A verdade da caneta

Artilharia antiaborto do bispo de Guarulhos fere a dignidade das mulheres, em especial das que precisam recorrer ao procedimento

DEBORA DINIZ

25 Junho 2011 | 12h02

A primeira vez que vi as imagens de tortura de presos de Abu Ghraib foi em fotografias na internet. Em seguida fui à exposição de Fernando Botero sobre as mesmas imagens, um pastiche de arte e política. As fotografias e as telas me causaram medo e desconforto: aprendi como os torturadores agem em segredo e impunemente, mas também como há muitas pessoas que não estranham suas práticas. As fotos eram o registro da perversão compartilhada – daqueles que praticavam a tortura e daqueles que a imortalizavam como lembranças de uma viagem secreta. Foi um sentimento semelhante ao que experimentei ao ler a entrevista de d. Luiz Gonzaga Bergonzini, bispo de Guarulhos, em que ele descreve suas práticas de confissão impostas às mulheres vítimas de violência sexual que o procuram em busca de conforto.

 

Não há mulheres verdadeiramente vítimas de estupro, diz o bispo na entrevista. Em alguma medida, todas consentem com a violência sexual. Para ilustrar seu julgamento moral sobre as mulheres e suas falsas histórias de violência o bispo faz uso de uma alegoria que provavelmente resume o que ocorre em seu confessionário: “‘Então, sabe o que eu fazia?’ Nesse momento, o bispo pega a tampa da caneta da repórter e mostra como conversava com mulheres. ‘Eu falava: bota aqui’, pedindo, em seguida, para a repórter encaixar o cilindro da caneta no orifício da tampa. O bispo começa a mexer a mão, evitando o encaixe”. Para o bispo, o orifício da tampa de uma caneta resume a verdadeira história das mulheres estupradas – uma mulher que não consente com o ato sexual “resiste ao encaixe do cilindro na tampa da caneta”. Ao serem confrontadas com a verdade da caneta, as mulheres desistiriam do aborto, pois o estupro seria uma mentira.

 

Nem por meio dessa alegoria espúria sobre a dignidade e o sofrimento das mulheres o bispo conseguiu se aproximar daquelas que o procuram em busca de conforto. Ao segurar o orifício da tampa, o que em sua racionalidade representaria a vagina das mulheres, o bispo foi incapaz de corporificar aquela que teme a violência. As vítimas de violência são meninas e mulheres jovens, para quem o silêncio e o temor são impostos por diferentes métodos – sabemos pouco sobre como se comportam as mulheres em uma cena de violência, apenas a ficção nos conta como elas controlam o corpo nesses momentos. Sob a ofensiva de uma arma, as mulheres nem sequer choram. Elas paralisam, emudecem e cumprem o ritual de perversão de seu torturador, tal como Lucy, a personagem de Desonra, de John Coetzee, que é estuprada no quarto por um grupo de homens enquanto seu pai é trancado no banheiro ao lado. Ela se mantém muda.

 

O bispo diz ter 52 anos de escuta no confessionário, uma experiência que lhe daria autoridade sobre a índole das mulheres. Ele não diz quantas vezes aplicou o teste da verdade, mas sua tranquilidade narrativa me fez lembrar os torturadores e os fotógrafos de Abu Ghraib. Nem o bispo, nem os torturadores, nem os fotógrafos temem suas práticas, pois não conseguem qualificá-las como inumanas. As mulheres estupradas que chegam ao confessionário jamais foram verdadeiramente ouvidas pelo bispo, para quem o mal maior é o aborto e não a violência. Ao imaginar essas mulheres e seus temores, a alegoria da caneta me soa vulgar, ofensiva e violenta. A autoridade espiritual do bispo e o regime confidencial da confissão permitiram que o teste se mantivesse em segredo. Mas, assim como as fotos de Abu Ghraib foram tiradas pelos próprios militares que praticavam as torturas, o teste da caneta para a obtenção da confissão das mulheres foi espontaneamente narrado pelo bispo que o idealizou.

 

Na alegoria da caneta, o bispo assumiu o lugar das mulheres na cena da violência simulada com a repórter. A tampa da caneta seria a vagina resistindo ao pênis do estuprador. A vagina que mexe, segundo a imaginação do bispo, é a da mulher que resiste ao estupro, nem que isso lhe custe a vida. Esse deslocamento de posições não é inocente: representa a autoridade do bispo, que se crê controlando as vaginas das mulheres como se fossem tampas de canetas, diante das vítimas e de suas histórias de tortura. Como o teste da caneta foi criado, quantas vezes foi executado e quantas mulheres foram humilhadas e não confortadas espiritualmente são dados à espera de novas confissões de d. Bergonzini. Assim como o império militar estadunidense se rendeu às fotos de Abu Ghraib, é preciso levar a sério o que foi dito pelo bispo, que age protegido pelo sigilo do confessionário.

 

Debora Diniz é professora da UnB e pesquisadora do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero

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