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'Aprendi que há limite para tudo', afirma brasileiro preso por falsa ameaça de bomba

Chris Delboni - Com Liliana Pinelli

11 Julho 2014 | 10h 12

Condenado a 1 ano de prisão nos EUA por alerta de bomba em voo da TAM, Francisco Cruz, de 23 anos, fala pela 1ª vez sobre o caso

A coluna Direto de Miami conversou com exclusividade com o brasileiro Francisco Fernando Cruz, que foi condenado por falsa ameaça de bomba em um avião aqui no Estados Unidos. Atualmente, ele cumpre pena em uma penitenciária no Estado da Geórgia, mas, antes de ser transferido, ele nos contou a sua história no Centro de Detenção Federal de Miami.

Cruz garante que “tudo não passou de uma brincadeira”, mas que custou a sua liberdade. Tudo começou com um desafio.

Como no seriado Americano How I Met Your Mother, onde Barney Stinson, o personagem representado pelo ator Neil Patrick Harris, aceita desafios dos mais absurdos, um amigo provocou Cruz a mandar uma mensagem para as autoridades americanas no começo do ano dizendo que um avião da TAM, saindo de Miami com destino a Brasília, continha uma bomba.

Arquivo pessoal
Fernando Cruz em Nova York, antes de ser preso

Apesar de ser sempre alegre e brincalhão, Nando, como é conhecido entre amigos e familiares, afirmou que daquela vez não aceitaria a provocação e respondeu, em clima de brincadeira, “challenge considered” ou considerando o desafio, em português.

Mas Cruz disse que tudo deu errado um dia antes de pegar o voo de volta para Sorocaba, interior de São Paulo, onde mora a família - e admite que “mente vazia é oficina do diabo”.

Ele conta que fez sinal para um táxi para ir ao shopping comprar uma mala, mas um outro passageiro do outro lado da rua chegou antes e pegou. Enquanto esperava pelo próximo táxi numa cidade pequena com poucos disponíveis e muito frio na época, ficou com tempo de sobra nas mãos e entrou na faculdade Montclair State University, em Nova Jersey, perto de Nova York, para se aquecer.

“Eu perdi tudo naquele dia. Perdi o táxi. Perdi a carteira. Peguei o ônibus para o lugar errado”, diz.  Se nada disso tivesse ocorrido, “nunca teria mandado o email”.

Mas aconteceu.  E ele perdeu também sua liberdade, quando viu um computador disponível na faculdade e resolveu mandar a famosa mensagem para TAM e para o Departamento de Polícia de Miami: “Flight must not take off. Targeted. It will go down. Retaliation. Cargo is dangerous. Be advised” (traduzindo: “O voo não deve decolar. Alvo. Vai cair. Retaliação. Carga é perigosa. Estejam avisados”.).

E, em seguida, escreveu ao amigo: “challenge completed” ou desafio cumprido.

O que o jovem brasileiro de 23 anos, condenado a um ano e um dia por falsa ameaça, nunca imaginou é que os americanos levariam a sério a comunicação e não achariam graça da brincadeira.

Depois de ir para o aeroporto errado, perder o primeiro voo e finalmente embarcar, Nando aterrissou em Miami à noite e sete policias entraram no avião.

“O piloto disse: ‘Ninguém se levanta, porque temos um problema’”, conta. “E eu pensei: ‘Deve ter uma pessoa perigosa aqui’”. O que ele não esperava é que a tal pessoa era ele.

Cruz foi levado ao Departamento de Polícia de Miami e interrogado. Quando viu que não tinha saída, confessou ter mandado não só um, mas dois emails, denunciando a falsa ameaça de bomba no avião.

Poderia pegar até cinco anos de prisão e ter de pagar multa de US$ 250 mil.  Mas como tudo não passou, de fato, de uma brincadeira, a sentença foi reduzida.

Logo após a entrevista à coluna, Cruz foi transferido para a prisão D. Ray James em Folkston, no Estado da Geórgia, de onde sairá no fim de novembro por bom comportamento após cumprir 85% da pena. E, desta vez, espera não encontrar nenhuma distração no caminho: vai da penitenciária direto para o aeroporto e, de lá, de volta para casa.

A primeira coisa que quer fazer quando sentir o cheiro da liberdade, diz,  é tomar um sorvete de morango e abraçar a família.

Sua mãe, Claudia Cruz, é cabeleireira e o pai, Luis Fernando, caminhoneiro. “Ele é um rapazinho sonhador, mas sempre foi um ótimo menino, de bom coração”, diz a mãe.  “Sempre me deu orgulho no colégio, os professores da escola o adoravam. Quando voltou dos Estados Unidos pela primeira vez e visitou a escola, a professora o apresentou aos alunos como um menino exemplo.”

E assim era.  Entrou no Mackenzie em Publicidade e Marketing com 17 anos. Aprendeu inglês sozinho, jogando videogame, e logo conseguiu uma bolsa de intercâmbio para passar um semestre na Marquette University em Milwaukee, no Estado de Wisconsin, em 2011.

Quando acabou o período, voltou ao Brasil, mas sempre com o desejo de retornar aos Estados Unidos.

Em meados de 2012, conseguiu.  Surgiu uma oportunidade de estudar na faculdade Orange County Community College, em Middletown, no Estado de Nova York, onde moraria na casa de americanos e cuidaria do filho mais novo do casal, portador de autismo - como “au pair”, uma espécie de babá em troca de casa, comida e estudos.

Mas a família não cumpriu com o prometido, garante ele, e, na véspera de Natal de 2013, resolveu deixar a casa, fugido. Estava retornando ao Brasil - quando a provocação dos amigos falou mais alto que a razão.

A brincadeira está custando caro - mas também servindo de lição. “Antes tudo era uma piada. Eu aprendi que tem um limite para tudo”, diz, confiante. “Não vou deixar de ser quem eu sou.  Não vou deixar que esse lugar mude quem eu sou. Vou sempre fazer brincadeirinhas aqui e ali, mas nunca mais desse nível.” 

Seu maior medo é ter decepcionado amigos e parentes. “Eu vi a minha imagem desmoronar”, conta com certa tristeza. “Sempre fui um modelo para os outros.  Sempre penso como vou olhar para as pessoas de novo.”

Ele diz que sente muita falta dos estudos e espera retomar a faculdade quando chegar em São Paulo. Enquanto isso, vem conquistando os outros colegas de prisão com seu carisma. Dá aula de inglês para os estrangeiros e aprendeu que tem um talento: o de contador de histórias.

Cruz começou a criar narrativas na sua cabeça, como se fossem histórias em quadrinhos, e, desta fase complicada, está aproveitando para tirar alguns aprendizados: “Tiro proveito das pequenas coisas. Se fizer as coisas com alegria, tudo dá certo”, acredita. “Tento focar nas coisas boas, sorrir e não ter a vergonha de ser feliz.”

Mas o maior conselho que tem para dividir é mesmo: “Não mande mensagem falsa para o governo americano”. Colaborou Barbara Corbellini Duarte

Siga Chris Delboni no Twitter: @chrisdelboni