A rainha sem coroa que substituiu Sissi

Os três filmes que imortalizaram a atriz austríaca Romy Schneider - Sissi (1955), Sissi, a Imperatriz (1956) e Sissi e seu Destino (1957) - até hoje são procurados nas locadoras. Retratam a belíssima imperatriz da Áustria e rainha da Hungria como se tivesse vivido um conto de fadas. Sissi, apelido de Elisabeth de Wittelsbach (1837-1898), realmente se casou apaixonada com Francisco José I (1830-1916), um dos soberanos que mais tempo governou, pois esteve no trono por 68 anos. O marido também a amava.

Dias Lopes, jadiaslopes@gmail.com, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2010 | 01h54

O casal se conheceu no verão de 1853. Ela tinha 15 anos, ele, 23. Mas o protocolo austríaco pesou demais sobre o caráter independente de Sissi. Nem o nascimento dos quatro filhos do casal apaziguou sua aversão ao formalismo e a revolta por lhe ser vedado educá-los, numa corte onde a sogra tudo decidia, com base em regras de etiqueta do século 16.

Assim, a partir de 1868, o relacionamento do casal se estremeceu para sempre. Sissi passou a viajar constantemente. Morou na Ilha da Madeira, depois em Corfu, adoeceu e caiu em depressão, até ser assassinada em Genebra, em 1898, por um anarquista italiano. Enquanto isso, Francisco José encontrou outra mulher, a atriz de teatro Katharina Schratt (1853-1940), que se tornaria rainha sem coroa do Império austro-húngaro.

Os dois se conheceram em 1885, durante a Exposição Industrial de Viena. Katharina atuava na peça A Megera Domada, uma comédia de William Shakespeare, na qual fazia o papel da geniosa Caterina di Padova. Alguns biógrafos dizem que Sissi, assídua frequentadora de teatro, chamou a atenção de Francisco José para o desempenho daquela mulher bonita, na época com 32 anos, 23 mais nova do que ele. Para outros, Sissi teria até favorecido o relacionamento. Os encontros de Francisco José com Katharina duraram três décadas, com a interrupção de um ano, e só terminaram com morte dele, em 1916. Segundo o italiano Rinaldo Casana, no livro La Tavola dei Re (Archinto, Milão, 1999), o imperador e rei se dirigia todos os dias, às 7 horas da manhã, à Villa Schratt, em Viena, a mansão que deu de presente a Katharina, perto do Palácio de Schönbrunn, onde Francisco José residiu a maior parte da vida. Ia a pé, por um atalho que atravessava o parque vizinho. "Katharina o esperava acordada e juntos tomavam o café da manhã", escreve Casana. "Falavam de tudo: de Sissi, cada vez mais distante do marido, do teatro, talvez de política." Casana diz que, com o tempo, a convivência ficou mais estreita. Francisco José começou a ficar na Villa Schratt até o meio-dia. Às vezes o casal almoçava com uma amiga ou amigo da dona da casa, geralmente do meio artístico. Depois da refeição, o imperador e rei tirava uma soneca antes de voltar ao Palácio de Schönbrunn.

Nos almoços íntimos, Katharina mandava fazer pratos da tradição austríaca: knödel (espécie de gnocchi, de tamanho grande, recheado com carne ou queijo) em caldo; wiener tefelspitz (carne bovina cozida com verduras); wiener schnitzel (escalopes de vitelo empanados e fritos), entre outros. Desse modo, mudou os hábitos alimentares do comedido Francisco José.

Quando vivia com Sissi, que estava sempre em dieta e mitigava a fome com caldinhos de legumes, sucos de carnes e vegetais cozidos, não sentia um liberado prazer à mesa. Nos banquetes oficiais, comia com pressa e criava um problema. A etiqueta mandava que, se o imperador ou rei terminasse o prato, os que se encontravam diante dos convidados precisavam ser retirados. Quem sentava no final da mesa se dava mal. Nem sempre conseguia dar uma colherada ou garfada na iguaria recebida segundos antes. Os almoços de Katharina e Francisco José também incluíam as deliciosas sobremesas austríacas, a começar pelo strudel de maçã, obra-prima da pâtisserie nacional. Mas o prato emblemático era o wiener schnitzel. Pelo seu significado histórico, pois já foi considerado origem de uma das grandes especialidades italianas - a cotoletta di vitello alla milanese - os austríacos ainda hoje o saboreiam com orgulho cívico.

A discussão parecia interminável. Austríacos e italianos disputavam em livros a paternidade da receita. Mas a descoberta de uma carta escrita em Milão, no ano de 1855, pelo conde de Radetz, e endereçada ao conde Attems, ajudante de campo de Francisco José, em Viena, encerrou o debate. Até meados do século 19, a região da segunda maior cidade italiana estava sob domínio austríaco. O estrangeiro conde de Radetz foi um dos seus governadores. Na correspondência, ele informou, como segredo militar, que a população local empanava a cotoletta antes de fritá-la - e descreveu minuciosamente a receita.

Portanto, ficou claro que o wiener schnitzel é seu descendente. Entretanto, tem personalidade própria, pois apresenta diferenças importantes. Para começar, a carne da receita austríaca não provém da cotoletta (carré de vitelo), mas do traseiro do boi. Depois, contrariando a indicação milanesa, é passada na farinha antes do ovo. Katharina e Francisco José adoravam o prato, que saboreavam com cerveja pilsner. Sissi, obviamente, detestava.

Polêmica

4 porções

fácil

15 minutos

Wiener Schnitzel

Ingredientes

4 escalopes de vitelo

200g de farinha de trigo

2 ovos inteiros batidos ligeiramente

200g de pão dormido ralado (ou farinha de rosca)

250g de manteiga ou azeite

Fatias de 1 limão

Sal a gosto

Acompanhamentos: batatas salteadas e salada verde

Preparo

Bata os escalopes com um batedor de carne, depois fure-os levemente com a ponta de uma faca. Tempere ligeiramente com sal. Passe os escalopes primeiramente na farinha de trigo, depois nos ovos batidos e por fim no pão ralado.

Em uma frigideira grande, frite-os dos dois lados, na manteiga quente, por 2 a 3 minutos de cada lado.

Depois de dourados, retire-os e escorra rapidamente em papel absorvente.

Sirva os escalopes quentes, com as fatias de limão, batatas salteadas e salada verde.

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