Análise - O limite do paternalismo indulgente

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Fabrício H. Chagas Bastos*, O Estado de S. Paulo

15 Abril 2016 | 20h36

A tensão e o cansaço chegarão ao ápice no fim de semana com a votação do pedido de impeachment de Dilma na Câmara dos Deputados. Armado como circo, com ares de final de Copa do Mundo, o momento de saber se afastarão ou não a presidente irá mostrar quão verdadeira é a dita polarização da sociedade brasileira.

Como um condenado, o País arrasta ambas as crises (econômica e política) como uma bola de ferro. Os anos de euforia da primeira década dos 2000, em que se pensou e projetou o Brasil como finalmente entrando no ringue dos pesos pesados do mundo, como tendo assento na mesa dos tomadores de decisão, transformaram-se em frustração, em uma melancolia viscosa que toma conta de todos.

No domingo, sendo ou não golpe, chegaremos ao limite da crise? Antes, a precisão com as palavras é importante. Muito se alardeia que vivemos um ‘golpe’ que a ‘democracia está em risco’. Sobre o primeiro, tudo o que se vê é muito distante de um golpe (autogolpe, golpe branco, qualquer que seja o tipo!); seria mais correto chamar de cínica manipulação política todo o toma-lá-dá-cá a que assistimos ao longo dos últimos meses. É inimaginável que algum grupo político vá tomar de assalto o Estado para expulsar outro. Segundo, o alarmismo sobre risco à democracia é tão verídico quanto um possível ataque nuclear à Brasília (!). As instituições funcionam, e demonstram grau de maturidade raras vezes visto na história do País.

Há quem diga que o volume de dinheiro escondido em off-shores por russos, chineses e um enorme etc. é ínfimo perto dos números brasileiros. Essa terrível mania de usar o inferno nacional como parâmetro para os males do mundo é característico de uma imaturidade política nacional.

O paternalismo indulgente brasileiro, evitando a todo o custo uma confrontação de ideias (o conflito social per se), ao usar a cordialidade e a concertação como instrumentos de negociação e acomodação de interesses, é campo fértil para as vitimizações mesquinhas e discursos vazios a que assistimos. Não se trata de incitar a violência, mas de deixar claro que as diferenças existem e devem ser debatidas, à exaustão, intermediadas. Levantar um muro em frente ao Congresso nada mais é do que sinalizar a boa e velha tutela do Estado sobre a sociedade brasileira.

O limite foi cruzado quando os artifícios de política baixa passaram a dominar a cena. Quando o governo passou a bater cabeça para nomear ministros numa sucessão de batalhas com o Judiciário. Quando a oposição se calou quanto a projetos e passou apenas, como traço comum da política brasileira, a enxergar o míope curto-prazo. Quando a velocidade de mudança passou a ser tão vertiginosa que os escritos pela manhã já estavam desatualizados pela hora do almoço.

No próximo domingo, o mundo olhará para o Brasil, de perto. Caso o impeachment não vingue, Dilma será um pato manco, refém do Congresso, e sabidamente incapaz de aglutinar capital político para enfrentar os problemas que vivemos. Se Temer assumir, mesmo com o discurso de ‘salvação nacional’, pouco se pode prever do que seria um governo PMDB. O que resta é uma grande incógnita. O limite é, de fato, a dúvida.

Qualquer um dos cenários possíveis (ouvi colegas falando em pelo menos dez!) não resolverão a polarização artificial da sociedade brasileira, seus gargalos sociais, políticos e econômicos. Continuamos e continuaremos a ser uma sociedade pobre, desigual e profundamente marcada pelo afastamento do Estado para com a sociedade.

O que está em jogo em toda essa convulsão não é só uma urgente reforma do sistema político-partidário, o combate à corrupção simbiótica entre empresários e políticos. O que vemos é uma encruzilhada civilizatória.

Tome-se por exemplo a política externa brasileira que, tal qual boa parte das políticas públicas, está paralisada. A voz do País sumiu. O que muda para o mundo? Nada. Para o País, a ressaca e a necessidade de reconhecer que muito ainda deve ser feito para que se possa pleitear voz ativa - não reconhecer os limites do sistema seria arrogância e ingenuidade, como prova ter sido.

Talvez o otimismo (quase irracional) de um amigo esteja me contaminando - já passou pelo New York Times e pela Foreign Affairs -, mas creio que domingo assistiremos, com espírito de novela e futebol, ao nascimento de uma nova consciência no País. Rompemos o limite do cabresto intelectual de séculos. Com trauma, euforia, melancolia e ressaca. Ainda bem.

Começamos a pensar a política brasileira para além do curto prazo, adiante de nossas paixões imediatas.

* Fabrício H. Chagas Bastos é professor de Relações Internacionais e Estudos Latino Americanos da School of Politics and International Relations da Australian National University e Research Fellow do Australian National Centre for Latin American Studies da mesma instituição. Doutor pela Universidade de São Paulo. E-mail: fabricio.chagasbastos@anu.edu.au

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