Análise - A crise brasileira e a utilidade do Mercosul

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Fabrício H. Chagas Bastos*, O Estado de S.Paulo

28 Março 2016 | 19h50

De quando em quando a criatividade visita os esquemas de integração regional na América do Sul. Algo como o Equador propondo 'mudanças substanciais' na constituição da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da OEA, Morales (depois de receber um sonoro 'não' a mais uma reeleição) pedindo uma reunião de emergência da Unasul para defender Dilma e Lula, ou Maduro (também envolto em uma crise sem fim) alardeando o 'golpe' no vizinho.

A única voz sensata é a do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, que muito lucidamente tocou no centro do problema sem rodeios: "a esquerda, quando confunde desejos com realidade, cai nessa deformação do infantilismo, de puro voluntarismo".

É fato que a crise política e econômica no Brasil afeta e afetará os vizinhos, em menor ou maior medida, e natural que as lideranças políticas na região se manifestem. Ainda é muito cedo para medir ou entender quais são (e serão) os impactos na América do Sul destes quase dois anos perdidos pelo Brasil.

No calor dos acontecimentos, as ações tomadas pelos organismos regionais em relação ao caso brasileiro são desencontradas, inócuas. Servem mais ao discurso interno de cada um dos países do que propriamente à consolidação das instituições criadas ao longo dos últimos vinte e cinco anos (em especial na última década).

É um tanto desalentador ouvir o alto representante-geral do Mercosul, o ex-deputado brasileiro Dr. Rosinha, dizer que "está se desenhando uma ruptura da ordem institucional e da Constituição no Brasil, e isso preocupa todos os demais países-membros do Mercosul". Especialmente quando cita "conspirações orquestradas pelos Estados Unidos" para desestabilizar Brasil e Venezuela.

Esse é o tom das vozes na América do Sul sobre o problema brasileiro. Antes, é preciso esclarecer o que é, no conjunto, o Mercosul. Criado há um quarto de século como um mecanismo de integração econômica, o bloco se metamorfoseou precariamente ao longo dos anos, transformando-se em um mecanismo de concertação política na região.

Não há problema em se ter transbordado os objetivos iniciais. Do ponto de vista econômico, o bloco funciona, precária e lentamente, mas funciona. Contudo, as ações políticas empreendidas até então são desastradas. A suspensão do Paraguai e a concomitante admissão da Venezuela em 2012 são os exemplos mais evidentes.

É difícil imaginar que o sócio majoritário de toda a integração sul-americana possa ser punido, de algum modo, por conta dos desdobramentos da crise que vive. Macri, desde que foi eleito, assumiu uma discreta liderança na região, e não faz questão de iniciar um confronto político com o principal parceiro. O Paraguai já anunciou que é contra sanções diplomáticas. O Uruguai se mantém em observação. Bolívia e Venezuela já têm problemas demais para se desgastarem externamente.

Ao final do dia, o que sobra é a velha e mal institucionalizada integração regional na América do Sul, que se mantém por inércia (uma vez que é custoso desmontar tudo o que já foi construído) e que serve de palanque de quando em quando para demonstrações de força ao jogo político interno. Até nisso Dilma Rousseff falhou.

* Fabrício H. Chagas Bastos é professor de Relações Internacionais e Estudos Latino Americanos da School of Politics and International Relations da Australian National University e Research Fellow do Australian National Centre for Latin American Studies da mesma instituição. Doutor pela Universidade de São Paulo. E-mail: fabricio.chagasbastos@anu.edu.au

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