A primeira década da era digital

‘Matrix’ e os marcos de 1999, que apenas hoje podem ser plenamente compreendidos

BRUNO GALO e JULIANA ROCHA,

30 Março 2009 | 00h00

Há exatos dez anos fomos desafiados com o seguinte dilema: continuar vivendo do mesmo jeito ou enxergar as coisas que começavam a emergir? Lançado em 31 de março de 1999, o filme Matrix não apenas mostrou a saga de autoconhecimento de um hacker em uma nova realidade como abriu os olhos de milhões de pessoas para a cibercultura – que até então despontava em nichos e hoje é onipresente. Os carros não voam, os robôs ainda não pensam como nós e o espaço segue inabitado por humanos, mas o "futuro" já chegou e o ritmo das transformações é intenso o suficiente para que não nos surpreendamos com o teor de ficção científica em nosso dia a dia. Em 1999 a rede vivia um período de efervescência pré-bolha e além de Matrix uma série de marcos (veja nesta página e na L5) impulsionou a ainda embrionária cultura digital, revelando o poder da organização em rede e dando início a mudanças que só podem ser plenamente compreendidas hoje. A eleição de Barack Obama, a produção de conteúdo colaborativo, a febre das redes sociais, equipamentos portáteis cada vez mais poderosos, a troca de arquivos P2P, filmes e programas de TV que se desdobram online como Lost, a revolução da computação em nuvem, a ascensão da internet móvel e a distribuição digital são eventos recentes que, de uma forma ou de outra, têm em sua gênese aquele ano no final do século passado. Matrix pode ser visto como uma metáfora da mudança radical que vivemos e da qual participamos na última década. Quando chegou aos cinemas, com o respaldo quase unânime da crítica, não só caiu nas graças do público como se tornou, ao lado de obras como Metrópolis, 2001 - Uma Odisseia no Espaço e Blade Runner, um clássico da ficção científica – gênero que se caracteriza por pensar tanto a sociedade atual como a do amanhã (veja na pág. L4). O longa dos irmãos Wachowski era "um desses filmes com o raro poder de cristalizar momentos da sensibilidade urbana" como definiu com precisão o New York Times. A produção trazia uma história em que o real e o virtual se confundiam. Lá pelas tantas Morpheus, o guru que guiava o protagonista Neo em sua jornada, propunha: "Você pode escolher entre a pílula vermelha e azul. Se escolher a azul, vai acordar de manhã em casa e sua vida permanecerá a mesma. Mas, se escolher a vermelha, descobrirá quão fundo é a toca do coelho de Alice." Não apenas Neo escolheu a pílula vermelha, como toda uma legião de pessoas vislumbraram ali o começo de uma nova era: a digital. Nas últimas semanas, o Link entrevistou estudiosos que, por diferentes razões, apontaram o ano de 1999 como um marco para a cibercultura. Henrique Antoun, pós-doutor em Cultura e Tecnologia, destacou o embrião da organização política em rede, que recentemente foi essencial para a eleição de Obama. "As manifestações (antiglobalização) de Seattle marcam o download do ciberespaço para o real. Até então dizia-se que a internet alienava as pessoas da ação política. É em Seattle que, usando a rede, nascem as multidões inteligentes". Mas , se por um lado, não vivemos em uma realidade virtual como a imaginada no filme, cada vez mais povoamos uma rede de relações e troca de informações que se torna inseparável de nossa realidade desconectada. "A barreira entre online e offline será extinta com a convergência dos aparelhos. O fato de alguns países terem tornado universal e mandatório o acesso à web também contribuirá", disse ao Link o escritor Gerd Leonhard (entrevista na pág. L6). Podemos até não ser controlados pelas máquinas, mas softwares de inteligência artificial já influenciam nossas vidas. Programas capazes de tomar decisões de forma muito mais dinâmica do que investidores humanos são responsáveis por cerca de 40% das negociações feitas nas bolsas americanas, segundo a consultoria Aite Group. Para alguns especialistas, esses programas contribuíram para agravar a situação dos mercados na eclosão da crise financeira mundial, em 2008. O ex-presidente do Banco Central dos EUA Alan Greenspan disse ao Congresso americano que "as melhores sacadas de matemáticos e especialistas em finanças, apoiadas nos últimos avanços da computação e da tecnologia, têm uma falha fatal. Todo o edifício intelectual entra em colapso porque os dados usados para alimentar esses sistemas de gerenciamento de risco cobrem apenas as últimas duas décadas - um período de euforia". A declaração deixa claro uma lição: quando as máquinas erram isso se deve a uma falha humana de programação. A revolução digital apenas começou e, se em uma década tanta coisa já aconteceu, imagine o que os próximos anos nos reservam. Há previsões para todos os gostos: das mais otimistas às apocalípticas. E o Link se propõe a orientá-lo neste admirável mundo – ainda – novo.

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