HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

A rotina dos 'monges do silêncio' no Brasil

Entre trapistas do Paraná, que pertencem a uma das comunidades mais rigorosas da Igreja Católica, solidão é regra e pouco se fala no trabalho 

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

04 Abril 2015 | 22h00

Fiéis à regra de São Bento, o fundador da vida monástica no século 6.º, os monges do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente, a 100 quilômetros de Curitiba, seguem o lema “Ora et labora (Ora e trabalha)”, das 3 horas às 19h30. São religiosos de vida contemplativa da Ordem Cisterciense de Estrita Observância, uma das comunidades mais rigorosas da Igreja Católica, ao lado de denominações tradicionais da mesma origem - os cartuxos e os camaldulenses, também de origem beneditina. 

São 29 monges, entre os quais três americanos, dois angolanos e um chileno. O abade, d. Bernardo Bonowitz, que dirige o mosteiro desde 1996, quando foi eleito prior, nasceu em Nova York de família judaica, de ascendência bielo-russa e polonesa. Converteu-se ao catolicismo em 1968, aos 19 anos de idade. Formado em Letras Clássicas pelo Columbia College, foi jesuíta durante nove anos e ordenado sacerdote antes de se tornar trapista. Os outros dois americanos - os padres Francisco Dietzler e Felix Donahue - são da equipe pioneira dos cinco fundadores da comunidade paranaense - a única existente no Brasil.

Nos Estados Unidos, padre Felix estudou sob a direção de Thomas Merton, místico e escritor de projeção mundial, que atraiu centenas de jovens para a Ordem Trapista com seu livro A Montanha dos Sete Patamares. Felix foi prior do mosteiro antes de d. Bernardo. Aos 82 anos de idade, sofre de varizes e se sente “um pouco aposentado”. Ajuda na cozinha, na padaria e na produção de mel. 

A idade média dos monges é de 38 anos, uma das mais baixas em todo o mundo. Quase todos os religiosos de Campo do Tenente têm curso superior. Padre Gabriel Augusto Vecchi, paulista de São Caetano, de 36 anos, estava no 4.º ano de Química na Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, quando decidiu entrar para o mosteiro. Agora, é mestre de noviços e prior. Pelo seu cargo, tem acesso à internet, instrumento que só utiliza para receber e responder e-mails.

Rotina. Os trapistas não leem jornal, não ouvem rádio, não veem televisão. Afastados do mundo, têm raras notícias do que se passa fora de seus muros. Como abade, d. Bernardo pode sair do mosteiro para pregar retiros espirituais e escreve livros sobre a vocação dos monges. Na comunidade, preside os atos litúrgicos e as reuniões para recitação das horas canônicas, que começam com a Vigília, às 3 horas.

Os trapistas se reúnem para rezar na capela oito vezes por dia. Além do ofício, assistem à missa e fazem orações individuais. Sua vida é a busca de um contato íntimo e contínuo com Deus.

Solidão e silêncio são rotina diária, companheiras inseparáveis na vida comunitária. Embora vivam juntos no mosteiro, são homens solitários por vocação. Não conversam durante o trabalho, a não ser o imprescindível sobre a tarefa executada. Nunca um bate-papo. Comunicam-se, de preferência, por sinais, embora sem mais o rigor de antigamente, quando não se falava nada. Os monges podem conversar com os hóspedes, fora dos limites da clausura. Visitam a família a cada cinco anos e podem receber os parentes, por cinco dias, a cada dois anos.

O irmão hospedeiro, padre Estêvão Pinto, faz todos os contatos necessários, da chegada dos visitantes até a despedida. A hospedaria, uma casa 200 metros afastada da portaria e da capela, tem 18 vagas em celas ou quartos bem despojados. Anexos, cozinha e sala de refeições para o café e o jantar, que os hóspedes mesmos preparam, porque o mosteiro só serve almoço. O horário rígido não permite pensão completa, pois os monges rezam ao amanhecer e vão dormir às 19h30. Nos intervalos das orações, fazem todo o serviço da propriedade, de 330 hectares. O mosteiro só tem três funcionários para ajudar no cultivo de soja, feijão e milho. Em Alemanha, Holanda, Bélgica e Estados Unidos, eles produzem cerveja. No Brasil, não.

Refeição. No almoço, os hóspedes usam um refeitório anexo ao dos monges, sem vê-los, ouvindo pelo alto-falante a leitura de um livro durante a refeição. Os monges lavam a louça e passam pratos, copos, panelas e talheres para os visitantes enxugarem. Tudo em silêncio.

O cardápio é simples, como se todo dia fosse dia de penitência. Os trapistas jamais comem carne. Peixe só uma vez por mês e ovos, duas vezes por semana. Apesar do sacrifício, parecem bem dispostos e saudáveis, pois uma nutricionista (de fora do mosteiro) controla os ingredientes. 

Beterraba com requeijão e berinjela frita com ovos e trigo constavam do menu incrementado no dia 12 de março, quando um grupo de oblatas (leigos que seguem a espiritualidade trapista) visitava o mosteiro. Mal se notava a mistura, mas o gosto era saboroso. Os monges consomem também carne de soja. A produção agrícola garante a autossuficiência, com sobra para socorrer outras obras religiosas. A comunidade ajuda também os pobres de Campo do Tenente, onde uma família amiga se encarrega de distribuir dinheiro e alimentos. 

