Amor (e trabalho) vezes 2

Confira as dicas dos especialistas para lidar com o desafio de criar filhos gêmeos

Cristiana Vieira,

21 Fevereiro 2011 | 08h00

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se um filho dá um trabalhão, imagine quando eles vêm em dupla. Tudo é multiplicado: roupas, berço, enxoval, equipamentos, cuidados... O lado bom é que a alegria também chega em dobro. Além disso, para os pais, há sempre as vantagens de criar mais de um filho de uma só vez. A questão é conseguir adaptar-se, reorganizar a rotina, as tarefas e as contas.

 

A apresentadora Fernanda Lima, mãe de gêmeos que completam 3 anos em abril, dá a dica: quando se consegue passar bem pelos primeiros seis meses, depois é só alegria. "Quando a mãe desenvolve qualidades de um ‘polvo’, o sono vira uma constante. Afinal, a amamentação dupla adianta o tempo de intervalo entre as mamadas", conta. Segundo ela, depois que os filhos crescem mais um pouco e se tornam mais independentes, o dia a dia fica mais fácil. "Eles passam a se cuidar e a encarar juntos os desafios de largar fraldas e chupetas. Também se distraem e brincam mais um com o outro."

 

Já a assistente de fonoaudiologia Kátia Denis Kleparde passou muitos apuros com as filhas, Andreza e Adriana. Quando descobriu que estava grávida, tinha 17 anos e o então namorado, 24. Souberam que eram gêmeos no 3º mês de gestação. Foi um susto. Casaram rápido e as filhas nasceram prematuras, no dia do seu aniversário.

 

Foi uma fase difícil. Os bebês não dormiam, ela fazia tudo sozinha - a mãe e o marido trabalhavam longe e a sogra morava no Paraná -, a casa era pequena, os amigos se afastaram e ela não tinha tempo de dar uma escapada nem para o quintal. "Era eu e eu", brinca. Quando a sogra finalmente veio ajudá-la, acabou ficando doente em sua casa. Só quando as crianças começaram a andar que ela pôde sair de casa. "Hoje em dia são boazinhas, mas já sofri muito."

 

Cinco anos depois, quando tudo tinha entrado nos eixos, ela ficou grávida de novo. "Chorei por três meses. Tinha começado a trabalhar, as meninas estavam independentes", diz Kátia. Só se animou mesmo quando soube que era um menino.

 

Outra mãe de gêmeos é a psicóloga Sâmara Jorge. Durante a gravidez, buscou ajuda e informações na literatura, mas foi em vão. Essa necessidade, paradoxalmente, acabou tornando-a uma especialista no tema filhos múltiplos. Hoje, assina coluna em uma revista segmentada, atende a pais e filhos gêmeos em seu consultório e, em breve, lançará um livro.

 

A experiência pessoal e profissional da psicóloga mostra que é muito comum os pais de múltiplos verem os filhos como um bloco. Assim como as pessoas que convivem com a família. Sâmara afirma que é importante que cada um dos filhos tenha um olhar para si e que eles não se vejam como parte de uma coisa. "É preciso olhar cada filho como uma pessoa única, mesmo que eles sejam idênticos", diz. O primeiro passo da família, então, é tratá-los individualmente.

 

Ao mesmo tempo, vale lembrar que não é um problema ser parecido. Afinal, isso ocorre até entre não gêmeos. O essencial, diz a psicóloga, é que os pais preservem a individualidade dos filhos. Fazer tudo junto, claro, é mais prático, mas o ideal é que cada um tenha, por exemplo, seu espaço, seu prato e suas gavetas - ou seu respectivo cantinho na mesma gaveta.

 

Embora os gêmeos sejam parecidos, eles não foram produzidos em série, explica o pediatra Leonardo Posternak, um dos autores do livro Filhos Gêmeos.

 

As comparações, ele esclarece, serão o ponto de partida para confusões e conflitos. E quando isso acontecer, os pais devem preparar as crianças. "Ao invés de tomar a comparação algo negativo, aproveitem para ressaltar as qualidades de cada um", sugere Sâmara.

 

Respeitar as necessidades individuais também é fundamental. Desde recém-nascidos, cada um tem suas características. Enquanto um acorda no meio da noite para mamar, o outro está num sono profundo. E nem por isso os pais devem acordá-lo para aproveitar a mamada.

 

Separações. Também é saudável que cada filho tenha sua independência, seu momento junto e seu momento separado - assim como irmãos não gêmeos. Deve ter seus próprios amigos, seus brinquedos e suas preferências por atividades distintas. Do contrário, as separações serão sempre dolorosas. Além disso, os pais também devem prezar pelos momentos de exclusividade com cada um. Nem que seja uma ida à padaria com apenas um dos filhos.

 

A dificuldade é encontrar o meio-termo, sem que a preservação da individualidade represente um problema. Se os gêmeos quiserem fazer tudo juntos, tudo bem. Faz parte da experiência e da relação que eles têm desde a barriga. "Quando as crianças conseguem, ao mesmo tempo, ter sua individualidade e estarem sempre juntas, é ótimo", diz Sâmara. "O que não pode é ter radicalismo. Querer separar demais pode ser uma agressão", completa.

 

Guarda-roupa. Embora não ache legal vestir peças iguais, a psicóloga diz que nada é proibido. "Os pais ficam tentados a usar roupas iguais, com cores diferentes. Quando feito de um jeito lúdico, pode até ser divertido. Mas não é regra", diz. O ideal é usar trajes diferentes para manter as características de cada um. Usar modelos idênticos pode fazer com que as crianças pensem que não são vistas individualmente.

 

Sâmara conta que suas filhas passaram por uma fase, por volta dos 6 anos, em que queriam "brincar de gêmeas". Gostavam de confundir as pessoas e queriam que elas adivinhassem quem era quem.

 

As gêmeas Andreza e Adriana Klecarde, de 13 anos, filhas da assistente de fonoaudiologia Kátia (citada no início desta reportagem), adoram fazer tudo juntas e dizem que não se veem tão parecidas. Adriana acha engraçado os tios as confundirem, embora nem se vistam com as mesmas roupas. O curioso, dizem, é que quando vão às compras, cada uma vai para um lado da loja. Mas, quando se dão conta, pegaram peças iguais de cores diferentes.

 

A regra da individualidade também vale para os brinquedos. Quem presenteia tem de saber o que cada um gosta, respeitando gostos, interesses e preferências. E o legal é que eles tenham coisas diferentes para aproveitar a oportunidade de experimentar papéis distintos.

 

Para os pais, o desafio ainda é ajustar o tom entre manter a individualidade sem perder os laços. Embora os gêmeos realmente não sejam um bloco, não é a distância que vai personalizar cada irmão. A educação familiar, esta sim, pode fazer a diferença. A receita, portanto, pede tolerância, bom senso, amor e, quando necessário, rispidez. O estímulo para que as crianças se tornem adultos independentes, garantem os especialistas, depende da dosagem equilibrada desses ingredientes.

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