocada soviética, mas manteve-se fiel à ortodoxia marxista. Sob o crivo da condição pós-moderna, Niemeyer foi considerado um ultrapassado, mais uma figura a ilustrar as páginas dos livros de história da arquitetura. Sua obra foi considerada infecunda, irreproduzível, personalista. Mas o tempo colaborou contra a implacabilidade da crítica. O neopersonalismo arquitetural e espalhafatoso a partir dos anos 1990 era uma perversa faceta ante a suave prédica tida como “antirracionalista” de um Niemeyer firme de convicções, em oposição à camaleônica predisposição de seu contemporâneo Philip Johnson, que de um replicador de Mies van der Rohe se tornou um espetacular pós-modernista.

Em 1988 - no entardecer da onda pós-moderna -, quando pela única vez o Pritzker Prize foi dividido entre duas personalidades, Niemeyer e Gordon Bunschaft (projetista do escritório norte-americano Skidmore, Owings & Merrill, autor da Lever House em Nova York), a revista Time saudou-os como “impenitentes velhos modernos ... ambos ... profundamente fora de moda na maior parte dos anos 1970 e 1980, durante a era de feroz reação antimoderna”. A extinta revista norte-americana Progressive Architecture comentou a premiação com o editorial Honras para a Velha Guarda. Insultos com a sutileza anglo-saxônica.

É possível estabelecer um divisor qualitativo das homenagens a partir dos anos 1990, sob outros olhares, entre elogios e agravos.

Em 1996, a Bienal de Veneza concedeu o Leão de Ouro a Niemeyer, Philip Johnson e Ignazio Gardella. Dois anos depois, o Royal Institute of British Architects deu a Medalha de Ouro a Niemeyer. Foram homenagens aos últimos sobreviventes de uma geração, não há dúvida. Nenhum insulto respeitoso se registrou na imprensa. Mas pairava ainda certo ceticismo, expresso em The Observer de 2003: “Apesar da impecável credencial pelo movimento moderno, houve sempre certa desconfiança sobre o trabalho de Niemeyer quando ele era jovem. Era visto como de algum modo demasiado espontâneo e fácil”.

Todavia, no início do terceiro milênio a grande imprensa internacional em geral reverteu as expectativas soturnas de duas décadas antes. Matéria do mesmo The Observer relatava, entre outras coisas: “A sede do Partido Comunista Francês, que ele construiu num engajado subúrbio parisiense, hoje parece tão chique que foi alugada pelos seus pouco abonados proprietários para um desfile da Prada”. No necrológio que The Guardian e El País publicaram sobre Niemeyer, o historiador e critico britânico William J. R. Curtis comenta: “Os mundos para o quais Niemeyer construiu já se foram, mas seus edifícios permanecem em toda sua intrigante riqueza. Ao final da carreira ele produziu às vezes formalismo vazio e autocaricatura. Mas sua vasta obra inclui numerosos exemplos de sua fecunda imaginação espacial e habilidade em resolver desafios em todas as escalas. É como um livro aberto de lições de arquitetura e princípios”.

A longevidade do arquiteto assegurou-lhe o desagravo. O Evening Standard escreveu em 2003: “Ele também viveu o bastante para voltar a ser fashion. Há poucos anos as curvas sensuais de seus desenhos foram redescobertas pela geração Wallpaper* (badalada revista inglesa de design, interiores, moda e viagens) e inspiram projetos de forma livre de Zaha Hadid e Future Systems. Mesmo os edifícios de Norman Foster estão agora influenciados pela batida de samba de Niemeyer”. The Observer, nove anos atrás, também cedeu: “Ele viveu o bastante para voltar à cena principal de novo”. É a fleuma britânica. Reconhecendo que se tapava o sol com a peneira.

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