Argentinos a bom preço

A degustação de produtos argentinos feitos com a uva Malbec prova: dá para beber vários tintos realmente muito bons dentro da acessível faixa de até R$ 30

Saul Galvão, saul.galvão@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2008 | 03h01

Depois de um intervalo não planejado, volto à coluna entusiasmado e com uma ótima constatação: pode-se ainda beber bons tintos a preços mais do que convidativos, como provaram vários produtos argentinos feitos com a Malbec realmente muito bons que ficam abaixo dos R$ 30. Nada mau mesmo. A Malbec é a grande tinta argentina, que dá vinhos de vários níveis e preços, dos mais sofisticados e caros a alguns que conquistam também pelos preços. Evidentemente, há uma grande diferença de qualidade entre os Malbecs mais caros, os que são lembrados para ocasiões especiais, feitos com uvas das melhores parcelas e vinificados com todos os cuidados, e os produtos mais comuns, que não podem ter os cuidados todos, são elaborados em grandes quantidades e destinados ao consumo mais corrente, do dia-a-dia. Nos produtos mais caros é mais comum encontrarmos os toques de carvalho, que combinam muito bem com os tintos Malbec. São tintos de grande corpo, com estágios em barricas dessa madeira, caríssimas, vinhos que podem e devem envelhecer nas garrafas. Mas a degustação mostrou também que as principais e mais gostosas características da Malbec também podem estar presentes em produtos baratos. Algumas vezes, até aparecem as evocações de madeira, provavelmente transmitidos por barricas velhas, já usadas em produtos mais nobres, tábuas ou cavacos de carvalho colocados em contato com o líquido. Não é a mesma coisa, pois o envelhecimento em barricas é mais complexo, mas os que gostam de "amadeirados" podem ficar satisfeitos. O mais importante é que podemos encontrar algumas das melhores qualidades da Malbec também nos produtos populares (frutas maduras, notadamente ameixas, e algumas sugestões florais, como a violeta). A Malbec pode ser originária da França, mas encontrou seu auge nos desertos de Mendoza, onde os vinicultores, sem ameaças de chuva, podem deixar a fruta amadurecer até o ponto ideal, garantindo para o vinho a transmissão de suas melhores características. Na degustação também se destacou o Trapiche Roble Malbec 2006, gostoso, intenso e longo (R$ 29,90 na Interfood, 6602-7255). SEPTIMA MALBEC 2006 ONDE ENCONTRAR: KYLIX VINHOS, TEL. 3825-4422 PREÇO: R$ 22,90 COTAÇÃO: 87/100 Um tinto gostoso, com boa relação qualidade-preço. É feito numa vinícola moderna, funcional, em Agrelo, uma das melhores zonas de Luján de Cuyo, Mendoza. Uma empresa do grande grupo espanhol Codorniu. O nome remete ao fato de ser a sétima vinícola desse conglomerado. Uma empresa grande, com vinhos de vários níveis. Segundo o rótulo, feito com uvas plantadas em terrenos com mil metros de altitude. Em Mendoza, a altitude dos vinhedos tem influência direta na qualidade. Como é comum com os tintos feitos com essa uva, bastante concentração de cor. Aspectos violáceos típicos de vinhos novos. Passou seis meses em barricas de carvalho, já usadas em outros vinhos. Toque de carvalho presente, mas não intenso. Provavelmente carvalho americano, revelado pela evocação da baunilha. Na boca, não dos mais potentes e encorpados, mas redondo, fácil de beber, também com algo de madeira e de chocolate. Deixa sensação gostosa na boca. Pronto. Álcool bem comportado. 14% de álcool. ANUBIS MALBEC 2006 ONDE ENCONTRAR: CANTU, TEL. 0300-210 1010 PREÇO: R$ 24 COTAÇÃO: 89/100 Um tinto gostoso, com ótima relação custo-benefício. Ele é feito por um casal de talento, Susana Balbo e o marido, Pedro Marchevsky, que trabalharam muito tempo na Catena e agora dirigem a vinícola Domínio Del Plata, em Agrelo,Luján de Cuyo. Uma marca a ser lembrada, com produtos muito bons em vários níveis. Este Anubis é um "Malbec" básico, nada caro, que dá muito prazer. Um tinto de boa cor, que se destaca pela elegância, maciez e equilíbrio na boca. Aroma gostoso e com muitas frutas (amoras). O aroma predispõe a gostar do vinho, que não decepciona boca, onde se destaca pela maciez. Aparece algo de torrefação, provavelmente resultado de algum contato com o carvalho. Um tinto macio, "doce", sedoso e elegante. Mais do que pronto para o consumo. Taninos nada agressivos, sem nada de amargor. Final gostoso. Equilibrado, com boa acidez. 13,5% de álcool. ALAMOS MALBEC 2007 ONDE ENCONTRAR: MISTRAL, TEL. 3372-3400 PREÇO: R$ 28,53 COTAÇÃO: 87/100 Os tintos e brancos da linha Alamos são feitos pela Catena-Zapata, a grande vinícola de Mendoza. Uma espécie de segunda linha, de vinhos bem feitos, mais populares, não complexos, mais fáceis, confiáveis, que não custam tão caro quanto os de nome Catena. Este fica bem de acordo com a definição: simples, agradável e gostoso. Ainda um pouquinho novo, pode melhorar, mas já se mostrou versátil, pronto para acompanhar um churrasco e muitos outros pratos. A primeira impressão não foi das melhores. Talvez novo demais, apresentou aroma até agradável, com frutas, mas tímido Depois de um certo tempo, o aroma abriu um pouco, mas continuou o ponto mais fraco. Deu um salto na boca. Não dos mais encorpados, mas gostoso, com toques florais (talvez violetas) e de frutas tão típicos da Malbec. Também algo de chocolate e de goiaba. Teve contato com o carvalho. Tinto de boa acidez, que não cansa. É novo, mas com taninos nada agressivos. Não é longo, mas deixa boca boa. 13,5% de álcool. KAIKEN MALBEC 2006 ONDE ENONTRAR: VINCI, TEL. 6097-0000 PREÇO: R$ 30 COTAÇÃO: 88/100 A Kaiken é uma incursão da vinícola chilena Montes na Argentina, em Luján de Cuyo. Montes, do outro lado dos Andes (o lado certo, segundo os argentinos - não tão certo, segundo os chilenos). Independentemente de bairrismos, bons produtos nas duas vertentes. O grande enólogo Aurelio Montes vem acertando também na Argentina, como prova este Kaiken Malbec da linha básica, que tem um ''temperinho'', uma proporção pequena da Cabernet Sauvignon. Um vinho potente, intenso, ainda um pouco tânico. Para quem gosta de tintos encorpados, um pouco rústicos e com toques de madeira. Um tinto "Novo Mundo", que impressiona mais pela concentração que pela elegância. Aroma potente, marcante, com a madeira (carvalho) aparecendo um pouco demais. Na boca, intenso, com algo de baunilha e aspectos de torrefação. Tanino bem presentes. Um pouco tânico. Resseca um pouco a boca. Um pouco alcoólico demais. Deve ganhar com mais tempo na garrafa. 14,5% de álcool.

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