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A seis meses da eleição, alento de Dilma é que adversários não sobem nas pesquisas

JEFERSON RIBEIRO - Reuters

07 Abril 2014 | 17h 06

Diante da perda de terreno no cenário eleitoral e queda na aprovação da presidente Dilma Rousseff, a seis meses das eleições, o único alento do governo é que os principais adversários ainda não conseguiram tirar proveito do "mau humor" contra a gestão petista, que acumula dificuldades na economia e políticas.

"Está ruim para nós, mas está pior para eles", resumiu uma fonte do Palácio do Planalto à Reuters, ao avaliar o cenário eleitoral dos próximos meses.

Pesquisas do governo confirmam os dados divulgados pelo Ibope na semana passada e no sábado pelo Datafolha, mostrando uma queda generalizada da avaliação da gestão petista e da presidente em todas as áreas.

Os dados preocupam, e muito, os auxiliares de Dilma porque consideram que não há uma razão específica para a queda, o que dificulta também a definição de uma estratégia para recuperar o terreno junto ao eleitorado.

"Há um mau humor generalizado", disse essa fonte. "Esse sentimento está mais concentrado nas grandes cidades", revelou. Uma pesquisa do Ibope, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostrou que mesmo em áreas que o governo do PT sempre foi bem avaliado, como no combate à fome e à pobreza, agora é mais criticado do que elogiado.

O Datafolha também mostrou, no fim de semana, que a avaliação do governo está em queda e já causa corrosão nas intenções de voto da presidente. Em fevereiro, 44 por cento do eleitorado declarava voto em Dilma. Agora, 38 por cento. Novamente, os adversários não capitalizaram a queda da petista e se mantêm nos mesmos patamares de pesquisas anteriores.

Ainda assim, na avaliação do PT e do governo, Dilma segue favorita na corrida presidencial justamente porque os adversários não conseguiram tirar proveito da insatisfação do eleitorado.

"Eles estão se reunindo com o empresariado, com as associações. E ela está entregando casas, formando alunos do Pronatec, distribuindo máquinas", argumentou essa fonte, tentando explicar por que Dilma é favorita e os adversários continuam desconhecidos.

O pré-candidato do PSDB, senador Aécio Neves (MG), e o pré-candidato do PSB e ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, argumentam que têm se mantido estáveis nas pesquisa, porque o jogo ainda não começou.

Em entrevista à Reuters, Aécio disse não esperar subir nas pesquisas até o final da Copa do Mundo, porque ainda não é conhecido do eleitorado, o que deve ocorrer quando a campanha começar para valer.

Mas ambos vêm apostando no desejo de mudança detectado pelas pesquisas desde o ano passado, e que no momento certo acreditam que se reverterá em votos. Apostam ainda nas dificuldades políticas e econômicas que Dilma tem acumulado para atrair atenção dos eleitores que querem mudanças.

Entre janeiro e março, Dilma enfrentou uma rebelião de aliados no Congresso, motivada principalmente pela reforma ministerial e pelas negociações de palanques nos Estados.

As desavenças lançaram dúvidas inclusive sobre a aliança com o PMDB, o maior partido aliado do governo e do vice-presidente Michel Temer.

Esse cenário político ainda pode ser agravado se for instalada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que pode investigar, em pleno ano eleitoral, negócios da Petrobras. O governo tenta manobrar com a base para evitar a investigação política ou para tentar criar uma CPI ampla que permita explorar escândalos políticos dos adversários.

Além disso, desde o ano passado as dificuldades econômicas se agravaram para o governo. A inflação segue perto do teto da meta, a economia patina e no mês passado a agência de avaliação de risco Standard & Poor's rebaixou a nota de crédito do Brasil, apontando a desconfiança na política fiscal do governo.

Uma fonte ligada a Dilma e ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porém, minimizou esse quadro. "Essa disputa política de CPI é o que eles (adversários) têm que fazer. É o jogo deles", afirmou. Na avaliação dessa fonte, o rebaixamento da S&P não faz a menor diferença no eleitorado.

O que conta, afirmou, é o baixo índice de desemprego e a renda crescente. "Isso é que faz a diferença", disse.

Na avaliação do cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília, no entanto, a situação de Dilma pode ficar ainda pior.

"Eu acho que pode ficar pior se tivermos blecautes de energia. A população não vai receber bem se isso ocorrer. Se tiver isso, bye, bye Dilma. E na Copa do Mundo vai haver protestos, o que também é ruim para ela", afirmou Fleischer.

O risco de racionamento de energia tem sido especulado pelo mercado devido ao baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas.

ESTRATÉGIA: MANTER PROCESSO DE "ENTREGAS"

Nesse cenário mais negativo, Dilma vai evitar exposição, segundo a fonte do governo. A presidente não participará de debates e sabatinas até julho e não apresentará plataformas para o segundo mandato antes dessa data.

Dilma continuará "o processo de entregas do governo", disse a fonte do Executivo. Essa é a aposta também para enfrentar os ataques dos adversários à sua imagem de boa gestora.

Quem vai fazer campanha por ela nesse período é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo a fonte. "Ele não tem as amarras da Justiça Eleitoral", argumentou.

Essa estratégia, porém, pode dar força ao movimento "volta Lula", que prega a substituição de Dilma pelo ex-presidente na disputa presidencial deste ano.

Os números do Datafolha mostraram que se Lula fosse o candidato petista, 52 por cento dos entrevistados votariam nele. Aécio manteria os 16 por cento, e Campos ficaria com 11 por cento. Ou seja, mesmo com a queda de avaliação da sua apadrinhada, Lula continua sendo bem mais lembrado pelo eleitorado.

Entretanto, a outra fonte, próxima a Dilma e Lula, disse que o ex-presidente "está esquentando os motores" e deve ampliar o número de viagens pelo país nas próximas semanas.

Lula deve concentrar sua peregrinação em São Paulo e Minas Gerais inicialmente, Estados governados pelo PSDB, segundo a fonte, que nega qualquer movimento no sentido do "volta Lula" entre os petistas.