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Análise - O desgaste da imagem de Lula

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

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Marco Antonio Carvalho Teixeira*,
O Estado de S. Paulo

04 Março 2016 | 22h00

A semana que se encerra serviu para aumentar a pressão política sobre o governo e acentuou, ainda mais, o desgaste da imagem de Lula como liderança política nacional, ao culminar com a sua condução coercitiva para depor na Lava Jato, mesmo não havendo intimação prévia, com o inédito argumento de tentar protegê-lo e evitar comoção social.  Parte desse desgaste decorre de erros do próprio governo, como a desastrada saída do ministro da Justiça num momento de crise política e de suspeitas de que sua substituição atenderia à pressão do PT por controle nas ações da Polícia Federal. Outra parte tem a ver com os desdobramentos da interminável Operação Lava Jato, que nem o governo e nem políticos conseguem saber aonde vai chegar, e muito menos quem vai ser alcançado por ela. Entramos novamente num clima de instabilidade política agudo que não contribui para criar um ambiente de confiança para superar as crises política e econômica, e que aumenta o grau de incerteza acerca da continuidade do mandato da presidente Dilma. Qual a consequência política deste momento para o futuro imediato do PT e do PSDB?

O do PT, sem dúvida, parece o mais sombrio. Com a abertura da janela para troca de partido sem perda do mandato e livre de prejuízo, as candidaturas, ainda abertas, podem mudar de rumo. O desgaste da legenda e o enfraquecimento de Lula certamente vão ser dois componentes a serem avaliados pelos que postulam sucesso nos resultados eleitorais deste ano. Fernando Haddad, por exemplo, eleito com a imagem associada a de Lula, deve enfrentar dificuldades ainda maiores na busca pela reeleição. Óbvio que sair do PT pode soar ainda pior, mas os desgastes da legenda e do líder terão peso negativo sobre sua candidatura a reeleição, cenário bem diferente do ocorrido na sua eleição em 2012. O caso de Haddad é apenas um exemplo: o PT já vem sofrendo defecção de prefeitos de cidades de pequeno e médio porte, como ocorreu em João Pessoa - a maioria na busca de sobrevivência política.

Com relação ao PSDB, o cenário ainda não é muito claro. O partido tem sido visto muito mais como uma organização que quer tirar do poder quem lá está do que uma legenda que tem propostas alternativas para melhorar o quadro atual do País. Além disso, os tucanos se veem em contendas internas. As prévias para a Prefeitura de São Paulo ameaçam a unidade do partido para 2018 e escancaram como os projetos de poder de suas três principais lideranças no momento - Aécio, Alckmin e Serra - se mostram acima do interesse partidário, o que trava uma ação mais propositiva dos tucanos no atual momento de crise. Uma vez que não discute suas propostas e não apresenta alternativa a atual crise, o PSDB age como o partido do não, semelhante ao que o PT fazia na década de 1990.

Por fim, a agudização da crise com a Lava Jato chegando a Lula e ameaçando avançar para o período do processo eleitoral vem deixando tanto tucanos como petistas em processo de paralisia. Ambos não conseguem organizar qualquer ação coletiva voltada para a superação da crise. Miram mais em se manter (no caso do PT) ou chegar (o PSDB) ao Planalto a qualquer custo, mesmo que isso represente assistir a uma rápida deterioração das condições econômicas do País.

* Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas - SP

 

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