Árvores, chips, terremotos e férias

O Vale do Silício é formado por 22 cidades localizadas na Península de San Francisco, Estado da Califórnia, norte dos Estados Unidos. A imagem que a Califórnia evoca, no geral, é a das moças louras de biquíni e surfistas, eventualmente algum deserto, artistas de cinema evitando os flashes. O Valley não é assim. Não chega a nevar, mas quando o inverno é rigoroso os carros amanhecem cobertos por uma fina camada de gelo. No verão faz um calor parecido com o nosso dos Trópicos, mas a água do Pacífico é tão gelada que, nas praias, os únicos que vemos no mar são os leões-marinhos. São praias de areia grossa, pedras e algas, que os californianos no outono freqüentam com bermudas e casacos de moletom. O melhor da paisagem são as matas: Yosemite, um dos principais parques nacionais, não é longe dali. Mas as árvores estão por todo lado. São extensas florestas de pinheiros, as redwoods, belíssimas sequóias, árvores altas que só, espaçadas entre si uns bons passos em um chão coberto por cascas de árvores e folhas secas. São tão marcantes na paisagem, estas árvores, que cidades do Valley se chamam Redwood City (Cidade da Árvore Vermelha), Woodside (À beira da mata), Palo Alto (Árvore Alta). No centro da bandeira do Estado está o grande grizzly bear, enorme urso de pêlos marrons que habitou por muitos séculos aquelas terras e inspirou o Zé Colméia. O grizzly, na Califórnia, chegou a se extinguir. Há uns anos, novos espécimes foram importados do Canadá. A velha estrada que deixa o Valley em direção ao oceano corta uma dessas matas e, em determinado trecho, é possível ver um repentino declive que acompanha o asfalto por alguns quilômetros, até que se desencontram, estrada e corte. É a Falha de San Andréas, uma violenta rachadura que tem início em San Francisco e segue 1,3 mil quilômetros em direção ao sul. Ali embaixo fica o encontro de duas grandes placas tectônicas, a Pacífica e a Norte-americana. Quando se encostam, ainda que de leve, dá terremoto. No Valley, quando vem um de cinco e pouco, ninguém liga. Às vezes, nem percebe. Os de seis podem fazer um ou outro suar frio. Em 1989 aconteceu um de sete. Caiu um trecho duma ponte, tombou um viaduto, matou 57 pessoas. Todos têm medo do Big One. O Grande. Deve ser de oito. Os cientistas garantem que vai acontecer. Só não sabem quando. No centro do Silicon Valley, na cidade de Palo Alto, longe uns 40 minutos de San Francisco de carro ou de trem, está a Universidade Stanford. Quem é do campus só se refere a ela como the farm – a fazenda – porque os prédios estão num ambiente arborizado e agradável, mas também porque antes de ser universidade era mesmo uma fazenda. A escola foi fundada por um ex-governador da Califórnia que enriqueceu na geração de 1849. (É o ano em que chegaram os primeiros exploradores de ouro naquele oeste longínquo. O time de futebol americano da região, não à toa, se chama San Francisco 49ers) Foi de Stanford, em 1939, que saíram os dois jovens estudantes Bill Hewlett e Dave Packard para fundar, numa garagem, a HP. Está lá até hoje uma plaquinha: Aqui nasceu o Vale do Silício. Silício: o elemento químico de número atômico 14 que se encontra por toda parte na Terra. É o segundo elemento mais abundante que há – só perde para o oxigênio. Ele é que serve de condutor nos microchips. Numa terra tão rica em empresas de tecnologia, não poderia vir por acaso o apelido do Vale. Em 1977, veio a Apple. Em 1994, o Yahoo! Em 98, o Google. São tantas, inúmeras, incontáveis. Muitas nasceram em garagens. Em tantas, de estudantes da universidade. É onde o mundo está sendo inventado. A coluna sai de férias por um mês. Retomo o trabalho de lá, no olho do furacão, direto do Silicon Valley, onde passarei um ano. pedro.doria@grupoestado.com.br

Pedro Doria,

25 Agosto 2008 | 00h00

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