As filhas geladas da clausura

Na Bélgica, berço de algumas das melhores cervejas do mundo, uma produção artesanal gerada no meditativo silêncio de velhos monastérios trapistas arrebanha fiéis que [br]marcam até hora para receber a indulgência de uma das cobiçadas garrafas

Eduardo Passarelli*, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2010 | 01h28

ESPECIAL PARA O ESTADO

A inventividade na produção de cervejas fez da Bélgica uma das mais notórias escolas cervejeiras do mundo e rendeu aos belgas a alcunha de "alquimistas" da bebida fermentada. Lá nasceram estilos que hoje correm o mundo - lambic, saisons, tripel, dubbel, sour ale - e também um outro nome que impõe respeito no meio cervejeiro: trapista.

Este último, na verdade, não é um estilo de cerveja e sim uma denominação religiosa cuja origem remete ao monastério de La Trappe, na França. À época, a produção cervejeira (e de outros produtos alimentícios) tinha o propósito de ajudar na subsistência das abadias, sem visão comercial. Quando a Revolução Francesa acabou e Napoleão Bonaparte expulsou da França muitos monges, seis monastérios trapistas se instalaram na Bélgica. E lá renovaram sua produção cervejeira.

Mesmo sabendo que o acesso ao interior desses templos é, em muitos casos, restrito, o Paladar percorreu a rota das abadias à procura dessa história e, principalmente, das cervejas de alta qualidade produzidas nos seis monastérios: Westvleteren, Westmalle, Achel, Rochefort, Chimay e Orval.

Mas, se a visita é restrita, há um consolo: todos têm "bares oficiais", estabelecimentos credenciados para a venda das cervejas. E, o melhor, todos os bares ficam a poucos metros das abadias.

A viagem pode ser dividida em duas etapas: a holandesa, com três monastérios, e a francesa, com outros três. Explicamos: Westvleteren, Westmalle e Achel ficam bem perto da fronteira com a Holanda (Achel, inclusive, ocupa os dois territórios). Já Rochefort, Chimay e Orval ficam próximos do território francês.

Um automóvel com GPS leva, sem erros, à porta de todos eles, mas é bom ter uma companhia que prefira água à cerveja, já que dificilmente o viajante sairá da visita sem provar ao menos duas variedades, normalmente de teor alcoólico mais elevado que a média nacional.

E, caso precise de um bom argumento para convencer seu candidato a motorista, diga que na visita a Orval ele poderá degustar a água da fonte Matilda, de onde sai a matéria-prima para a produção cervejeira local.

*Autor do blog edurecomenda.blogspot.com e sócio do bar Melograno

1. Chimay

A mais conhecida entre as cervejas trapistas, tem três versões produzidas pela Abadia Notre-Dame de Scourmont, identificadas pelas cores dos rótulos: branca (tripel), vermelha (dubbel) e azul (quadruppel). Nas versões de 750 ml, com garrafas arrolhadas, a branca chama-se Cinq Cents; a vermelha, Première; e a azul, Grande Resèrve. O monastério tem uma grande área aberta a visitas e na mesma rota fica o restaurante oficial da Chimay, o Auberge de Poteaupré, onde também é possível se hospedar. No Auberge há queijos da marca e a Chimay de rótulo preto, produção específica para os monges, com 5% de teor alcoólico. Na saída, prepare o cartão de crédito. Há uma loja com artigos da marca, queijos e outros produtos trapistas.

Abadia Notre-Dame de Scourmont -

Route Charlemagne, 8, 6464, Baileux,

www.chimay.com

Auberge de Poteaupré - Rue de Poteaupré, 5, 6464, Boulers, www.chimay.com

2. Achel

No oeste da Bélgica, bem na divisa com a Holanda, fica a Abadia Achelse Kluis, que produz três cervejas: uma blond e uma brune (ambas com 8% de teor alcoólico) e a Extra, uma brune com 9,5% de teor alcoólico. As visitas ao monastério devem ser agendadas com antecedência. A cervejaria não recebe visitantes, mas há um bar dentro do monastério com vista para a pequenina cervejaria. Só ali pode-se provar, em versão chope, a Achel 5, também nas versões blond e brune, porém com apenas 5% de teor alcoólico.

Achelse Kluis - De Kluis, 1, 3930, Achel Kluis, www.achelsekluis.org

3. Westmalle

Imponente, a área da Abadia Trapista Van Westmalle abriga, além da clausura, uma moderna cervejaria. Nenhuma das duas pode ser visitada, mas próximo dali está o Café Trappisten, que vende as duas produções da marca: uma dubbel e uma tripel, tanto em garrafas (de 330 ml e 750 ml) quanto na pressão. A casa tem ainda pratos feitos com cerveja - prove a ótima quiche com queijo trapista.

ABDIJ Der Trappisten Van Westmalle - Antwerpsesteenweg, 496, 2390, Westmalle, www.trappistwestmalle.be

Café Trappisten - Antwerpsesteenweg, 487, 2390, Westmalle, www.trappisten.be

4.Rochefort

Na encantadora cidade de Rochefort fica a Abadia Notre-Dame de Saint-Remy, produtora das cervejas Rochefort. É possível visitar a pequena igreja no interior do monastério, mas fique atento aos dias em que ela abre. Em uma rodovia perto dali fica o Relais St. Remy, restaurante especializado em cervejas trapistas e considerado o "lar" oficial das cervejas Rochefort. O monastério também certificou um laticínio, que faz ótimos queijos e manteiga com a marca.

Abadia Notre-Dame de St. Remy - Route de Ciney, 8, 5580, Rochefort, www.trappistes-rochefort.com

Relais St. Remy - Route de Ciney, 140, 5580, Rochefort,

www.relaisstremy.be

5. Westvleteren

O mais recluso dos seis monastérios, a Abadia Saint Sixtus of Westvleteren tem três cervejas que estão entre as mais desejadas do mundo. Elas não têm rótulo e diferenciam-se uma da outra apenas pela cor da tampa: verde, azul e amarela. São vendidas só para pessoas físicas em caixas com 24 garrafas - há uma cota máxima de uma caixa por pessoa. As caixas devem ser reservadas por telefone e retiradas na porta do monastério, na data marcada pelos monges. Quem quiser degustar as cervejas in loco pode ir ao In De Vrede, taberna oficial de Wesvleteren. Ali, paga-se entre 3,20 e 4,20 a garrafa - no Brasil, quando essas cervejas estiveram à venda, uma garrafa de 330 ml custava cerca de R$ 170.

Abadia Saint Sixtus of Westvleteren - Donkerstraat, 12, 8640, Westvleteren,

www.sintsixtus.be

In De Vrede - Donkerstraat, 13, 8640, Westvleteren, www.indevrede.be

6.Orval

A poucos quilômetros da fronteira com a França, no oeste belga, fica a Abadia Notre-Dame D"Orval. Construído no século 10.º, o prédio já abrigou diversas ordens religiosas. É difícil não se encantar com as belas ruínas da antiga igreja, destruída na Revolução Francesa. O ingresso custa 5 e dá acesso também à fonte Matilda, palco de uma lenda que ronda a história da Orval. Na mesma estrada que dá acesso ao monastério fica o Auberge de L"Ange Gardien, restaurante oficial da Orval. Lá, além da versão exclusiva com 3,5% de álcool da Orval, pode-se tomar a água da lendária fonte.

Abbaye D"Orval - Villers-devant-Orval, B-6823,

www.orval.be

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