Argentina Malbec sem tango nem cordilheira

O que acontece quando uma região quer ser outra? O habitual era o Novo Mundo aspirar ao estilo europeu e emular os vinhos de Bordeaux. Mas, ano passado, uma região francesa milenar na produção vinícola, Cahors, decidiu ser a nova Argentina

Luiz Horta, blog.estadao.com.br/blog/horta,

04 Fevereiro 2010 | 10h57

Eles já tiveram o monopólio do mercado inglês e seus vinhos eram cultuados como os melhores, disputados e caros. Houve até guerras que envolviam a posse valiosa dos vinhedos da região. Quando Eleanor de Aquitânia se casou com o futuro rei inglês, havia Cahors no dote. O vin negre, chamado assim pela cor escura do seu líquido, era o hype da Idade Média.   O auge de sua popularidade foi no século 19. Chegou a ser dos mais famosos vinhos franceses, copiado e até falsificado. Mas a região dependia do porto de Bordeaux para embarcar seu produto, e os comerciantes bordaleses dificultaram o acesso. Dominaram o mercado. Para acentuar o declínio de Cahors, veio a praga da filoxera, que devastou as plantações, reduzidas a 10% do total anterior.   Cahors é a terra original da uva Malbec. Para tentar resolver a crise secular, um grupo de produtores achou resposta simples: se a Argentina vende e nós não vendemos, vamos modernizar a região, torná-la do Novo Mundo, decidiram. Importaram mudas argentinas e começaram a alterar o estilo dos vinhos. Que fiquem prontos para beber mais rápido, sejam mais amigáveis e populares, sonham. Cahors quer ser Mendoza. Há vantagem nisso?   Não foi o que mostrou a degustação do Paladar. Num painel com dez vinhos disponíveis no mercado, os mais intrigantes eram potentes na personalidade da uva, bem franceses e austeros, com taninos ainda duros, que precisam de tempo. O aroma era uma mistura de couro, tabaco, ameixas pretas e chocolate, sem carvalho novo evidente.   Como os vinhos foram provados às cegas, o resultado surpreendeu. O preferido dos degustadores (o colunista e dois convidados, os enófilos José Luiz Pagliari e Didú Russo) foi o Château de Haute-Serre, cujo proprietário, ironicamente, está liderando o movimento pró-mendocinização. Engraçado conjeturar: por que o dono de um Château com um vinho tão bom quer modificá-lo?   Nosso conselho é claro: bebam Cahors enquanto existe na sua originalidade. Os vinhos, majoritariamente, eram da safra 2005, tinham corpo e estrutura para uma década mais. Os preços são simpáticos. É boa ideia comprá-los para guardar. Serão um sabor nostálgico, de um lugar em crise de identidade.   Indicações de vinhos:   CH. DE LA POUJADE 2004 (R$ 58, VITIS VINIFERA, TEL. 21/2235-7670) Com a rusticidade no ponto certo, um camponês com roupa de domingo. Cheio de personalidade, taninos firmes, boa acidez     CHATONS DU CÈDRE 2005 (R$ 52, WORLD WINE, TEL. 3383-7400) Muito típico no nariz, cheiro gostoso de ameixas secas e uma leve lembrança de estábulo. Ótima acidez, bom corpo     LE PLANT DU ROY 2005 (R$ 45, CIE. VINS DE FRANCE, TEL. 3284-5429 ) Bem simples, curto na boca. Seu irmão mais caro, elegante, **Impernal (R$ 75), é muito melhor, saboroso, bons taninos     CH. LAMARTINE 2005 (R$ 79, VINCI, 2797-0000) Bem Bordeaux no nariz, sedutor. Taninos bem secantes, um pouco ligeiro na acidez e curto na boca, mas gostoso de beber     CH. HAUTE-SERRE 2005 (R$ 110,20, MISTRAL, TEL. 3372-3400 ) Muito sério no nariz, com muita fruta e tipicidade, uma aula em miniatura da região. Na boca é equilibrado, tem taninos que precisam de tempo para polir. Belo vinho  

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