Pássaros. O silêncio é impressionante. Só se ouve o canto de pássaros, raramente voz humana. Ao longe, o barulho da rodovia e, mais raramente, a buzina de um trem de carga cortando a madrugada. Oblatas - são apenas 13, homens e mulheres - reúnem-se no mosteiro quatro vezes por ano. Moram em cidades vizinhas, como a assistente social Meri do Rocio Prohmann, ou vêm de longe, como o funcionário municipal Aparecido Ney de Almeida, que madrugou em São José dos Campos, pegou um avião em Guarulhos para Curitiba e chegou de táxi ao mosteiro. 

Os monges não têm atividades pastorais fora da clausura, mas ouvem confissões e dão assistência espiritual a quem os procura. Apenas sete deles são padres - sempre selecionados pelo abade para serem ordenados, porque a vocação é essencialmente monástica.

Os candidatos se apresentam para viver seu ideal, à procura de Deus, na solidão e na convivência com os irmãos. Além dos votos tradicionais comuns aos religiosos - obediência, pobreza e castidade -, eles professam o voto de estabilidade, comprometendo-se a viver no mosteiro até a morte. Entram como estagiários, passam a postulantes, fazem o noviciado e, depois de oito ou nove anos, são admitidos em caráter definitivo. Pelo menos 50% dos noviços permanecem - um índice bastante bom, segundo o abade d. Bernardo. 

Fundada em 1098 por 21 monges no Vale de Cister, na França, a Ordem Cisterciense ficou conhecida como Ordem Trapista no século 17, após uma reforma no mosteiro de La Trappe, que enfatizou o silêncio, a solidão e o trabalho manual como valores do monaquismo. Ao lado da Ordem Cisterciense de Estrita Observância existe a Ordem Cisterciense de Observância Comum, à qual pertence o cardeal d. Orani João Tempesta, arcebispo do Rio.

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Artilheiro da 2ª Guerra reza há 64 anos pelos mortos

‘Meu avião pegou fogo, pulei de paraquedas e fui capturado com o pulmão direito perfurado e um braço ferido no oeste da Alemanha’, conta o monge

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

04 Abril 2015 | 22h00

O monge Francisco José Dietzler rompeu nove meses de namoro e entrou no mosteiro trapista em 1951, seis anos após o término da 2.ª Guerra Mundial, quando serviu na Europa como tripulante de um bombardeiro B-17, a Fortaleza Voadora, entre março de 1943 e outubro de 1945. Era artilheiro e operador de rádio de uma unidade baseada na Inglaterra que cumpriu 29 missões no Sudoeste da Alemanha, onde atacou as cidades de Colônia, Nuremberg e Munique para destruir fábricas de armas e de aviões. Na trigésima missão, foi atingido por caças nazistas. 

“Meu avião pegou fogo, eu pulei de paraquedas e fui capturado com o pulmão direito perfurado e um braço ferido no oeste da Alemanha”, recorda padre Francisco, agora com 91 anos (vai fazer 92 em 10 de maio), no Paraná, onde vive desde 1977. “Sou agradecido aos alemães por não me terem matado, como podiam ter feito, em vez de me levar para o hospital e me curar”, disse o monge. Em quatro meses, ele passou por quatro hospitais e em seguida foi internado em um campo de prisioneiros de guerra, onde o tratamento era menos severo do que nos campos de prisioneiros políticos. Foi libertado em 29 de abril de 1945, dez dias antes da rendição da Alemanha. 

Era sargento, mas preferiu não seguir a carreira militar. Ao dar baixa na Força Aérea dos Estados Unidos, começou a refletir no sentido da vida. “Falei com a namorada que minha vocação não era o matrimônio, quando cheguei à conclusão de que devia ser sacerdote e religioso”, lembra o monge. “A guerra mexe com a gente e desperta vocações, porque é uma experiência em que se está diariamente perto da morte”, reflete. Cada vez que decolava para bombardear a Alemanha, não sabia se ia voltar.

Padre Francisco trabalha na cozinha, ajuda na hospedaria, presta atendimento espiritual às visitas, dá aulas de história da Igreja e de interpretação da Bíblia aos estudantes do mosteiro e, em meio a tudo isso, medita e reza. “Estou aqui fazendo penitência e pedindo perdão pelos bombardeios que mataram alemães inocentes”, confessa o monge trapista, resumindo uma rotina de 64 anos de clausura. 

Ao longo desse tempo, viajou algumas vezes aos Estados Unidos para visitar o mosteiro que trocou pela América Latina e rever dois irmãos ainda vivos - um de 95 anos e outro de 87 anos de idade. Corresponde-se com a família, escreve e telefona para dar notícias. Antes de chegar ao Mosteiro de Nossa Senhora do Mundo Novo, em 1982, padre Francisco morou por cinco anos no vizinho município da Lapa, onde ele e seus companheiros se instalaram para, depois, comprar as terras de Campo do Tenente. Vinha da Argentina, a convite dos superiores, após ter passado pelo Chile.

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