Alegrias e tristezas da imperatriz

Quando viu Pedro I, Leopoldina, que se casara por procuração, achou-o lindíssimo e se apaixonou. Já o jovem marido achou a mulher baixa e gorda, apesar de linda de rosto

Dias Lopes, jadiaslopes@terra.com.br, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2008 | 03h01

Quando desembarcou no Rio de Janeiro em 1817, para encontrar o futuro imperador d. Pedro I, com o qual casara por procuração em Viena, d. Maria Leopoldina Josefa Carolina de Habsburgo, filha de Francisco I da Áustria, quase desmaiou de emoção. Achou o marido lindíssimo e se apaixonou por ele. Paulo Setúbal, no livro As Maluquices do Imperador (Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1983), confirma que d. Pedro era mesmo um "galhardo tipo de homem". Em compensação, d. Carolina decepcionou o jovem marido na chegada ao Rio. Ele a teria achado baixa e gorda, apesar de linda de rosto. Pedro Calmon, no livro O Rei Cavaleiro (Edição Saraiva, São Paulo, 1941), diz que os austríacos mentiram a d. João VI, pai do noivo, nas negociações do casamento, enviando-lhe um retrato pintado que disfarçava a escassa beleza da moça austríaca. No início, o casal viveu em relativa harmonia, apesar das contumazes infidelidades do marido. Em nove anos de matrimônio, ela lhe deu sete filhos e chegou a orientá-lo politicamente. Aconselhou-o a separar o Brasil de Portugal e recebeu, por isso, o cognome de "paladina da independência". Mas, a partir de 1822, ano em que o futuro imperador se tornou amante de Domitila de Castro Canto e Melo, a quem faria marquesa de Santos, d. Leopoldina perdeu a admiração que lhe dedicava. A primeira mulher de d. Pedro I compensava a falta de atrativos estéticos com uma aprimorada educação, excelente cultura, particular interesse pela botânica e extremo bom gosto, inclusive à mesa. Informa-se que estranhou a pouca qualidade dos ingredientes e pratos nacionais. A inglesa Maria Graham, preceptora dos filhos de d. Leopoldina, teve a mesma opinião. Falou do problema no Diário de uma Viagem ao Brasil e de uma Estada nesse País Durante Parte dos Anos 1821, 1822, 1823 (Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1956). "Como alimento principal, o que mais se encontrava era o toucinho da terra, uma coisa entre a carne gorda do porco e a do porco salgado, sem a parte magra", escreveu ela; atestou o consumo de pepinos, couves, batatas; criticou "a infalível carne de boi assada, essa porém tão dura que dificilmente se podia cortar"; e as sopas pesadas, assinaladas pelo excesso de temperos. Não por acaso, d. Leopoldina procurou contornar as dificuldades contratando o cozinheiro marselhês François Pascal Bouyer ou Boyer. O experiente profissional trabalhou no Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, a residência imperial, de 31 de maio de 1825 a 26 de novembro de 1826, ou seja, até as vésperas da morte da patroa, ocorrida a 11 de dezembro daquele ano. Segundo Carlos Ditadi, historiador do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, Bouyer ou Boyer continuava no Brasil em 1830, "ano de um documento existente em nosso acervo que registra sua partida para Santos, acompanhado de três escravos". Câmara Cascudo, na História da Alimentação no Brasil (Editora Itatiaia, de BH, e USP, de SP, 1983) afirma que, saudosa da comida de sua pátria, d. Leopoldina "era freguesa de um restaurante austríaco, de Frederico Wuelffing", que funcionava na Rua dos Ourives, posteriormente dividida em dois pedaços com a abertura da Avenida Central, atual Rio Branco. Segundo Gastão Cruls, no livro Aparência do Rio de Janeiro (José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1949), ela e o marido viraram amigos de Aymar Marie Jacques, o conde de Gestas, cônsul-geral da França no Brasil. Visitavam-no no Alto da Boa Vista, onde ele tinha uma fazenda povoada com vacas da raça normanda e aves de todo o tipo. Além disso, fazia creme de leite e manteiga fresca, produzia uvas, peras, maçãs e morangos. D. Leopoldina ficou tão amiga da tia do conde de Gestas, a condessa Melle de Roquefeuil, mulher igualmente educada, refinada e culta, que às vezes ia até lá a cavalo, acompanhada de um escudeiro e um cachorro. Sabendo de suas predileções gastronômicas, sempre a recebiam com excelente comida. Desfrutando do clima ameno do Alto da Boa Vista, pela altitude de 300 metros acima do nível do mar e da vizinhança da mata atlântica, nossa primeira imperatriz saboreava pastelões de galinholas, carnes fervidas ou assadas, morangos com creme de leite. "Representavam momentos de alívio para ela, uma austríaca acostumada a essas coisas boas na Europa, para onde não mais retornaria", observa Carlos Ditadi. Eram também lufadas de felicidade em seu triste final de vida. Humilhada publicamente pelo marido, que a obrigava a conviver e a viajar com a amante marquesa de Santos, a imperatriz do Brasil morreu aos 29 anos, em conseqüência de um parto prematuro que alguns historiadores creditam a uma agressão física. D. Leopoldina haveria se negado a comparecer a um beija-mão no qual estaria a favorita de d. Pedro I. Descontrolado com a recusa, o imperador teria tentado arrastá-la à sala do trono, dando-lhe pontapés. Espalhada na Europa, essa versão ainda hoje discutível consternou o país, cuja população a admirava, e manchou de tal modo a reputação do imperador que foi difícil encontrar outra mulher para casar com ele. Nada mais compreensível. Wiener tafelspitz (carne de boi fervida à vienense) Rendimento: 6 porções Tempo: 1 hora Ingredientes ½ kg de osso com tutano bem lavado 1,5 kg de carne de boi (pode ser alcatra) 1 cebola em rodelas 2 cenouras inteiras 4 talos de salsão 1 alho-poró 4 ramos de salsinha Grãos de pimenta-do-reino preta e sal a gosto Cebolinha-verde picada para salpicar Acompanhamento: batatas salteadas e apfelkren* Preparo Numa panela com água fria, leve ao fogo o osso com tutano. Assim que a água ferver, adicione a carne e deixe cozinhar por cerca de 30 minutos. Enquanto isso, numa frigideira, doure ligeiramente a cebola e junte-a à carne, na panela. Incorpore as verduras, os legumes inteiros e os grãos de pimenta. Tempere com sal. Cozinhe em fogo brando, até a carne ficar macia. Retire-a e corte-a em fatias grossas, transversalmente às fibras. Sirva com o próprio molho e salpique a cebolinha-verde. Acompanhe com as batatas e o apfelkren. * Molho à base de maçã (apfel, em alemão) ácida e rábano picante (kren), levando ainda creme de leite, suco de limão, sal e uma pitada de açúcar. Daí o nome apfelkren.

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