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Análise - A vida do policial importa

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

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Rafael Alcadipani*,
O Estado de S. Paulo

19 Fevereiro 2016 | 21h00

Dados publicados no Anuário de Segurança Pública de 2015 mostram que ao menos um policial é morto por dia no Brasil.  De acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Núcleo de Estudos sobre Organizações e Pessoas, da FGV - EAESP, realizado no ano passado com mais de 10 mil policiais das diferentes forças policiais em todo o País, 61,9% dos que responderam a pesquisa relataram que tiveram algum colega próximo vítima de homicídio em serviço. Fora de serviço, o número passa para impressionantes 70% dos policiais cujos colegas próximos foram vítima de homicídio. É raro passarmos uma semana sem um caso de execução de policiais relatado na imprensa. Não é apenas o homicídio que ameaça a vida dos policiais brasileiros. O suicídio e o adoecimento acarretado pelo estresse e pelas dificuldades que os policiais enfrentam em seu dia a dia compõem o drama cotidiano da profissão em nosso país.  Recentemente, o cineasta José Padilha, diretor de Tropa de Elite e da série Narcos, argumentou em entrevista que o absurdo foi naturalizado no Brasil, e a facilidade com que a sociedade brasileira aceita o morticínio de policiais deixa o fato constatado por Padilha ainda mais evidente.

A vulnerabilidade do trabalho policial tem na frequência com que policiais são vitimados fatalmente a sua face mais repugnante. Porém, não podemos deixar de considerar que há todo um sistema que contribui para a fragilidade da profissão no País. Em primeiro lugar, destacam-se as péssimas condições de trabalho com que policiais lidam no dia a dia. Sobram histórias de armas fornecidas pelo Estado que às vezes falham, às vezes disparam sozinhas. É insistentemente comum que policiais tenham que comprar equipamentos para poder realizar as suas funções. Há casos em território nacional em que os policias precisam levar para o serviço o próprio papel higiênico. Isso sem falar que o apoio psicológico é privilégio de poucas polícias brasileiras. Um segundo aspecto é a baixa remuneração. Policiais brasileiros, com grande frequência, precisam ter trabalhos fora da polícia para poder complementar a renda familiar. A remuneração inadequada e insuficiente deixa os policiais em situação de extrema vulnerabilidade. Em terceiro lugar, há o fator medo que ronda diuturnamente a mente dos policiais. Muitos chegam ao ponto de precisar esconder de seus próprios vizinhos a profissão que exercem. 

Diante deste contexto, medidas urgentes precisam ser tomadas para romper esse círculo vicioso que gera o morticínio nas polícias. É fundamental uma articulação dos governos para fornecer aos policiais condições reais de trabalho, com equipamentos adequados e efetivo condizente com os desafios do País. Parcerias com universidades poderiam ser úteis para mitigar problemas como a falta de apoio psicológico. Outro ponto importante é a melhoria da remuneração, que poderia também ocorrer em forma de salário indireto. Por exemplo: policiais poderiam ter benefícios fiscais e também juros subsidiados para comprar casa e arcar com a educação de seus filhos, por exemplo. É urgente, ainda, a produção de pesquisas que esmiúcem as causas do morticínio de policiais no País. Os governos, também, precisam mostrar mais sensibilidade para o problema agilizando a liberação das indenizações dos policiais vitimados e buscando amparar as famílias das vítimas. Mas, antes disso, seria fundamental agir nas causas do problema. Finalmente, campanhas como a capitaneada por membros do Garra da Polícia Civil de São Paulo são fundamentais para conscientizar a sociedade da importância de se preservar a vida de nossos policiais. A vida do policial importa, e muito.

* Rafael Alcadipani, professor de Estudos Organizacionais da FGV-EAESP e visiting scholar no Boston College, EUA, e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

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