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As glórias do Glória

A alma do hotel mais picante do Rio sobreviverá a Eike Batista?

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João Luiz Albuquerque,
O Estado de S.Paulo

17 Janeiro 2016 | 06h00

O Hotel Glória já nasceu chique. Foi construído entre 1920 e 1922, projeto dos arquitetos Joseph Gire e Sylvio Riedlinger. O francês Gire era vidrado no estilo Luiz 16 misturado com toques de art déco, movimento que estourou durante os loucos anos 20. Bela obra. Mas só levou o bronze, porque ouro e prata do Gire ficaram com o Copacabana Palace, de cara para o mar de Copacabana e a nobre sede do Fluminense Football Club, ali pertinho.

Ficava a meio pulo do Palácio do Catete, sede do governo brasileiro até o bye bye Rio de JK em 1960. E a um pulo inteiro do Palácio Monroe, sede do Senado Federal. Daí, muito político eleito fez do Glória sua morada passageira. Se ficar tudo bem com vocês e não macular a sensibilidade moral alheia ai do outro lado, tempo para falar de sexo escondido.

Senador afoito e a fim de uma bodega bastava atravessar a Rio Branco no sinal, adentrar o edifício São Borja e escolher um dos rendez-vous espalhados por seus muitos andares. Detalhe: esse francesismo significava prostíbulos elegantes onde políticos, gente graúda do governo e a turma dos frequentadores habituais das então importantes colunas sociais saciavam seus mais bandidos desejos.

E onde entra o Hotel Glória nessa muita sem-vergonhice? Os políticos com medo de um possível flagra chegar até o conhecimento de suas mulheres, no esplêndido berço do lar, não iam — recebiam as biscates em “domicílio”, quer dizer, no Glória. Não existe registro da treinada e eficiente recepção barrar qualquer uma delas no mui moitado baile erótico.

O Glória sempre botou banca com sua imponência. Ficava todo prosa com os acontecimentos nele programados. Das visitas de presidentes lá de fora aos congressos internacionais. Vizinho, o moderno prédio das revistas da editora do Adolpho Bloch, arquitetura de Oscar Niemeyer. Durante o tempo dos militares também mandando fora do quartel, uma turma importante de seus jornalistas, toda ela Partidão, se escondia na hora do almoço num dos salões mais enrustidos do Glória para conspirar contra o regime.

Durante um tempão a comissão que escreveu nossa Constituição atual se reuniu num dos enormes salões do hotel. Mas aí, qualquer grande hotel, de sobrenome repleto de estrelinhas, tira isso tudo de letra. Para esses outros metidos a bestas, difícil era ter o DNA festeiro do Glória, sempre apoiado pelo dono, Eduardo Tapajós. Seu carinho & simpatia com todo o mundo empatava com a eficiência em tocar seu hotel com o que chamam por aí de brilhantismo.

Anos 50, carnaval dentro de casa, o Baile das Atrizes, uma semana antes do tríduo momesco. Dos melhores da cidade, di menor não precisava provar ser di maior e todo o andar da piscina virava um tropical e desnudado misto quente de Babilônia, Sodoma e Gomorra, ao som da marchinha e do samba, aspergido com o ainda não proibido lança-perfume Rodouro.

Para quem gosta de números, qual bicheiro, essa lista não vai fazer mal. O Hotel Glória foi o primeiro hotel cinco estrelas do Brasil. O presidente da República Epitácio Pessoa queria um lugar digno para sediar o Primeiro Centenário da Independência do Brasil e o empresário Rocha Miranda falou tamos aí. O resto é puro pioneirismo inovador na base do primeiro tudo, segundo nada:

 

Edifício em concreto armado do Brasil.

Banheiros e telefones em todos os primeiros 180 quartos.

Central telefônica com tarifador automático.

Heliponto.

Sauna.

Sala e equipamentos para videoconferência.

Uma das primeiras piscinas em hotéis do Rio de Janeiro.

 

Nas reformas foi ganhando mais 51 apartamentos, centro de convenções para mil pessoas, dois restaurantes novos e preocupou-se em seguir modas ao construir um Lounge na cobertura, Piano Bar no lobby, spa e um tal de Fitness para estressados.

Melhor foi o invejado casamento do Glória com Augusto Marzagão, quando o criador do FIC, o Festival Internacional da Canção, baixou sua divertida criatividade em forma de quartel general executivo. Por suas suítes, corredores e, principalmente, beira da piscina com um fornido bar, imaginem porres mil, deu-se o glorioso desfile de grandes nomes da música pop mundial. De Paul Simon, rei do me-deixem-em-paz, ao incrível compositor, poeta e músico catalão Juan Manoel Serrat. O talento animal do ex-Blood Sweat & Tears David Clayton Thomas, dizem, sempre fumado, contrastando com a cafonice da mentira loura chamada Malcom Roberts, por tudo isso, encantando o Maracanãzinho com Love is All, bem feito. Até a coqueluche chilena dos anos 50, Lucho Gatica, plena forma, mandando ver os boleros mais famosos do mundo.

O mais bizarro do FIC & Hotel Glória? 1968 ou 69, a turma feminina da imprensa descobriu que uma cantora das Bulgárias ou Romênias da vida, escapa-me a correta geografia, recatada, quieta, comprida, branca e pálida era homem.

Com toda esta folha corrida de sonho, o Hotel Glória não merecia o Eike Batista.

Deu no que deu.

JOÃO LUIZ DE ALBUQUERQUE É JORNALISTA, PRODUTOR MUSICAL, DOCUMENTARISTA. NASCEU EM 1939, TRABALHOU NO JORNAL O GLOBO E FOI CORRESPONDENTE NOS ESTADOS UNIDOS DAS REVISTAS MANCHETE, FATOS & FOTOS E JÓIA. VIVE NO RIO

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